Seguidores

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Quando o Eu Adormece

 

Quando o Eu Adormece

Há uma antiga ilusão que acompanha os homens desde que aprenderam a contar histórias sobre si mesmos.

A ilusão de que somos inteiramente senhores de nossas ações.

Gostamos de acreditar que existe dentro de nós uma voz clara, firme e constante que governa a vida como um capitão conduzindo um navio. Chamamos essa voz de consciência, de razão, de vontade ou simplesmente de "eu".

Mas, vez ou outra, algo acontece e essa certeza começa a rachar.

Às vezes é um sonho.

Às vezes é uma lembrança que retorna sem convite.

Às vezes é um amor que não deveria existir e, no entanto, insiste.

E às vezes é apenas uma pergunta simples:

Quem somos quando o eu se cala?

Os antigos gregos talvez respondessem que a alma é maior do que a consciência.

Freud diria que a casa nunca pertenceu inteiramente ao seu proprietário.

A neurociência moderna, com seus mapas coloridos e seus nomes difíceis, parece chegar a uma conclusão semelhante por caminhos diferentes: existe uma imensa atividade acontecendo dentro de nós antes mesmo que a consciência tome conhecimento dela.

O coração bate sem pedir autorização.

As células trabalham em silêncio.

Memórias se reorganizam durante o sono.

Feridas cicatrizam enquanto dormimos.

Até mesmo certas decisões parecem surgir de regiões profundas antes que possamos chamá-las de nossas.

Talvez a consciência seja menos um rei e mais um cronista.

Talvez ela não governe a cidade.

Talvez apenas registre aquilo que acontece em suas ruas.

Essa hipótese assusta.

Mas também liberta.

Porque se o eu não é o soberano absoluto, então a vida não depende apenas de sua força.

Há algo em nós que continua trabalhando quando acreditamos ter fracassado.

Há algo que continua construindo quando pensamos que tudo foi destruído.

Há algo que continua caminhando quando já não encontramos razões para seguir.

Os gregos chamavam isso de alma.

Os psicanalistas falam em desejo.

Outros chamam de esperança.

O nome pouco importa.

Importa reconhecer que existe uma parte de nós que conhece caminhos que a consciência desconhece.

É ela que faz uma criança aprender a andar após centenas de quedas.

É ela que permite que um coração volte a amar depois de ter sido partido.

É ela que leva alguém a recomeçar uma pesquisa, escrever uma nova página ou abrir um novo livro quando todas as razões parecem apontar para a desistência.

Há uma sabedoria estranha nesse movimento.

Uma sabedoria que não se impõe pela força.

Que não grita.

Que não exige aplausos.

Ela simplesmente permanece.

Como uma semente sob a terra durante o inverno.

Vista de cima, parece não haver vida.

Mas a raiz continua crescendo.

Em silêncio.

Talvez seja por isso que os grandes momentos da existência raramente sejam percebidos quando acontecem.

A árvore não escuta o próprio crescimento.

O mar não percebe a erosão das pedras.

A alma não acompanha a transformação de si mesma.

Somente anos depois, olhando para trás, alguém percebe que atravessou desertos que julgava intransponíveis.

E que, apesar de todas as interrupções, perdas e desvios, nunca deixou verdadeiramente de caminhar.

Talvez a maturidade não consista em controlar tudo.

Talvez consista em confiar.

Confiar que existe uma parte de nós que sabe voltar para casa.

Mesmo quando esquecemos o caminho.

Mesmo quando a noite parece longa.

Mesmo quando o eu adormece.

Talvez ... 


Nota ao leitor

Esta reflexão nasceu durante uma aula de Farmacologia do curso de Psicanálise, dedicada ao estudo dos sistemas glutamatérgico e gabaérgico. Em termos simples, o glutamato é o principal neurotransmissor excitatório do cérebro, relacionado à aprendizagem, memória e ativação neuronal, enquanto o GABA atua como o principal neurotransmissor inibitório, regulando a atividade cerebral e participando dos processos de relaxamento, controle e sono.

Ao discutir os efeitos de substâncias capazes de alterar a consciência sem interromper completamente determinados comportamentos automáticos, surgiu uma questão que ultrapassa os limites da neurociência: o que acontece com a subjetividade quando a capacidade de dizer "eu" fica temporariamente suspensa?

A partir dessa pergunta, o texto aproxima neurociência, psicanálise e filosofia, dialogando com uma inquietação antiga que atravessa a história do pensamento ocidental: somos apenas aquilo de que temos consciência ou existe em nós algo maior do que o próprio eu?


Referências

FREUD, Sigmund. Cinco lições de psicanálise

PLATÃO. Fédon. T.

PLATÃO. A República

NÚCLEO BRASILEIRO DE PESQUISAS PSICANALÍTICAS. Módulo de Farmacologia. O Sistema Glutamatérgico e Gabaérgico. Aula ministrada por Stephanie de Oliveira, 2026.


São Paulo, 24 de março de 2026. 

Isabel Perides 

Travessias 

Quando o pensar tem um preço

 

Quando o pensar tem um preço 

Há uma pergunta que atravessa a história da filosofia como um rio subterrâneo.

Por que aqueles que dedicam a vida ao pensamento tantas vezes encontram a incompreensão?

Não me refiro apenas ao erro ou à discordância. O pensamento vive delas. Refiro-me à hostilidade que surge quando alguém ousa questionar aquilo que sua época considera evidente.

Foi assim com Sócrates.

Foi assim com Boécio.

E continua sendo assim, sob novas formas, com muitos intelectuais do presente.

Imaginemos uma cena.

Não uma sala de aula, nem um tribunal, nem uma universidade.

Uma praça fora do tempo.

Ali estão Sócrates, Platão e Boécio.

Ao lado deles, senta-se um pensador contemporâneo. Seu rosto traz as marcas do cansaço. Não do cansaço físico, mas daquele que nasce quando uma pessoa percebe que suas ideias deixaram de ser discutidas para serem apenas julgadas.

Sócrates é o primeiro a falar.

— Dize-me, amigo, por que estás abatido?

O homem responde:

— Porque transformaram minhas ideias em caricaturas. Porque muitos falam sobre mim sem terem me lido. Porque aquilo que tentei construir com anos de estudo tornou-se motivo de suspeita.

Sócrates permanece em silêncio por alguns instantes.

Depois pergunta:

— E a verdade mudou por causa disso?

O homem hesita.

— Não.

— Então talvez tua dor não esteja na verdade, mas na expectativa de reconhecimento.

Platão observa a conversa.

Foi ele quem assistiu à condenação de seu mestre pela cidade que deveria tê-lo protegido.

Ele sabe que a injustiça nem sempre nasce da maldade. Muitas vezes nasce da incapacidade de compreender aquilo que desafia as crenças estabelecidas.

— As cidades — diz Platão — raramente perseguem aquilo que já compreendem. O conflito surge quando alguém obriga uma época a olhar para si mesma.

O homem abaixa a cabeça.

Talvez reconheça naquela frase algo de sua própria experiência.

Então uma terceira voz se faz ouvir.

É Boécio.

Entre os três, talvez seja quem melhor compreenda a dor da perda.

Foi respeitado.

Foi poderoso.

Foi ouvido.

Depois foi acusado, preso e condenado.

Foi justamente quando tudo lhe foi retirado que escreveu uma das obras mais belas da tradição filosófica: A Consolação da Filosofia.

Boécio olha para o homem e pergunta:

— O que exatamente te foi tirado?

— A tranquilidade.

— E onde ela estava?

— No meu trabalho. No reconhecimento. Na possibilidade de ser ouvido.

Boécio sorri com uma tristeza serena.

— Então tua tranquilidade estava apoiada na Fortuna.

A palavra paira no ar.

Fortuna.

A antiga senhora que distribui favores sem jamais prometer permanência.

Hoje oferece prestígio.

Amanhã oferece silêncio.

Hoje entrega aplausos.

Amanhã entrega esquecimento.

Boécio continua:

— O erro não está em receber os bens da Fortuna. O erro está em acreditar que eles pertencem a nós.

Sócrates concorda.

Platão também.

Porque os três sabem algo que cada geração precisa redescobrir.

O reconhecimento é valioso.

Mas não é o fundamento da verdade.

A reputação é importante.

Mas não é o fundamento da justiça.

Os aplausos podem confirmar uma ideia.

Mas jamais a tornam verdadeira.

O homem permanece em silêncio.

Talvez pela primeira vez perceba que sua dor não nasce apenas da injustiça sofrida.

Nasce também da descoberta de que o pensamento possui um preço.

Há épocas em que esse preço é a prisão.

Há épocas em que é o exílio.

Há épocas em que é a difamação.

Há épocas em que é a solidão.

Nenhuma delas é agradável.

Mas todas acompanham aqueles que insistem em fazer perguntas difíceis.

A praça torna-se silenciosa.

O sol começa a se pôr.

Então o homem faz a última pergunta.

— Vale a pena continuar?

Os três filósofos trocam um olhar.

Sócrates responde primeiro:

— Vale a pena viver de acordo com aquilo que reconheces como verdadeiro.

Platão completa:

— Vale a pena porque uma alma em paz consigo mesma possui mais valor do que qualquer triunfo passageiro.

Por fim, Boécio conclui:

— Vale a pena porque a Fortuna pode tirar muitas coisas. Mas não possui poder suficiente para arrancar de um homem aquilo que ele realmente é.

A noite chega.

A praça desaparece.

Os filósofos partem.

Mas suas palavras permanecem.

Talvez porque a história do pensamento nunca tenha sido a história daqueles que foram imediatamente compreendidos.

Talvez porque as ideias mais importantes quase sempre tenham começado como incômodos.

E talvez porque cada época, mais cedo ou mais tarde, seja obrigada a reencontrar aqueles que antes rejeitou.

Talvez ...

Nota ao leitor

Este texto foi inspirado pela leitura de A Consolação da Filosofia, de Boécio, e pelos diálogos platônicos que narram a vida e a condenação de Sócrates. Mais do que refletir sobre personagens históricos, procura pensar uma experiência recorrente da vida intelectual: a tensão entre a busca da verdade e o desejo humano de reconhecimento. Entre Atenas, a prisão de Boécio e os debates do presente, permanece a mesma questão: o valor de uma ideia depende da aprovação de seu tempo ou da fidelidade à verdade que procura expressar?



São Paulo, 23 de junho de 2026. 

Isabel Perides 

Alguns procuram um porto. Outros aprendem a amar o mar.

Sócrates e a Cidade Fragmentada

 

Sócrates e a Cidade Fragmentada

 

Quando pensamos em política, costumamos imaginar governos, leis, eleições ou disputas pelo poder. Mas a política clássica nasceu de uma pergunta mais profunda. Antes de perguntar quem deve governar, os gregos perguntaram: como é possível viver juntos?

 

Essa pergunta atravessa toda a vida de Sócrates.

 

O jovem ateniense que caminhava pelas ruas da cidade não começou investigando constituições ou formas de governo. Como muitos de sua época, voltou os olhos para os grandes mistérios da natureza. Escutou os ecos de Tales, que procurava na água o princípio de todas as coisas. Conheceu as teses de Anaxímenes, que encontrava no ar a origem do mundo. Ouviu falar de Heráclito e do eterno fluxo das coisas. E certamente tomou conhecimento de Empédocles, que explicava o universo pelo combate permanente entre o Amor, que une, e a Discórdia, que separa.

 

Sem saber, a política já estava ali.

 

Pois toda reflexão política nasce de uma questão anterior: o mundo é unidade ou conflito?

 

Mas Sócrates operou uma mudança decisiva. Em vez de continuar perguntando do que é feito o universo, voltou-se para os homens. A questão deixou de ser cosmológica para tornar-se ética. O problema não era mais compreender os astros, mas compreender a vida humana.

 

Contudo, a pergunta fundamental permaneceu a mesma.

 

O homem também é dividido.

 

A cidade também é dividida.

 

A alma também é dividida.

 

Talvez por isso Platão tenha colocado seu mestre no centro de quase todos os seus diálogos. A vida de Sócrates tornou-se a própria encenação dessa busca por unidade em um mundo fragmentado.

 

No Banquete, encontramos uma das expressões mais belas dessa questão. Aristófanes narra o famoso mito dos andróginos. Segundo a lenda, os seres humanos eram originalmente completos. Possuíam uma unidade que foi rompida pela intervenção dos deuses. Desde então, cada metade procura reencontrar aquilo que perdeu.

 

Durante séculos, esse mito foi lido como uma explicação poética do amor. Mas Platão sugere algo mais profundo. Pela voz de Diotima, Sócrates mostra que Eros não é apenas o desejo de uma pessoa por outra. É o desejo de algo ausente. É o movimento da alma em direção àquilo que lhe falta. É a busca da totalidade.

 

Talvez seja por isso que Eros ocupe um lugar tão importante na filosofia platônica. Antes de ser amor romântico, Eros é o impulso que leva o fragmentado a procurar a unidade.

 

A República pode ser lida a partir dessa mesma perspectiva.

 

Atenas encontra-se dividida por interesses, paixões e ambições. Os cidadãos disputam poder. Os grupos entram em conflito. A cidade perde sua harmonia.

 

Mas Platão não vê a origem do problema apenas nas instituições. A desordem política nasce de uma desordem mais profunda.

 

A cidade fragmentada é o reflexo da alma fragmentada.

 

Por isso a República não começa discutindo constituições. Começa investigando a justiça. E logo descobrimos que a cidade justa e a alma justa obedecem ao mesmo princípio: cada parte deve ocupar seu lugar sem tentar dominar as demais.

 

Razão, coragem e desejo precisam encontrar equilíbrio.

 

Governantes, guardiões e produtores precisam encontrar equilíbrio.

 

A política torna-se, assim, uma arte da reconciliação.

 

A cidade justa é aquela em que a multiplicidade não destrói a unidade.

 

Mas a tragédia da história de Sócrates está justamente no fato de que sua própria cidade foi incapaz de realizar esse ideal.

 

Quando Atenas o leva a julgamento, vemos a fragmentação atingir seu ponto máximo. A multidão volta-se contra aquele que passou a vida inteira tentando despertar seus concidadãos para a reflexão. O filósofo que buscava unir a cidade à verdade é condenado pela própria cidade.

 

A morte de Sócrates representa muito mais do que a execução de um homem.

 

Ela simboliza o fracasso da pólis em reconciliar conhecimento e poder, sabedoria e opinião, filosofia e política.

 

Atenas escolhe a divisão.

 

Sócrates bebe a cicuta.

 

Mas sua derrota transforma-se em vitória histórica.

 

Pois sua morte dá origem a uma das maiores aventuras intelectuais da humanidade.

 

Séculos mais tarde, um médico vienense encontraria novamente o mito do Banquete. Freud percebeu algo que ultrapassava a simples narrativa amorosa. Para ele, o mito dos andróginos expressava uma tendência mais ampla da própria vida. Não apenas os amantes procuram reunir-se. Toda vida parece buscar formas de ligação, união e integração.

 

Aquilo que Platão chamava de Eros reaparece na psicanálise como uma força que tende a unir o que foi separado.

 

Nesse ponto, filosofia e psicanálise se aproximam de maneira surpreendente.

 

Ambas interrogam o mesmo problema.

 

Por que aquilo que está dividido procura reunir-se?

 

Por que a fragmentação produz sofrimento?

 

Por que a unidade exerce tamanho fascínio sobre o espírito humano?

 

Talvez a política clássica tenha nascido precisamente dessa inquietação.

 

Não da busca pelo poder.

 

Não da administração do Estado.

 

Não da elaboração de leis.

 

Mas da tentativa de responder a uma pergunta mais antiga e mais difícil:

 

Como reunir aquilo que foi separado?

 

A vida de Sócrates pode ser lida inteiramente como uma resposta a essa questão.

 

Ele tentou reconciliar aparência e verdade.

 

Tentou reconciliar conhecimento e ação.

 

Tentou reconciliar indivíduo e comunidade.

 

Tentou reconciliar a alma consigo mesma.

 

E tentou reconciliar a cidade com a justiça.

 

Talvez tenha fracassado em seu próprio tempo.

 

Mas a permanência de sua voz ao longo dos séculos sugere que certas derrotas pertencem apenas ao presente.

 

Pois toda vez que uma sociedade se fragmenta, toda vez que a política se reduz à disputa entre interesses inconciliáveis, toda vez que a verdade se afasta da vida pública, a figura de Sócrates retorna para nos lembrar que a cidade não se sustenta apenas pela força das leis.

 

Ela depende também da difícil arte de reconstruir aquilo que foi dividido.

 

E talvez seja essa a mais profunda herança da filosofia política clássica.

 

A convicção de que a justiça não nasce da eliminação das diferenças, mas da capacidade de transformá-las em uma unidade viva.

 

A mesma unidade que os gregos buscaram na cidade, que Platão buscou no Bem, que Sócrates buscou no diálogo e que, séculos depois, Freud reencontraria sob o nome de Eros.


Talvez ...

 

Referências

ASSOUN, Paul-Laurent. Freud et les philosophes. Paris: Presses Universitaires de France (PUF), 1988. Cap. II: “Freud et Platon”, p. 187-205.

FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer (1920).

FREUD, Sigmund. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905).

PLATÃO. A República.

PLATÃO. O Banquete.

PLATÃO. Apologia de Sócrates.

PLATÃO. Fédon.


Referências Indiretas:

EMPÉDOCLES. Fragmentos.

SCHOPENHAUER, Arthur. O mundo como vontade e representação.

Upanishads (referidas indiretamente por Schopenhauer e discutidas por Assoun).


Nota ao leitor


Este texto dá continuidade à série de reflexões sobre a filosofia política clássica iniciada com a leitura da República de Platão. Se os textos anteriores procuraram acompanhar a construção da cidade justa e a formação do filósofo, este ensaio retorna ao personagem que habita o centro dessa história: Sócrates.

 

Ao longo dessas páginas, procurei reunir diferentes fios da tradição filosófica os pré-socráticos, o Banquete, a República e até mesmo o diálogo posterior entre Platão e Freud para refletir sobre uma questão que parece atravessar toda a história do pensamento político: a tensão entre unidade e fragmentação.

 

Nos próximos textos, seguiremos acompanhando os desdobramentos dessa questão na tradição clássica, avançando para Aristóteles e sua concepção da pólis, antes de percorrer o longo caminho que conduz a Maquiavel, Hobbes, Locke, Rousseau e aos grandes debates da modernidade.


Se a filosofia política começou perguntando como viver juntos, talvez sua história inteira seja apenas uma sucessão de diferentes respostas a essa mesma pergunta.

A reflexão apresentada neste ensaio foi inspirada especialmente pela leitura do capítulo “Freud et Platon”, de Paul-Laurent Assoun, cuja análise das relações entre Eros, o mito do andrógino e a teoria freudiana das pulsões permitiu a interpretação política desenvolvida nesta série sobre a obra de Platão.

 




São Paulo, 20 de junho de 2026. 
Isabel Perides 

sábado, 20 de junho de 2026

A Casa à Beira-Mar

 

Dizem que a casa estava ali antes mesmo da estrada que levava até a praia.

Era uma construção antiga, voltada para o oceano, com paredes gastas pelo sal e janelas que pareciam observar o horizonte há séculos.

Quando herdou a casa, a nova proprietária acreditou que encontraria apenas silêncio.

Estava enganada.

Logo descobriu que não morava sozinha.

Na biblioteca vivia uma mulher cercada por livros. Lia sem descanso. Fazia anotações, construía perguntas e parecia acreditar que todas as respostas do mundo poderiam ser encontradas em uma página ainda não lida.

Em outro cômodo morava uma senhora de roupas escuras e olhar severo. Passava os dias organizando documentos, classificando argumentos e verificando se as paredes continuavam firmes.

No andar superior vivia uma mulher silenciosa. Recebia visitantes cansados, escutava histórias e parecia compreender dores que ninguém mais conseguia enxergar.

No sótão morava uma escritora. Era a única que parecia verdadeiramente feliz. Escrevia cartas, histórias e memórias para pessoas que talvez jamais encontrasse.

Durante algum tempo, a proprietária acreditou que aquelas mulheres apenas dividiam a mesma casa.

Mas estava errada.

Cada uma desejava governá-la.

A mulher dos livros acreditava que a casa deveria ser conduzida pelo conhecimento.

A senhora dos documentos defendia a ordem, as regras e a segurança.

A mulher silenciosa sustentava que nada era mais importante do que compreender o sofrimento humano.

A escritora insistia que uma vida sem imaginação transformava qualquer casa em prisão.

As discussões tornaram-se frequentes.

Quem ocuparia o salão principal?

Quem tomaria as decisões?

Quem teria a última palavra?

A proprietária observava tudo em silêncio.

Quanto mais tentava escolher uma delas, mais a casa parecia dividir-se.

Corredores tornavam-se escuros.

Portas permaneciam fechadas.

O mar parecia distante.

Foi então que a tempestade chegou.

O vento atravessou as janelas.

Os retratos caíram das paredes.

Velhas portas se abriram.

E, no fundo de um corredor esquecido, surgiu um quarto que ninguém visitava havia muito tempo.

Sentada diante de uma janela voltada para o mar, havia uma jovem.

Nenhuma das outras moradoras falava dela.

Nenhuma parecia notar sua existência.

— Quem é você? — perguntou a proprietária.

A jovem demorou a responder.

— Eu também moro aqui.

— Por que nunca saiu deste quarto?

Ela sorriu.

— Porque sempre havia alguém disposto a viver por mim.

A mulher dos livros explicava.

A dos documentos decidia.

A escritora transformava tudo em histórias.

A mulher silenciosa compreendia tudo.

Ela voltou o olhar para o oceano.

— Mas ninguém queria apenas sentir.

A proprietária permaneceu ao seu lado.

Nenhuma das duas falou por muito tempo.

Ouviam apenas o som das ondas.

Quando retornaram ao salão principal, encontraram as outras moradoras em silêncio.

Pela primeira vez ninguém discutia.

Pela primeira vez ninguém tentava ocupar o lugar das demais.

A mulher dos livros continuava estudando.

A senhora dos documentos continuava cuidando da estrutura da casa.

A mulher silenciosa continuava escutando.

A escritora continuava escrevendo.

Mas algo havia mudado.

Nenhuma delas desejava mais governar sozinha.

Foi então que a proprietária compreendeu o segredo da casa.

Durante muito tempo acreditara que a paz chegaria quando uma das moradoras finalmente vencesse as outras.

Agora entendia o contrário.

A casa adoecia sempre que uma delas tentava ocupar todos os cômodos.

A casa florescia quando cada uma encontrava o seu lugar.

Naquele instante lembrou-se de uma antiga história sobre uma cidade governada por homens que discutiam quem deveria ocupar o poder. Durante anos acreditara que aquela história falava apenas de política. Só agora percebia que talvez falasse também da alma.

Talvez cada moradora carregasse dentro de si o desejo de governar a casa inteira.

Talvez a verdadeira justiça não estivesse na vitória de uma delas, mas na harmonia do conjunto.

Enquanto observava as mulheres caminharem pelos corredores, teve a estranha sensação de que a casa lhe ensinava uma lição muito antiga: uma parte não se torna mais forte quando domina todas as outras. Torna-se apenas mais solitária.

Então voltou os olhos para o quarto do fundo.

A jovem continuava sentada diante da janela voltada para o mar.

Durante anos permanecera esquecida.

Não porque estivesse ausente.

Mas porque ninguém havia aprendido a escutá-la.

A proprietária sorriu.

Talvez as portas fechadas nunca tivessem sido o verdadeiro problema.

Talvez o problema fosse acreditar que aquilo que permanecia escondido deixava de existir.

O vento atravessou a casa.

As ondas quebraram contra as pedras.

Pela primeira vez ela compreendeu que algumas vozes não desaparecem quando são silenciadas. Apenas encontram outros caminhos para retornar.

Sorriu novamente.

Lá fora o oceano permanecia imenso.

Dentro da casa também.

E, pela primeira vez, nenhum dos dois parecia dividido.


Nota ao leitor

Este conto dialoga livremente com duas tradições filosóficas e psicanalíticas.

A primeira encontra-se nos Livros IX e X da República, de Platão. Neles, a questão central deixa de ser apenas quem governa a cidade e passa a ser quem governa a alma. A casa e suas moradoras representam simbolicamente essa disputa e sua possível reconciliação.

A segunda encontra-se nas Cinco Lições de Psicanálise, de Sigmund Freud. A jovem esquecida no quarto voltado para o mar, assim como as portas fechadas da casa, remete à ideia de que aquilo que é afastado da consciência não desaparece, mas continua a habitar a vida psíquica e busca formas de retornar.

A mulher dos livros, a guardiã dos documentos, a mulher silenciosa, a escritora e a jovem diante do mar não representam pessoas específicas. São imagens literárias inspiradas nas múltiplas vozes que habitam uma mesma existência.

A casa à beira-mar pode ser lida simultaneamente como uma alegoria da alma platônica e como uma metáfora do inconsciente freudiano.

A disputa pelo governo da casa ecoa a disputa das partes da alma descrita por Platão. Já o quarto esquecido recorda a descoberta freudiana de que aquilo que é silenciado não desaparece: permanece vivo, aguardando o momento de ser escutado.

Talvez por isso a história não termine com a vitória de uma moradora sobre as outras.

Ela termina com algo mais difícil.

A convivência.


Isabel Perides 

São Paulo, 19 de junho de 2026. 



terça-feira, 16 de junho de 2026

Da Luz, das Sombras e do Amor

Da Luz, das Sombras e do Amor

"A história da política é, antes de tudo, a história da alma humana."

I. A Cidade

Havia uma cidade que se acreditava livre.

Seus habitantes discutiam sobre justiça, coragem, riqueza e poder.

Falavam muito.

Escutavam pouco.

Cada homem carregava consigo uma pequena chama e acreditava que ela iluminava o mundo inteiro.

Ninguém percebia que caminhavam entre sombras.

Não porque lhes faltassem olhos.

Mas porque jamais haviam aprendido a olhar.

E como acontece em todas as cidades, aqueles que confundem sombras com realidade acabaram confundindo opinião com sabedoria.

A cidade prosperava.

Mas sua alma adoecia.

Referências: República, Livros I-IV e VII (cidade justa, opinião, alegoria da caverna).


II. O Homem

Foi então que apareceu um homem estranho.

Não possuía riquezas.

Não possuía cargos.

Possuía perguntas.

Perguntava aos jovens.

Perguntava aos velhos.

Perguntava aos governantes.

Perguntava aos generais.

E quanto mais perguntava, mais os homens descobriam que aquilo que chamavam conhecimento era apenas costume.

Aquilo que chamavam verdade era apenas repetição.

Aquilo que chamavam sabedoria era apenas orgulho.

Alguns passaram a evitá-lo.

Outros passaram a segui-lo.

Referências: Sócrates histórico; Apologia; República (o filósofo e a opinião).


III. O Jovem

Entre aqueles que o escutavam havia um jovem.

A cidade o admirava.

Sua inteligência era rápida.

Sua beleza era celebrada.

Seu futuro parecia escrito pelas próprias estrelas.

Todos acreditavam que ele nascera para conduzir homens.

O velho acreditava que ele precisava primeiro aprender a conduzir a si mesmo.

Durante muito tempo conversaram.

O jovem acreditava estar aprendendo política.

O velho tentava ensinar-lhe algo mais raro:

o cuidado da alma.

Pois nenhum homem está preparado para governar uma cidade enquanto permanece estrangeiro dentro de si mesmo.

Referências: Alcibíades I; República IV (a alma ordenada).


IV. A Escada

Certa vez o velho falou sobre o amor.

Não o amor que deseja possuir.

Nem o amor que deseja dominar.

Mas aquele que nasce quando a alma encontra algo belo e, incapaz de permanecer onde está, começa a subir.

Primeiro ama um rosto.

Depois uma alma.

Depois a beleza presente em muitos seres.

Depois a beleza presente nas leis.

Depois a beleza presente no conhecimento.

Até que finalmente percebe que todas essas coisas eram apenas degraus.

A verdadeira beleza estava além delas.

E era por ela que o coração sempre procurara.

Referências: Banquete, discurso de Diotima e a escada do amor.


V. A Luz

Alguns homens vivem a vida inteira contemplando sombras.

Outros conseguem voltar-se para a luz.

A princípio ela dói.

Depois deslumbra.

Mais tarde transforma.

Aquele que a contempla descobre que o mundo não era aquilo que imaginava.

E compreende que a maior parte das disputas humanas acontece porque os homens brigam por sombras acreditando possuir a verdade.

O velho sabia disso.

Por isso jamais disputou o leme.

Referências: República VI e VII (Sol, Bem e Caverna).


VI. A Queda

Mas nem toda alma que contempla a luz permanece fiel a ela.

Algumas voltam-se para a honra.

Outras para a riqueza.

Outras para os aplausos.

Outras para o poder.

A queda raramente acontece de uma só vez.

Acontece aos poucos.

Primeiro abandona-se uma pergunta.

Depois uma dúvida.

Depois um princípio.

Até que um dia a alma já não consegue recordar aquilo que um dia amou.

O jovem continuava brilhante.

Mas as estrelas já não orientavam sua viagem.

Referências: República VIII e IX (timocracia, oligarquia, democracia e tirania da alma).


VII. O Julgamento

A cidade finalmente voltou seus olhos para o velho.

Acusaram-no de muitas coisas.

Mas o verdadeiro crime jamais foi mencionado.

Seu crime consistia em recordar aos homens que eles não conheciam a si mesmos.

Poderia ter fugido.

Permaneceu.

Poderia ter silenciado.

Continuou falando.

Poderia ter escolhido a vida.

Escolheu a verdade.

Naquela noite ofereceram-lhe uma taça.

A cidade acreditou que estava encerrando uma história.

Na realidade estava iniciando outra.

Referências: Apologia, Críton e Fédon.


VIII. O Amor

Os anos passaram.

A cidade mudou.

Os governantes mudaram.

Os impérios mudaram.

Mas algo permaneceu.

As perguntas.

A luz.

E o amor.

Pois talvez o velho tivesse compreendido uma verdade que os demais ignoravam.

A alma não sobe em direção ao Bem pela força.

Nem pelo medo.

Nem pela obrigação.

Ela sobe porque ama.

E enquanto existir em algum lugar uma alma capaz de amar a beleza, a verdade e a justiça, nenhuma sombra será definitiva.

Talvez seja esse o segredo de todas as travessias.

A luz jamais obriga.

Apenas chama.

E o amor é a memória dessa chamada.

Referências: Banquete (Eros), República X (destino da alma) e o Bem platônico.


Reflexão Final

À primeira vista, esta parece ser apenas a história de um velho homem que fazia perguntas e de um jovem destinado ao poder.

Mas talvez seja também a história da política.

E talvez, em alguma medida, a história de todos nós.

Os nomes mudam.

As cidades mudam.

Os impérios surgem e desaparecem.

As instituições se transformam.

Mas o drama permanece.

Em cada geração surgem homens e mulheres que procuram a verdade e outros que procuram o leme.

Em cada época existem aqueles que desejam compreender a si mesmos e aqueles que desejam governar os outros antes de governar a própria alma.

A República de Platão não descreve apenas Atenas.

Descreve uma possibilidade permanente da condição humana.

Por isso suas alegorias continuam vivas.

A caverna reaparece sempre que opiniões são confundidas com conhecimento.

O navio reaparece sempre que a disputa pelo comando se torna mais importante do que a direção da viagem.

A tirania reaparece sempre que os desejos passam a governar aquilo que deveria ser conduzido pela razão.

E o amor reaparece sempre que alguém é capaz de enxergar, para além da utilidade, da ambição e do poder, algo que merece ser amado por sua própria beleza.

Talvez seja por isso que esta não seja apenas uma história antiga.

Ela pode ser encontrada nos parlamentos, nos tribunais, nas universidades, nos partidos políticos, nas carreiras acadêmicas e até mesmo nos pequenos grupos humanos que se formam todos os dias.

As roupas mudam.

Os discursos mudam.

Mas as sombras, a luz, os desejos e as perguntas continuam os mesmos.

E talvez a verdadeira atualidade de Platão resida justamente nisso:

a história da política é, antes de tudo, a história da alma humana.

Enquanto existirem homens disputando o leme...

homens procurando a verdade e homens tentando reconciliar o poder com a justiça...

a travessia continuará.

E as antigas perguntas também.

Se Platão, Aristóteles, Maquiavel, Hobbes, Locke e Rousseau estivessem sentados à mesma mesa, provavelmente passariam a noite inteira discordando. Mas ao final da conversa talvez reconhecessem que toda teoria política, por mais sofisticada que seja, acaba retornando ao mesmo lugar: homens e mulheres tentando encontrar sentido, justiça, poder, reconhecimento e amor em meio às contradições da própria existência. 




Nota ao leitor

Sobre as Próximas Travessias

Nos próximos textos, a travessia seguirá por novos mares.

Encontraremos Aristóteles observando a cidade como ela é. Veremos Roma através dos olhos de Cícero. Navegaremos pelas tempestades de Maquiavel, pelas inquietações de Hobbes, pelas esperanças de Locke e pelos sonhos e dilemas de Rousseau.

Mudam os séculos.

Mudam as técnicas. 

Mudam os navios.

Mudam os navegantes.

Mas permanecem as perguntas ...


São Paulo, 16 de junho de 2026. (madrugada) 

Isabel Perides