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domingo, 12 de julho de 2026

O cartógrafo da cidade invisível

 O cartógrafo da cidade invisível

Quando aceitaram que ele desenhasse o mapa daquela cidade, imaginaram que receberiam um registro de suas ruas, avenidas, praças e edifícios.

Entregaram-lhe instrumentos de medição, cadernos em branco e antigos documentos guardados nos arquivos públicos. Explicaram onde ficavam os tribunais, as universidades, as escolas, as igrejas, os jornais e os grandes centros comerciais. Advertiram-no sobre os bairros mais afastados e recomendaram que não perdesse tempo com caminhos que já não constavam dos mapas oficiais.

O cartógrafo ouviu tudo em silêncio.

Conhecia cidades.

Conhecia também as leis que organizavam seus territórios, as palavras com que justificavam suas fronteiras e os discursos pelos quais uma ordem histórica passava a ser apresentada como natural.

Durante muitos anos, estudara os mapas desenhados por outros homens. Sabia que todo mapa escolhe o que mostrar e, sobretudo, o que esconder.

Por isso, antes de iniciar o trabalho, fez uma pergunta:

— Onde estão representadas as ideias da cidade?

Os funcionários sorriram.

Disseram-lhe que ideias não ocupavam espaço.

Não tinham ruas, paredes ou coordenadas.

Não poderiam, portanto, ser desenhadas.

O cartógrafo agradeceu a explicação e começou seu percurso.

Na primeira manhã, visitou uma escola.

As crianças aprendiam a ler, escrever, contar e localizar continentes. Aprendiam também a chegar no horário, a aguardar autorização para falar, a reconhecer quem poderia avaliar seus conhecimentos e a aceitar que algumas respostas eram consideradas corretas antes mesmo de serem compreendidas.

Nas paredes, havia frases sobre liberdade, mérito e futuro.

Nenhuma delas parecia falsa.

O cartógrafo percebeu, porém, que as lições mais profundas não estavam escritas nos livros.

Elas estavam na disposição das carteiras, na divisão do tempo, nos sinais que anunciavam o início e o fim de cada atividade, na autoridade de quem perguntava e na obrigação de quem deveria responder.

Anotou no caderno:

“Há ensinamentos que não precisam ser enunciados para serem aprendidos.”

Depois visitou uma família.

Ali, as pessoas transmitiam umas às outras histórias, afetos, medos e expectativas. Ensinavam como uma mulher deveria comportar-se, o que se esperava de um homem, quais sonhos seriam prudentes e quais desejos poderiam ameaçar a estabilidade da casa.

Ninguém lia um manual.

Ainda assim, todos pareciam conhecer seus papéis.

O cartógrafo anotou:

“Algumas fronteiras são desenhadas dentro dos sujeitos antes que eles aprendam a nomeá-las.”

Na igreja, observou os ritos.

No tribunal, os procedimentos.

Na universidade, os títulos.

Na empresa, as hierarquias.

No jornal, a seleção diária entre aquilo que mereceria ser lembrado e aquilo que deveria desaparecer antes mesmo de chegar à consciência pública.

Cada instituição possuía uma linguagem própria. Mas, por trás das diferenças, havia uma gramática comum.

A escola formava.

A família preparava.

A igreja consagrava.

O tribunal legitimava.

A universidade autorizava.

O jornal distribuía visibilidade.

A empresa organizava a sobrevivência.

A cidade não precisava ordenar aos habitantes que acreditassem nela. Ela os recebia desde o nascimento, oferecia-lhes nomes, lugares e expectativas e, depois, permitia que cada um chamasse de escolha o caminho para o qual havia sido cuidadosamente preparado.

O cartógrafo começou a compreender que a cidade não existia apenas ao redor de seus habitantes.

Ela existia dentro deles.

Mas essa descoberta ainda não lhe parecia suficiente.

Se as instituições fabricavam gestos, certezas e sujeitos, quem havia fabricado as instituições?

De onde vinha a gramática comum que atravessava lugares tão diferentes?

Ele deixou os edifícios centrais e caminhou em direção aos bairros onde a cidade produzia sua própria existência.

Visitou fábricas, depósitos, escritórios, hospitais e canteiros de obras. Observou homens e mulheres que vendiam seu tempo para continuar vivendo. Viu aqueles que decidiam sem produzir e aqueles que produziam sem decidir.

Percebeu que a cidade não fabricava apenas objetos.

Fabricava necessidades.

Fabricava escassez.

Fabricava abundância.

Fabricava o medo de perder.

Fabricava também as palavras com que cada habitante explicava sua posição no mundo.

A desigualdade era apresentada como diferença de esforço.

A exploração recebia o nome de oportunidade.

A obediência tornava-se profissionalismo.

A insegurança convertia-se em flexibilidade.

O privilégio aprendia a chamar a si mesmo de mérito.

O cartógrafo compreendeu, então, que as ideias não flutuavam acima da cidade como nuvens independentes. Elas nasciam de suas relações materiais, dos conflitos entre aqueles que possuíam e aqueles que trabalhavam, dos interesses que não poderiam ser reconciliados apenas por meio de boas intenções.

A cidade produzia sua riqueza e, ao mesmo tempo, as formas de consciência capazes de justificar a maneira como essa riqueza era produzida e distribuída.

Anotou:

“As ideias possuem edifícios, mas também possuem raízes.”

Durante algum tempo, o cartógrafo acreditou estar diante de duas cidades.

A primeira era formada por instituições, rituais e práticas que transformavam indivíduos em sujeitos reconhecíveis. Nela, cada pessoa aprendia a dizer “eu” usando palavras que já existiam antes de seu nascimento.

A segunda era uma totalidade atravessada por interesses materiais, posições de classe e contradições históricas. Nela, nenhuma ideia poderia ser compreendida isoladamente das relações sociais que lhe davam origem e função.

Uma cidade parecia explicar como os sujeitos eram constituídos.

A outra perguntava por que precisavam ser constituídos daquela maneira.

Uma revelava a materialidade das instituições.

A outra buscava a materialidade da própria ordem social.

Uma desconfiava da consciência individual.

A outra desconfiava da neutralidade daqueles que diziam falar em nome da consciência universal.

O cartógrafo não tentou escolher imediatamente entre elas.

Sabia que os mapas se tornam falsos quando eliminam aquilo que não cabe em sua escala.

Preferiu sobrepor os desenhos.

Percebeu que uma escola não poderia ser compreendida apenas por suas paredes, seus horários e seus rituais. Era necessário perguntar que tipo de sociedade precisava daquela escola e que relações ela ajudava a reproduzir.

Mas também percebeu que não bastava mencionar a luta entre classes como se ela, sozinha, explicasse cada gesto, cada desejo e cada palavra. Era preciso compreender os mecanismos concretos pelos quais uma ordem social se transformava em hábito, identidade e vida cotidiana.

A totalidade não dispensava as instituições.

As instituições não existiam fora da totalidade.

Foi então que lhe perguntaram se havia finalmente descoberto qual era a verdadeira ideologia da cidade.

O cartógrafo respondeu que a pergunta estava mal formulada.

A ideologia não era uma mentira contada por alguns homens mal-intencionados a uma multidão inocente.

Também não era um véu que pudesse ser simplesmente retirado para que a verdade aparecesse intacta.

Ela era uma forma de consciência social, produzida no interior de conflitos materiais reais.

Era também uma prática incorporada em instituições, rituais, gestos e modos de reconhecimento.

Não bastava corrigir um erro.

Era necessário transformar as relações que tornavam certas formas de consciência necessárias e as estruturas que as reproduziam como se fossem naturais.

Os funcionários não gostaram da resposta.

Esperavam que o cartógrafo separasse com clareza os ignorantes dos esclarecidos, os enganados dos conscientes, os ideólogos dos cientistas.

Ele, porém, recusava a posição confortável daquele que observa a cidade de fora.

Sabia que nenhum pensamento social nasce sem lugar, sem história e sem conflito.

Até mesmo aquele que se declara neutro participa de uma disputa, ainda que sua participação consista justamente em transformar a ordem existente em medida universal da racionalidade.

A ciência poderia romper com certas evidências espontâneas.

Poderia revelar mecanismos invisíveis.

Mas não pairava acima da sociedade como uma consciência sem corpo.

Todo conhecimento era produzido em um mundo dividido.

A questão, portanto, não era saber quem possuía ideias e quem possuía ciência.

Era perguntar quais relações sociais cada teoria tornava visíveis, quais interesses ocultava e a qual transformação histórica seu horizonte servia.

Foi depois dessa resposta que a cidade começou a tratá-lo de outra maneira.

Nada aconteceu de forma abrupta.

Nenhum decreto foi publicado.

Nenhuma acusação formal chegou às suas mãos.

Os tribunais continuaram funcionando.

As universidades permaneceram abertas.

Os jornais seguiram defendendo a liberdade de expressão.

Os professores repetiram que o pensamento crítico era indispensável à democracia.

Apenas deixaram de convidá-lo.

Primeiro, seu nome desapareceu de uma mesa de debates.

Depois, de um programa acadêmico.

Em seguida, de um projeto editorial.

Pessoas que antes o cumprimentavam passaram a olhar para o outro lado da rua.

Colegas que conheciam seu trabalho começaram a referir-se a ele como se fosse uma lembrança embaraçosa de um tempo distante.

Ninguém dizia que estava proibido ouvi-lo.

Apenas se tornara inconveniente escutar.

O silêncio ao seu redor não havia sido decidido em uma única sala.

Não possuía autor identificável.

Cada pessoa podia afirmar, com aparente sinceridade, que tomara sua própria decisão.

Uma alegava prudência.

Outra, cuidado institucional.

Outra, responsabilidade pública.

Outra dizia apenas não desejar problemas.

Separadamente, todos pareciam agir livremente.

Em conjunto, produziam uma muralha.

O cartógrafo compreendeu que havia encontrado o território que não aparecia em nenhum atlas.

Era uma região sem fronteiras visíveis, para a qual se enviavam aqueles cuja existência passava a ameaçar a harmonia imaginária da cidade.

Ali, ninguém era preso.

Ninguém era formalmente condenado.

Não se retirava do indivíduo o direito abstrato de falar.

Retiravam-se os lugares concretos de onde sua fala poderia ser ouvida.

O cancelamento não precisava destruir o corpo.

Bastava desorganizar sua existência social.

Era uma pena sem tribunal, uma sentença sem processo e uma exclusão que se apresentava como soma de escolhas individuais.

A cidade, que celebrava diariamente a liberdade, havia aperfeiçoado uma forma de silêncio que não precisava chamar a si mesma de censura.

O cartógrafo não se surpreendeu apenas com aqueles que o excluíam.

Surpreendeu-se com a facilidade com que homens e mulheres considerados críticos repetiam os mesmos procedimentos da ordem que afirmavam combater.

Falavam em emancipação, mas desejavam eliminar o conflito.

Defendiam a diversidade, desde que nenhuma diferença abalasse os limites já estabelecidos.

Denunciavam o poder, mas reproduziam seus ritos quando controlavam uma pequena instituição, um jornal, uma universidade ou uma associação.

A cidade ensinara até mesmo seus opositores a desejar reconhecimento segundo os critérios dela.

O cartógrafo anotou:

“A dominação mais profunda não é aquela que impede o sujeito de falar. É aquela que determina antecipadamente quais falas poderão ser reconhecidas como legítimas.”

Apesar disso, ele não concluiu que todas as saídas estavam fechadas.

Se a ideologia não era apenas erro, mas uma forma necessária de consciência produzida em sociedades divididas, então a emancipação também precisaria construir uma consciência capaz de orientar outra prática histórica.

Não bastava denunciar.

Não bastava revelar que as instituições formavam sujeitos.

Não bastava demonstrar que as ideias possuíam raízes materiais.

Era necessário produzir novas formas de organização, novas mediações e outra maneira de viver coletivamente.

A cidade invisível não seria superada por indivíduos que se julgassem intelectualmente puros.

Seria preciso transformar o chão sobre o qual seus edifícios se erguiam.

Também seria preciso reconhecer que nenhuma sociedade existiria sem formas de representação, educação e constituição dos sujeitos. A questão não era imaginar um mundo sem ideologia, como se os seres humanos pudessem relacionar-se com a realidade sem qualquer mediação.

A questão era saber se essas mediações continuariam organizadas pela reprodução do capital, pela naturalização das hierarquias e pelo silenciamento dos conflitos ou se poderiam participar conscientemente da construção de outra sociabilidade.

O cartógrafo continuou trabalhando.

Já não recebia respostas oficiais, mas passou a conversar com aqueles que habitavam as margens do mapa.

Professores afastados.

Trabalhadores invisíveis.

Pesquisadores sem instituição.

Mulheres cuja inteligência fora traduzida como insolência.

Homens que descobriram tarde demais que a obediência nunca lhes garantiria proteção.

Jovens que repetiam palavras radicais enquanto disputavam os mesmos lugares de prestígio que diziam rejeitar.

Com eles, o cartógrafo percebeu que nenhuma estrutura funciona sem fissuras.

A interpelação nunca é perfeita.

A reprodução social nunca acontece sem contradições.

O sujeito pode ser constituído pela ordem e, ainda assim, confrontar as condições de sua própria constituição.

A consciência nasce em relações históricas determinadas, mas não está condenada a apenas repeti-las.

A ideologia dominante possui força material, porém não é a única forma possível de consciência social.

Onde existe antagonismo, existe também a possibilidade de outra orientação.

Onde a cidade produz submissão, produz involuntariamente as condições para que alguém perceba suas engrenagens.

Onde tenta apagar um pensamento, revela o medo que esse pensamento provoca.

Ao concluir o trabalho, o cartógrafo foi chamado ao edifício central.

Os funcionários esperavam receber um mapa convencional.

Abriram sobre a mesa uma folha muito extensa.

Nela estavam desenhadas as escolas, as famílias, os templos, os tribunais, as universidades, os jornais e as empresas.

Mas também apareciam as relações invisíveis que ligavam cada instituição às formas de produção, propriedade, poder e reconhecimento.

Havia linhas mostrando como as palavras circulavam.

Setas indicando como determinados interesses se transformavam em valores universais.

Regiões sombreadas onde pessoas desapareciam sem abandonar fisicamente a cidade.

Fronteiras atravessando não apenas os bairros, mas os próprios sujeitos.

Um funcionário perguntou:

— Onde está o centro deste mapa?

O cartógrafo respondeu:

— Em toda parte.

Outro perguntou:

— Quem governa esta cidade?

Ele respondeu:

— Aqueles que controlam suas relações materiais, mas também todos nós, quando repetimos seus ritos como se fossem naturais.

Um terceiro, já irritado, quis saber:

— Então ninguém é livre?

O cartógrafo permaneceu em silêncio por alguns instantes.

Depois disse:

— A liberdade começa quando percebemos que aquilo que parecia nascer apenas de nós também possui uma história. Mas essa percepção, sozinha, não nos liberta. Ela apenas nos torna responsáveis pelo que faremos depois de compreender.

Os funcionários enrolaram o mapa.

Disseram que ele era excessivamente complexo.

Não possuía utilidade administrativa.

Misturava economia, instituições, linguagem, consciência, poder e história.

Não respeitava as fronteiras entre as disciplinas.

Era, portanto, inadequado.

O cartógrafo recolheu seus instrumentos.

Antes de deixar o edifício, percebeu que ainda faltava representar um território.

Dirigiu-se à praça central e estendeu novamente o mapa sobre o chão.

Pessoas aproximaram-se.

Algumas reconheceram suas casas.

Outras encontraram as escolas onde haviam estudado, os jornais que liam e as empresas para as quais entregavam seus dias.

Muitas procuraram no desenho o lugar ocupado pelos inimigos.

Quase nenhuma buscou a própria posição.

O cartógrafo pegou o lápis e, no limite inferior do mapa, escreveu:

“Falta representar o lugar de onde você observa esta cidade.”

Uma mulher perguntou onde ficava esse lugar.

Ele apontou para ela.

Um homem riu e disse que não fazia parte daquilo.

O cartógrafo apontou também para ele.

Outro exigiu que a frase fosse apagada.

Alguns fotografaram o mapa e seguiram adiante sem interromper o caminho.

Poucos permaneceram.

O cartógrafo não lhes ofereceu uma resposta final.

Sabia que um mapa capaz de responder a todas as perguntas seria apenas outra forma de fechar a cidade.

Disse-lhes apenas que nenhuma crítica seria suficiente enquanto servisse para localizar a ideologia somente no pensamento dos outros.

Depois partiu.

Durante algum tempo, seu nome deixou de circular.

Mas o mapa permaneceu na praça.

A chuva apagou algumas linhas.

O vento levou parte do papel.

Crianças desenharam novas ruas sobre os edifícios antigos.

Trabalhadores acrescentaram caminhos que o cartógrafo não conhecera.

Uma professora escreveu, ao lado da escola, uma pergunta sobre aquilo que ensinava sem perceber.

Um estudante traçou uma passagem entre a universidade e os bairros que ela preferia estudar à distância.

Alguém redesenhou a região dos esquecidos.

Outro escreveu o nome daqueles que a cidade tentara apagar.

E, pouco a pouco, o mapa deixou de pertencer ao homem que o havia iniciado.

Talvez fosse esse o seu objetivo desde o princípio.

Não produzir uma representação definitiva da cidade, mas permitir que seus habitantes percebessem que o território em que viviam era histórico, contraditório e, por isso mesmo, transformável.

A cidade invisível continuou existindo.

Suas instituições não desapareceram.

Seus conflitos não foram reconciliados.

Seus habitantes não se tornaram subitamente conscientes de todas as forças que os atravessavam.

Mas, depois daquele mapa, já não era possível afirmar com a mesma tranquilidade que as ruas eram naturais, que as fronteiras eram eternas ou que os silêncios aconteciam por acaso.

Às vezes, uma cidade começa a mudar não quando todos encontram a mesma resposta, mas quando alguém desenha, no coração de sua ordem, uma pergunta que já não pode ser completamente apagada.

Talvez ... 


Nota ao leitor

Este texto nasceu do encontro entre três caminhos de reflexão.

Em O poder da ideologia, István Mészáros compreende a ideologia como uma determinação estrutural das sociedades divididas por interesses materiais antagônicos. A ideologia não é apresentada simplesmente como falsa consciência ou erro cognitivo, mas como forma de consciência social vinculada às posições e aos conflitos concretos que atravessam a reprodução da vida material. Por isso, Mészáros também questiona a pretensão de neutralidade absoluta da ciência social e sustenta a necessidade de uma consciência emancipatória orientada para a superação da lógica do capital.

Em Ideologia e Aparelhos Ideológicos de Estado, Louis Althusser desloca o problema da ideologia para sua existência material nas instituições, nos rituais e nas práticas sociais. A escola, a família, a religião, os meios de comunicação e outras instituições não apenas difundem ideias: participam da constituição dos indivíduos como sujeitos. A ideologia, nesse sentido, não é somente aquilo em que alguém acredita, mas a relação vivida por meio da qual cada pessoa reconhece a si mesma e seu lugar no mundo.

A narrativa também dialoga, nas entrelinhas, com Crítica do cancelamento, de Alysson Leandro Mascaro. O cartógrafo não representa apenas um indivíduo isolado, mas a experiência daquele que, ao revelar as estruturas profundas da cidade, passa a enfrentar formas contemporâneas de silenciamento, exclusão e destruição social que não dependem necessariamente de uma proibição formal. O cancelamento aparece, assim, não como simples conflito entre personalidades, mas como fenômeno relacionado às formas sociais, às instituições, à disputa ideológica e aos mecanismos pelos quais uma ordem escolhe quais vozes serão reconhecidas e quais poderão ser tornadas invisíveis.

O texto não pretende conciliar completamente Mészáros e Althusser. Procura preservar o atrito entre eles.

De um lado, a totalidade social, as relações materiais, os antagonismos de classe e a impossibilidade de uma ciência social absolutamente neutra.

De outro, a materialidade dos aparelhos, a autonomia relativa das instituições, a constituição ideológica do sujeito e a permanência das mediações simbólicas em qualquer formação social.

Entre essas duas perspectivas, o cartógrafo tenta desenhar uma cidade na qual a ideologia não está apenas na consciência nem somente nas instituições, mas na relação entre sujeitos, práticas, estruturas e formas históricas de reprodução social.

O mapa permanece incompleto porque nenhum leitor observa essa cidade de fora.

Referências

ALTHUSSER, Louis. Ideologia e aparelhos ideológicos de Estado.

MASCARO, Alysson Leandro. Crítica do cancelamento.

MÉSZÁROS, István. O poder da ideologia.


São Paulo, 10 de julho de 2026.

Isabel Perides 

segunda-feira, 6 de julho de 2026

A Geografia do Invisível

 A Geografia do Invisível

Há viagens que começam com um passo. Outras começam quando, inesperadamente, nos descobrimos em pleno voo.

Do alto, tudo parece harmonioso. Rios encontram o mar, montanhas sustentam o horizonte e a paisagem oferece a ilusão de que o mundo pode ser compreendido apenas por aquilo  que se vê.

Até que a paisagem muda.

A água deixa de correr. A terra transforma-se em pântano. A luz perde intensidade. As árvores assumem formas retorcidas e, sob a superfície imóvel, criaturas gigantescas permanecem quase invisíveis, como se aguardassem, há muito tempo, a passagem de alguém. Não nasceram naquele instante. Sempre estiveram ali.

É então que o voo vacila.

Há uma diferença silenciosa entre cair e perder altitude. Quem cai deixa de contemplar a paisagem. Quem apenas perde altura ainda pode reencontrar o céu.

Talvez toda grande travessia dependa justamente disso.

Nem da fuga.

Nem do mergulho.

Mas da delicada distância que permite reconhecer a existência das profundezas sem desaparecer dentro delas.

Depois, quase sempre, existe um lugar de passagem.

Um lugar onde ninguém permanece.

Ali aprendemos que algumas perguntas são mais importantes do que as respostas.

E, quando tudo parece ter terminado, surge uma escada.

Ela não conduz ao futuro.

Conduz ao lugar onde, um dia, aprendemos a olhar o mundo pela primeira vez.

Talvez esse seja o paradoxo das grandes viagens.

Partimos acreditando que iremos descobrir territórios desconhecidos.

No fim, encontramos antigas paisagens esperando, pacientemente, que retornemos a elas com olhos novos.

Porque há lugares que só revelam seu verdadeiro significado muitos anos depois da primeira visita.

Talvez o invisível possua sua própria geografia.

Uma geografia sem mapas, sem fronteiras e sem coordenadas, onde as paisagens não se organizam pelo espaço, mas pela memória, pelos afetos e pelo tempo. Quanto mais acreditamos conhecê-la, mais ela se expande diante de nós. E talvez sua maior beleza resida justamente nisso: não nos oferece um destino final, mas a possibilidade de retornar inúmeras vezes ao mesmo lugar e, ainda assim, encontrar uma paisagem completamente diferente.

Talvez seja por isso que algumas viagens nunca terminem.

Elas apenas continuam em silêncio, dentro de nós.

Talvez ...

Nota ao leitor

Este ensaio nasceu de um sonho que tive. Não é a narrativa literal desse sonho, mas uma elaboração literária inspirada pelas reflexões que ele despertou em mim durante meus estudos de psicanálise.

A inspiração para este texto encontra-se em A Interpretação dos Sonhos, de Sigmund Freud, obra em que o autor propõe que os sonhos constituem uma das principais vias de acesso ao inconsciente. Contudo, Freud também nos ensina que não existem interpretações universais nem símbolos com significados fixos. Cada sonho deve ser compreendido à luz da história singular de quem sonha e das associações que esse próprio sujeito constrói.

Assim, este texto não pretende interpretar sonhos, mas refletir, por meio da linguagem literária, sobre as paisagens invisíveis que habitam a experiência humana. Nasceu de uma viagem interior e termina exatamente como começou: como um convite. Afinal, como escreveu Fernando Pessoa, "Tudo vale a pena quando a alma não é pequena". 

FREUD, Sigmund. A Interpretação dos Sonhos

São Paulo, 05 de julho de 2026. 

Isabel Perides 

Quanto a mim, esta viagem já valeu a pena. Toda viagem transforma, ainda que o viajante seja o único a conhecer o caminho percorrido. 



quarta-feira, 24 de junho de 2026

Quando o Eu Adormece

 

Quando o Eu Adormece

Há uma antiga ilusão que acompanha os homens desde que aprenderam a contar histórias sobre si mesmos.

A ilusão de que somos inteiramente senhores de nossas ações.

Gostamos de acreditar que existe dentro de nós uma voz clara, firme e constante que governa a vida como um capitão conduzindo um navio. Chamamos essa voz de consciência, de razão, de vontade ou simplesmente de "eu".

Mas, vez ou outra, algo acontece e essa certeza começa a rachar.

Às vezes é um sonho.

Às vezes é uma lembrança que retorna sem convite.

Às vezes é um amor que não deveria existir e, no entanto, insiste.

E às vezes é apenas uma pergunta simples:

Quem somos quando o eu se cala?

Os antigos gregos talvez respondessem que a alma é maior do que a consciência.

Freud diria que a casa nunca pertenceu inteiramente ao seu proprietário.

A neurociência moderna, com seus mapas coloridos e seus nomes difíceis, parece chegar a uma conclusão semelhante por caminhos diferentes: existe uma imensa atividade acontecendo dentro de nós antes mesmo que a consciência tome conhecimento dela.

O coração bate sem pedir autorização.

As células trabalham em silêncio.

Memórias se reorganizam durante o sono.

Feridas cicatrizam enquanto dormimos.

Até mesmo certas decisões parecem surgir de regiões profundas antes que possamos chamá-las de nossas.

Talvez a consciência seja menos um rei e mais um cronista.

Talvez ela não governe a cidade.

Talvez apenas registre aquilo que acontece em suas ruas.

Essa hipótese assusta.

Mas também liberta.

Porque se o eu não é o soberano absoluto, então a vida não depende apenas de sua força.

Há algo em nós que continua trabalhando quando acreditamos ter fracassado.

Há algo que continua construindo quando pensamos que tudo foi destruído.

Há algo que continua caminhando quando já não encontramos razões para seguir.

Os gregos chamavam isso de alma.

Os psicanalistas falam em desejo.

Outros chamam de esperança.

O nome pouco importa.

Importa reconhecer que existe uma parte de nós que conhece caminhos que a consciência desconhece.

É ela que faz uma criança aprender a andar após centenas de quedas.

É ela que permite que um coração volte a amar depois de ter sido partido.

É ela que leva alguém a recomeçar uma pesquisa, escrever uma nova página ou abrir um novo livro quando todas as razões parecem apontar para a desistência.

Há uma sabedoria estranha nesse movimento.

Uma sabedoria que não se impõe pela força.

Que não grita.

Que não exige aplausos.

Ela simplesmente permanece.

Como uma semente sob a terra durante o inverno.

Vista de cima, parece não haver vida.

Mas a raiz continua crescendo.

Em silêncio.

Talvez seja por isso que os grandes momentos da existência raramente sejam percebidos quando acontecem.

A árvore não escuta o próprio crescimento.

O mar não percebe a erosão das pedras.

A alma não acompanha a transformação de si mesma.

Somente anos depois, olhando para trás, alguém percebe que atravessou desertos que julgava intransponíveis.

E que, apesar de todas as interrupções, perdas e desvios, nunca deixou verdadeiramente de caminhar.

Talvez a maturidade não consista em controlar tudo.

Talvez consista em confiar.

Confiar que existe uma parte de nós que sabe voltar para casa.

Mesmo quando esquecemos o caminho.

Mesmo quando a noite parece longa.

Mesmo quando o eu adormece.

Talvez ... 


Nota ao leitor

Esta reflexão nasceu durante uma aula de Farmacologia do curso de Psicanálise, dedicada ao estudo dos sistemas glutamatérgico e gabaérgico. Em termos simples, o glutamato é o principal neurotransmissor excitatório do cérebro, relacionado à aprendizagem, memória e ativação neuronal, enquanto o GABA atua como o principal neurotransmissor inibitório, regulando a atividade cerebral e participando dos processos de relaxamento, controle e sono.

Ao discutir os efeitos de substâncias capazes de alterar a consciência sem interromper completamente determinados comportamentos automáticos, surgiu uma questão que ultrapassa os limites da neurociência: o que acontece com a subjetividade quando a capacidade de dizer "eu" fica temporariamente suspensa?

A partir dessa pergunta, o texto aproxima neurociência, psicanálise e filosofia, dialogando com uma inquietação antiga que atravessa a história do pensamento ocidental: somos apenas aquilo de que temos consciência ou existe em nós algo maior do que o próprio eu?


Referências

FREUD, Sigmund. Cinco lições de psicanálise

PLATÃO. Fédon. T.

PLATÃO. A República

NÚCLEO BRASILEIRO DE PESQUISAS PSICANALÍTICAS. Módulo de Farmacologia. O Sistema Glutamatérgico e Gabaérgico. Aula ministrada por Stephanie de Oliveira, 2026.


São Paulo, 24 de março de 2026. 

Isabel Perides 

Travessias 

Quando o pensar tem um preço

 

Quando o pensar tem um preço 

Há uma pergunta que atravessa a história da filosofia como um rio subterrâneo.

Por que aqueles que dedicam a vida ao pensamento tantas vezes encontram a incompreensão?

Não me refiro apenas ao erro ou à discordância. O pensamento vive delas. Refiro-me à hostilidade que surge quando alguém ousa questionar aquilo que sua época considera evidente.

Foi assim com Sócrates.

Foi assim com Boécio.

E continua sendo assim, sob novas formas, com muitos intelectuais do presente.

Imaginemos uma cena.

Não uma sala de aula, nem um tribunal, nem uma universidade.

Uma praça fora do tempo.

Ali estão Sócrates, Platão e Boécio.

Ao lado deles, senta-se um pensador contemporâneo. Seu rosto traz as marcas do cansaço. Não do cansaço físico, mas daquele que nasce quando uma pessoa percebe que suas ideias deixaram de ser discutidas para serem apenas julgadas.

Sócrates é o primeiro a falar.

— Dize-me, amigo, por que estás abatido?

O homem responde:

— Porque transformaram minhas ideias em caricaturas. Porque muitos falam sobre mim sem terem me lido. Porque aquilo que tentei construir com anos de estudo tornou-se motivo de suspeita.

Sócrates permanece em silêncio por alguns instantes.

Depois pergunta:

— E a verdade mudou por causa disso?

O homem hesita.

— Não.

— Então talvez tua dor não esteja na verdade, mas na expectativa de reconhecimento.

Platão observa a conversa.

Foi ele quem assistiu à condenação de seu mestre pela cidade que deveria tê-lo protegido.

Ele sabe que a injustiça nem sempre nasce da maldade. Muitas vezes nasce da incapacidade de compreender aquilo que desafia as crenças estabelecidas.

— As cidades ... diz Platão ... raramente perseguem aquilo que já compreendem. O conflito surge quando alguém obriga uma época a olhar para si mesma.

O homem abaixa a cabeça.

Talvez reconheça naquela frase algo de sua própria experiência.

Então uma terceira voz se faz ouvir.

É Boécio.

Entre os três, talvez seja quem melhor compreenda a dor da perda.

Foi respeitado.

Foi poderoso.

Foi ouvido.

Depois foi acusado, preso e condenado.

Foi justamente quando tudo lhe foi retirado que escreveu uma das belas da tradição filosófica: A Consolação da Filosofia.

Boécio olha para o homem e pergunta:

— O que exatamente te foi tirado?

— A tranquilidade.

— E onde ela estava?

— No meu trabalho. No reconhecimento. Na possibilidade de ser ouvido.

Boécio sorri com uma tristeza serena.

— Então tua tranquilidade estava apoiada na Fortuna.

A palavra paira no ar.

Fortuna.

A antiga senhora que distribui favores sem jamais prometer permanência.

Hoje oferece prestígio.

Amanhã oferece silêncio.

Hoje entrega aplausos.

Amanhã entrega esquecimento.

Boécio continua:

— O erro não está em receber os bens da Fortuna. O erro está em acreditar que eles pertencem a nós.

Sócrates concorda.

Platão também.

Porque os três sabem algo que cada geração precisa redescobrir.

O reconhecimento é valioso.

Mas não é o fundamento da verdade.

A reputação é importante.

Mas não é o fundamento da justiça.

Os aplausos podem confirmar uma ideia.

Mas jamais a tornam verdadeira.

O homem permanece em silêncio.

Talvez pela primeira vez perceba que sua dor não nasce apenas da injustiça sofrida.

Nasce também da descoberta de que o pensamento possui um preço.

Há épocas em que esse preço é a prisão.

Há épocas em que é o exílio.

Há épocas em que é a difamação.

Há épocas em que é a solidão.

Nenhuma delas é agradável.

Mas todas acompanham aqueles que insistem em fazer perguntas difíceis.

A praça torna-se silenciosa.

O sol começa a se pôr.

Então o homem faz a última pergunta.

— Vale a pena continuar?

Os três filósofos trocam um olhar.

Sócrates responde primeiro:

— Vale a pena viver de acordo com aquilo que reconheces como verdadeiro.

Platão completa:

— Vale a pena porque uma alma em paz consigo mesma possui mais valor do que qualquer triunfo passageiro.

Por fim, Boécio conclui:

— Vale a pena porque a Fortuna pode tirar muitas coisas. Mas não possui poder suficiente para arrancar de um homem aquilo que ele realmente é.

A noite chega.

A praça desaparece.

Os filósofos partem.

Mas suas palavras permanecem.

Talvez porque a história do pensamento nunca tenha sido a história daqueles que foram imediatamente compreendidos.

Talvez porque as ideias mais importantes quase sempre tenham começado como incômodos.

E talvez porque cada época, mais cedo ou mais tarde, seja obrigada a reencontrar aqueles que antes rejeitou.

Talvez ...

Nota ao leitor

Este texto foi inspirado pela leitura de A Consolação da Filosofia, de Boécio, e pelos diálogos platônicos que narram a vida e a condenação de Sócrates. Mais do que refletir sobre personagens históricos, procura pensar uma experiência recorrente da vida intelectual: a tensão entre a busca da verdade e o desejo humano de reconhecimento. Entre Atenas, a prisão de Boécio e os debates do presente, permanece a mesma questão: o valor de uma ideia depende da aprovação de seu tempo ou da fidelidade à verdade que procura expressar?



São Paulo, 23 de junho de 2026. 

Isabel Perides 

Alguns procuram um porto. Outros aprendem a amar o mar.

Sócrates e a Cidade Fragmentada

 

Sócrates e a Cidade Fragmentada

 

Quando pensamos em política, costumamos imaginar governos, leis, eleições ou disputas pelo poder. Mas a política clássica nasceu de uma pergunta mais profunda. Antes de perguntar quem deve governar, os gregos perguntaram: como é possível viver juntos?

 

Essa pergunta atravessa toda a vida de Sócrates.

 

O jovem ateniense que caminhava pelas ruas da cidade não começou investigando constituições ou formas de governo. Como muitos de sua época, voltou os olhos para os grandes mistérios da natureza. Escutou os ecos de Tales, que procurava na água o princípio de todas as coisas. Conheceu as teses de Anaxímenes, que encontrava no ar a origem do mundo. Ouviu falar de Heráclito e do eterno fluxo das coisas. E certamente tomou conhecimento de Empédocles, que explicava o universo pelo combate permanente entre o Amor, que une, e a Discórdia, que separa.

 

Sem saber, a política já estava ali.

 

Pois toda reflexão política nasce de uma questão anterior: o mundo é unidade ou conflito?

 

Mas Sócrates operou uma mudança decisiva. Em vez de continuar perguntando do que é feito o universo, voltou-se para os homens. A questão deixou de ser cosmológica para tornar-se ética. O problema não era mais compreender os astros, mas compreender a vida humana.

 

Contudo, a pergunta fundamental permaneceu a mesma.

 

O homem também é dividido.

 

A cidade também é dividida.

 

A alma também é dividida.

 

Talvez por isso Platão tenha colocado seu mestre no centro de quase todos os seus diálogos. A vida de Sócrates tornou-se a própria encenação dessa busca por unidade em um mundo fragmentado.

 

No Banquete, encontramos uma das expressões mais belas dessa questão. Aristófanes narra o famoso mito dos andróginos. Segundo a lenda, os seres humanos eram originalmente completos. Possuíam uma unidade que foi rompida pela intervenção dos deuses. Desde então, cada metade procura reencontrar aquilo que perdeu.

 

Durante séculos, esse mito foi lido como uma explicação poética do amor. Mas Platão sugere algo mais profundo. Pela voz de Diotima, Sócrates mostra que Eros não é apenas o desejo de uma pessoa por outra. É o desejo de algo ausente. É o movimento da alma em direção àquilo que lhe falta. É a busca da totalidade.

 

Talvez seja por isso que Eros ocupe um lugar tão importante na filosofia platônica. Antes de ser amor romântico, Eros é o impulso que leva o fragmentado a procurar a unidade.

 

A República pode ser lida a partir dessa mesma perspectiva.

 

Atenas encontra-se dividida por interesses, paixões e ambições. Os cidadãos disputam poder. Os grupos entram em conflito. A cidade perde sua harmonia.

 

Mas Platão não vê a origem do problema apenas nas instituições. A desordem política nasce de uma desordem mais profunda.

 

A cidade fragmentada é o reflexo da alma fragmentada.

 

Por isso a República não começa discutindo constituições. Começa investigando a justiça. E logo descobrimos que a cidade justa e a alma justa obedecem ao mesmo princípio: cada parte deve ocupar seu lugar sem tentar dominar as demais.

 

Razão, coragem e desejo precisam encontrar equilíbrio.

 

Governantes, guardiões e produtores precisam encontrar equilíbrio.

 

A política torna-se, assim, uma arte da reconciliação.

 

A cidade justa é aquela em que a multiplicidade não destrói a unidade.

 

Mas a tragédia da história de Sócrates está justamente no fato de que sua própria cidade foi incapaz de realizar esse ideal.

 

Quando Atenas o leva a julgamento, vemos a fragmentação atingir seu ponto máximo. A multidão volta-se contra aquele que passou a vida inteira tentando despertar seus concidadãos para a reflexão. O filósofo que buscava unir a cidade à verdade é condenado pela própria cidade.

 

A morte de Sócrates representa muito mais do que a execução de um homem.

 

Ela simboliza o fracasso da pólis em reconciliar conhecimento e poder, sabedoria e opinião, filosofia e política.

 

Atenas escolhe a divisão.

 

Sócrates bebe a cicuta.

 

Mas sua derrota transforma-se em vitória histórica.

 

Pois sua morte dá origem a uma das maiores aventuras intelectuais da humanidade.

 

Séculos mais tarde, um médico vienense encontraria novamente o mito do Banquete. Freud percebeu algo que ultrapassava a simples narrativa amorosa. Para ele, o mito dos andróginos expressava uma tendência mais ampla da própria vida. Não apenas os amantes procuram reunir-se. Toda vida parece buscar formas de ligação, união e integração.

 

Aquilo que Platão chamava de Eros reaparece na psicanálise como uma força que tende a unir o que foi separado.

 

Nesse ponto, filosofia e psicanálise se aproximam de maneira surpreendente.

 

Ambas interrogam o mesmo problema.

 

Por que aquilo que está dividido procura reunir-se?

 

Por que a fragmentação produz sofrimento?

 

Por que a unidade exerce tamanho fascínio sobre o espírito humano?

 

Talvez a política clássica tenha nascido precisamente dessa inquietação.

 

Não da busca pelo poder.

 

Não da administração do Estado.

 

Não da elaboração de leis.

 

Mas da tentativa de responder a uma pergunta mais antiga e mais difícil:

 

Como reunir aquilo que foi separado?

 

A vida de Sócrates pode ser lida inteiramente como uma resposta a essa questão.

 

Ele tentou reconciliar aparência e verdade.

 

Tentou reconciliar conhecimento e ação.

 

Tentou reconciliar indivíduo e comunidade.

 

Tentou reconciliar a alma consigo mesma.

 

E tentou reconciliar a cidade com a justiça.

 

Talvez tenha fracassado em seu próprio tempo.

 

Mas a permanência de sua voz ao longo dos séculos sugere que certas derrotas pertencem apenas ao presente.

 

Pois toda vez que uma sociedade se fragmenta, toda vez que a política se reduz à disputa entre interesses inconciliáveis, toda vez que a verdade se afasta da vida pública, a figura de Sócrates retorna para nos lembrar que a cidade não se sustenta apenas pela força das leis.

 

Ela depende também da difícil arte de reconstruir aquilo que foi dividido.

 

E talvez seja essa a mais profunda herança da filosofia política clássica.

 

A convicção de que a justiça não nasce da eliminação das diferenças, mas da capacidade de transformá-las em uma unidade viva.

 

A mesma unidade que os gregos buscaram na cidade, que Platão buscou no Bem, que Sócrates buscou no diálogo e que, séculos depois, Freud reencontraria sob o nome de Eros.


Talvez ...

 

Referências

ASSOUN, Paul-Laurent. Freud et les philosophes. Paris: Presses Universitaires de France (PUF), 1988. Cap. II: “Freud et Platon”, p. 187-205.

FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer (1920).

FREUD, Sigmund. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905).

PLATÃO. A República.

PLATÃO. O Banquete.

PLATÃO. Apologia de Sócrates.

PLATÃO. Fédon.


Referências Indiretas:

EMPÉDOCLES. Fragmentos.

SCHOPENHAUER, Arthur. O mundo como vontade e representação.

Upanishads (referidas indiretamente por Schopenhauer e discutidas por Assoun).


Nota ao leitor


Este texto dá continuidade à série de reflexões sobre a filosofia política clássica iniciada com a leitura da República de Platão. Se os textos anteriores procuraram acompanhar a construção da cidade justa e a formação do filósofo, este ensaio retorna ao personagem que habita o centro dessa história: Sócrates.

 

Ao longo dessas páginas, procurei reunir diferentes fios da tradição filosófica os pré-socráticos, o Banquete, a República e até mesmo o diálogo posterior entre Platão e Freud para refletir sobre uma questão que parece atravessar toda a história do pensamento político: a tensão entre unidade e fragmentação.

 

Nos próximos textos, seguiremos acompanhando os desdobramentos dessa questão na tradição clássica, avançando para Aristóteles e sua concepção da pólis, antes de percorrer o longo caminho que conduz a Maquiavel, Hobbes, Locke, Rousseau e aos grandes debates da modernidade.


Se a filosofia política começou perguntando como viver juntos, talvez sua história inteira seja apenas uma sucessão de diferentes respostas a essa mesma pergunta.

A reflexão apresentada neste ensaio foi inspirada especialmente pela leitura do capítulo “Freud et Platon”, de Paul-Laurent Assoun, cuja análise das relações entre Eros, o mito do andrógino e a teoria freudiana das pulsões permitiu a interpretação política desenvolvida nesta série sobre a obra de Platão.

 




São Paulo, 20 de junho de 2026. 
Isabel Perides