Quando o Eu Adormece
Há uma antiga ilusão que acompanha os homens desde que aprenderam a contar histórias sobre si mesmos.
A ilusão de que somos inteiramente senhores de nossas ações.
Gostamos de acreditar que existe dentro de nós uma voz clara, firme e constante que governa a vida como um capitão conduzindo um navio. Chamamos essa voz de consciência, de razão, de vontade ou simplesmente de "eu".
Mas, vez ou outra, algo acontece e essa certeza começa a rachar.
Às vezes é um sonho.
Às vezes é uma lembrança que retorna sem convite.
Às vezes é um amor que não deveria existir e, no entanto, insiste.
E às vezes é apenas uma pergunta simples:
Quem somos quando o eu se cala?
Os antigos gregos talvez respondessem que a alma é maior do que a consciência.
Freud diria que a casa nunca pertenceu inteiramente ao seu proprietário.
A neurociência moderna, com seus mapas coloridos e seus nomes difíceis, parece chegar a uma conclusão semelhante por caminhos diferentes: existe uma imensa atividade acontecendo dentro de nós antes mesmo que a consciência tome conhecimento dela.
O coração bate sem pedir autorização.
As células trabalham em silêncio.
Memórias se reorganizam durante o sono.
Feridas cicatrizam enquanto dormimos.
Até mesmo certas decisões parecem surgir de regiões profundas antes que possamos chamá-las de nossas.
Talvez a consciência seja menos um rei e mais um cronista.
Talvez ela não governe a cidade.
Talvez apenas registre aquilo que acontece em suas ruas.
Essa hipótese assusta.
Mas também liberta.
Porque se o eu não é o soberano absoluto, então a vida não depende apenas de sua força.
Há algo em nós que continua trabalhando quando acreditamos ter fracassado.
Há algo que continua construindo quando pensamos que tudo foi destruído.
Há algo que continua caminhando quando já não encontramos razões para seguir.
Os gregos chamavam isso de alma.
Os psicanalistas falam em desejo.
Outros chamam de esperança.
O nome pouco importa.
Importa reconhecer que existe uma parte de nós que conhece caminhos que a consciência desconhece.
É ela que faz uma criança aprender a andar após centenas de quedas.
É ela que permite que um coração volte a amar depois de ter sido partido.
É ela que leva alguém a recomeçar uma pesquisa, escrever uma nova página ou abrir um novo livro quando todas as razões parecem apontar para a desistência.
Há uma sabedoria estranha nesse movimento.
Uma sabedoria que não se impõe pela força.
Que não grita.
Que não exige aplausos.
Ela simplesmente permanece.
Como uma semente sob a terra durante o inverno.
Vista de cima, parece não haver vida.
Mas a raiz continua crescendo.
Em silêncio.
Talvez seja por isso que os grandes momentos da existência raramente sejam percebidos quando acontecem.
A árvore não escuta o próprio crescimento.
O mar não percebe a erosão das pedras.
A alma não acompanha a transformação de si mesma.
Somente anos depois, olhando para trás, alguém percebe que atravessou desertos que julgava intransponíveis.
E que, apesar de todas as interrupções, perdas e desvios, nunca deixou verdadeiramente de caminhar.
Talvez a maturidade não consista em controlar tudo.
Talvez consista em confiar.
Confiar que existe uma parte de nós que sabe voltar para casa.
Mesmo quando esquecemos o caminho.
Mesmo quando a noite parece longa.
Mesmo quando o eu adormece.
Talvez ...
Nota ao leitor
Esta reflexão nasceu durante uma aula de Farmacologia do curso de Psicanálise, dedicada ao estudo dos sistemas glutamatérgico e gabaérgico. Em termos simples, o glutamato é o principal neurotransmissor excitatório do cérebro, relacionado à aprendizagem, memória e ativação neuronal, enquanto o GABA atua como o principal neurotransmissor inibitório, regulando a atividade cerebral e participando dos processos de relaxamento, controle e sono.
Ao discutir os efeitos de substâncias capazes de alterar a consciência sem interromper completamente determinados comportamentos automáticos, surgiu uma questão que ultrapassa os limites da neurociência: o que acontece com a subjetividade quando a capacidade de dizer "eu" fica temporariamente suspensa?
A partir dessa pergunta, o texto aproxima neurociência, psicanálise e filosofia, dialogando com uma inquietação antiga que atravessa a história do pensamento ocidental: somos apenas aquilo de que temos consciência ou existe em nós algo maior do que o próprio eu?
Referências
FREUD, Sigmund. Cinco lições de psicanálise.
PLATÃO. Fédon. T.
PLATÃO. A República.
NÚCLEO BRASILEIRO DE PESQUISAS PSICANALÍTICAS. Módulo de Farmacologia. O Sistema Glutamatérgico e Gabaérgico. Aula ministrada por Stephanie de Oliveira, 2026.
São Paulo, 24 de março de 2026.
Isabel Perides
Travessias