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domingo, 22 de março de 2026

Diálogo: Da Bolha à Totalidade

 Diálogo: Da Bolha à Totalidade

Por Isabel Perides 

Isabel encontra Alysson.

Desta vez…
não para falar do amor (*ver diálogos anteriores)

Mas da arte.
Da palavra.
Do mundo que arde…
e não é dito.

Alysson…  começa ela 
por que a literatura de hoje parece falar apenas de si mesma…
enquanto o mundo lá fora grita?

Alysson a observa.

Porque o mundo mudou…
e com ele, a forma de viver.

 Explica-me.

 Houve um tempo diz ele 
em que os homens trabalhavam juntos.

Na fábrica.
Na rua.
Na luta.

Olhavam-se.

Reconheciam-se.

Existia um “nós”.

E hoje?

Hoje… o homem está só.

Diante de uma tela.
Diante de um aplicativo.
Diante de si mesmo.

Silêncio.

E isso muda a arte?

Não apenas muda…

determina.

A literatura tornou-se um espelho desse isolamento.

Um espaço onde o indivíduo escreve…
para ser reconhecido.

Reconhecido por quem?

Por outros iguais a ele.

Então… ninguém mais lê?

Alysson responde:

 Leem.

Mas, em grande parte,
os que produzem.

 É uma bolha.

Isabel permanece em silêncio.

E dentro dessa bolha… o que se escreve?

Dor diz Alysson.

Mas uma dor isolada.

Uma dor que não nomeia o mundo.

E isso não é político?

 É aqui que está a armadilha  responde ele.

 O liberalismo ensinou que toda dor é individual.

E que basta reconhecê-la…
para resolvê-la.

Mas isso não muda nada.

Então o que falta?

Totalidade.

O quê?

Ver que a dor de um…
não é apenas dele.

É produzida.

Organizada.

Sustentada por uma estrutura.

E a literatura… não mostra isso?

Raramente.

Porque ela se tornou dramática.

Dramática?

 O drama  diz Alysson 
é o sofrimento individual.

Ele quer resolver uma vida…

sem tocar o mundo que a produz.

Isabel pensa.

E existe outra forma?

Sim.

A Tragédia.

Silêncio.

 Mas tragédia não é tristeza?

Não responde ele

É consciência.

A tragédia mostra que o problema
não é um erro individual…

mas um destino social.

Um sistema.

 E o herói?

 O herói trágico sabe…

que não luta contra um homem.

Mas contra uma estrutura.

Isabel respira fundo.

E isso não tira a esperança?

Alysson responde com calma:

Tira a ilusão.

 A esperança liberal diz:
“um pode vencer”.

 A tragédia diz:
“ou todos mudam… ou ninguém se salva”.

Silêncio.

Então a literatura deveria mudar?

Não apenas o conteúdo diz Alysson.

Mas a forma.

Hoje ela ainda escreve como antes…

mas vive em outro mundo.

E isso a torna… conservadora.

Isabel observa.

Então a arte deixou de ser perigosa?

Tornou-se segura.

Aceitável.

Publicável.

E o que deveria ser?

Alysson olha ao longe.

Fogo.

Silêncio.

Não um refúgio…

mas um desvelar.

Não um espelho do “eu”…

mas um mapa do mundo.

Não um pedido de lugar…

mas uma ruptura.

Isabel fecha os olhos por um instante.

E compreende:

Talvez a literatura
não tenha se afastado do povo…

mas tenha esquecido
como falar dele.

E talvez…

o verdadeiro escritor
não seja aquele que descreve sua dor…

mas aquele que revela

quem a produz.

E no silêncio que fica…

uma última pergunta ecoa:

a arte ainda é palavra…

ou já esqueceu

como incendiar o mundo?



Carta de Gramsci a Alysson

Caro Alysson,

escrevo-te após ouvir atentamente Isabel.

Ela me relatou tua aula ... com cuidado,
como quem carrega algo que ainda ressoa.

E devo dizer: reconheci em tuas palavras
um pensamento que caminha na direção daquilo
que sempre considerei essencial.

Dizes que a literatura se tornou uma bolha,
um espaço onde muitos escrevem…
mas poucos realmente alcançam o povo.

Sim.

Esse afastamento não é acaso.

É resultado de um tempo
em que a cultura foi sendo separada da vida concreta.

Aquilo que nomeias como isolamento,
eu compreendo como efeito da hegemonia.

Uma hegemonia que organiza não apenas o poder,
mas o modo como se pensa,
o modo como se sente,
o modo como se expressa.

Quando a literatura fala apenas de si mesma,
não é porque perdeu sua capacidade…

mas porque foi conduzida
a um lugar onde sua força se dilui.

Isabel contou-me também
que distinguiste o drama da tragédia.

E nisso vejo grande lucidez.

O drama permanece no indivíduo.

Ele narra a dor…
mas não a ultrapassa.

A tragédia, como bem disseste,
revela algo maior:

a relação entre o sujeito
e a estrutura que o forma.

É exatamente aí que a arte reencontra
sua potência histórica.

Porque, quando a dor deixa de ser apenas individual,
ela se torna inteligível.

E quando se torna inteligível…
pode ser transformada.

Concordo contigo:

não basta narrar a experiência isolada.

É preciso situá-la.

Dar-lhe forma dentro de uma totalidade.

Esse é o trabalho do que chamei, em meus escritos,
de intelectual orgânico.

Não aquele que fala de fora,
mas aquele que emerge de dentro da vida social
e a reorganiza em pensamento.

A literatura, quando cumpre esse papel,
deixa de ser um espaço restrito
e torna-se parte ativa da construção de uma nova consciência.

E é justamente isso que percebo em tua reflexão:

um chamado para que a arte
retome seu vínculo com o mundo.

Não como reflexo passivo,
mas como força que revela, articula
e transforma.

Isabel parece ter sentido isso.

E talvez por isso tenha vindo até mim.

Porque há momentos
em que o pensamento precisa circular
para se tornar mais claro.

Termino dizendo-te:

persistir nesse caminho
é insistir na própria possibilidade
de uma cultura viva.

Uma cultura que não se fecha,
mas que participa da história.

Aguardo tua resposta,
quando te for possível.

Com estima,

Gramsci


São Paulo, 17 de março de 2026. 

Isabel Perides 


Notas e inspirações
Este texto dialoga com a conferência de Alysson Mascaro (UFES - Disponível em: https://www.youtube.com/live/WuTpNKgXoEY) sobre literatura e política, e com o pensamento de Antonio Gramsci nos Cadernos do Cárcere, especialmente sobre cultura, hegemonia e o papel do intelectual.

sexta-feira, 20 de março de 2026

Encontros e Desencontros

 Encontros e Desencontros 

Por Isabel Perides 

Isabel permanece só.

Não há mais vozes.
Nem mestres.
Nem perguntas respondidas.

Apenas…
um fio de pensamento
que insiste.

Lembra-se de tudo.

Da ciência que não responde.
Da política que exige escolha.
Do amor que não se possui.

E agora…
dos encontros.

Ela fecha os olhos
e, como quem escuta algo antigo,
começa a dizer para si:

Há encontros
que não pedem licença.

Chegam…

e mudam a direção da vida
sem anunciar.

Há desencontros
que parecem perda…

mas são apenas caminhos
que ainda não compreendemos.

Penso na política…

não como teoria,
mas como travessia.

Não como certeza…
mas como escolha que pesa.

Porque agir
é aceitar que nem todos ficarão.

Que nem todos concordarão.

Que nem todos caminharão juntos.

E ainda assim…

seguir.

Há encontros
que constroem.

Outros…
que desfazem.

Mas ambos
nos atravessam.

E talvez seja verdade:

"o universo sempre conspirou para que determinados encontros ocorressem propositalmente no sentido de construir ou transformar histórias, assim como, destruí-las ou simplesmente modificá-las."

Isabel respira fundo.

Então entende:

A política
também é feita desses encontros.

De vozes que se cruzam.
De caminhos que se chocam.
De histórias que se entrelaçam…

ou se rompem.

Nem todo encontro une.

Nem todo desencontro separa.

Mas todos…

de alguma forma,

nos mudam.

E talvez
o mais difícil não seja escolher um caminho…

mas aceitar

que cada escolha
é também

um encontro que deixamos de viver.

São Paulo, 02 março de 2026. 

Isabel Perides 






Lettera a Gramsci

 Lettera a Gramsci

Por Isabel Perides 

Caro Gramsci,

ti scrivo dopo un incontro che ha attraversato non solo il pensiero…
ma anche il mio modo di guardare il mondo.

Ho conversato con Max Weber.

E ciò che mi ha detto sulla scienza e sulla politica
ha aperto in me una inquietudine nuova 
non più sul sentimento,
ma sull’azione.

Weber mi ha fatto comprendere che esistono due vocazioni distinte:
la scienza e la politica.

La scienza dice lui  non dà senso alla vita.
Non ci dice come vivere.
Non ci dice cosa dobbiamo scegliere.

Essa chiarisce.
Mostra i mezzi.
Ma non decide i fini.

E questo mi ha colpita profondamente.

Perché allora mi sono chiesta 
perché dedicarsi a qualcosa che non risponde alle domande ultime?

E Weber ha risposto:

Perché chi vive per la scienza
accetta che ogni verità sarà superata.

È un lavoro senza fine.

E in quel momento mi sono ricordata di Darwin,
della sua autobiografia.

C’è un passaggio che mi ha attraversata come un’eco:

“Ho cercato costantemente di mantenere la mente libera,
in modo da abbandonare qualsiasi ipotesi, per quanto amata,
non appena i fatti si mostrano contrari ad essa.”

Questa disposizione…
questa libertà interiore…
è, forse, la vera disciplina della scienza.

Ma la politica Gramsci  è tutt’altra cosa.

Non può essere neutrale.
Non può sospendere il giudizio.

La politica esige scelta.

E scegliere… significa assumersi la responsabilità delle conseguenze.

Weber insisteva su questo punto:

Lo scienziato può spiegare.
Ma il politico deve decidere.

E nessuna scienza può sollevarlo da questo peso.

Questo mi ha fatto pensare a te.

Al tuo modo di intendere la politica
non come teoria astratta,
ma come pratica viva.

Weber direbbe che il vero pericolo
è quando chi insegna
impone le proprie convinzioni.

Il maestro secondo lui 
deve lasciare parlare i fatti.

Ma il politico…
non può limitarsi a questo.

Deve prendere posizione.

Deve agire.

E soprattutto 
deve essere disposto a pagare il prezzo delle proprie scelte.

Ho compreso, allora, che la politica
non è il luogo della purezza…

ma della responsabilità.

E che non basta sapere.

Bisogna sostenere il peso dell’azione.

Ti scrivo, dunque, non con certezze,
ma con domande più lucide.

Forse è questo il primo passo.

Attendo la tua risposta,
quando ti sarà possibile.

Con attenzione e rispetto,

São Paulo, 20 de março de 2026. (Madrugada)

Isabel Perides 





Diálogo: Entre a Ciência e a Vocação

Diálogo: Entre a Ciência e a Vocação

Por Isabel Perides 

Isabel caminhava em silêncio…

As vozes que já ouvira ainda ecoavam dentro dela.

Amor.
Falta.
Entrega.
Escolha.

Mas agora… outra inquietação surgia.

Nem tudo é amor… pensou
há também o saber… o fazer… o agir no mundo.

À sua frente, um homem observava como quem pesa palavras antes de dizê-las.

Você parece carregada de perguntas disse ele.

Estou  respondeu Isabel.
E me disseram que você fala sobre ciência… e vocação.

Ele assentiu.

Max Weber.

Diga-me  começou Isabel 
o que é a ciência?

Weber respondeu sem pressa:

A ciência… não é um caminho para respostas finais.

 É um caminho de perguntas.

— Mas ela não busca a verdade? — perguntou Isabel.

Busca…  disse ele 
mas uma verdade sempre provisória.

Toda descoberta continuou
está destinada a ser superada. 

O destino da ciência… é ser ultrapassada.

Isabel franziu o olhar.

Então por que dedicar a vida a algo que nunca se completa?

Weber a observou com firmeza.

Porque a ciência tem uma vocação.

 E quem a segue… aceita esse destino.

Qual destino?

Trabalhar sabendo…
que outro irá além.

Silêncio.

Então a ciência não dá sentido à vida? perguntou Isabel.

Weber respondeu diretamente:

Não.

 A ciência não responde às perguntas mais profundas.

Não diz como devemos viver.

Não diz o que devemos amar.

Isabel abaixou o olhar.

Então… para que serve?

Para esclarecer disse ele.

Para mostrar os meios…
não os fins.

Ela nos diz como fazer algo…
mas não se devemos fazê-lo.

Isabel permanece em silêncio.

E a política? pergunta ela.

Weber respira fundo.

A política… é outra vocação.

 Diferente da ciência?

Sim.

Enquanto a ciência busca compreender…
a política exige agir.

E agir… implica escolhas.

E escolhas… implicam valores.

Isabel o encara.

 Então a política tem a ver com o que acreditamos?

Exatamente.

 Mas a ciência não deveria orientar a política?

Weber balança a cabeça.

Não.

Porque a ciência não pode decidir valores.

Ela pode mostrar consequências…
mas não pode dizer o que é certo.

Então o político decide sozinho?

Decide… e assume a responsabilidade.

Silêncio.

E o professor? pergunta Isabel.

Ele deve ensinar o que é certo?

Weber responde com firmeza:

Não.

 O verdadeiro professor… não impõe suas opiniões.

Ele mostra…
expõe…
esclarece.

Ele permite que o aluno veja por si.

Isabel lembra das palavras:

“deixar os fatos falarem…”

Então ensinar… não é convencer?

Não.

 É formar consciência.

O vento passa leve.

 E quem segue a ciência?  pergunta Isabel 
o que deve fazer?

Deve ter disciplina  responde Weber.

 E humildade.

 Saber que seu trabalho…
não é definitivo.

E quem segue a política?

 Deve ter coragem.

 Porque suas escolhas…
afetam o mundo.

E também deve assumir as consequências.

Isabel permanece em silêncio.

 Então são dois caminhos? pergunta.

Duas vocações  responde Weber.

 E cada uma exige algo diferente da alma.

 A ciência pede renúncia ao absoluto.

A política pede compromisso com o mundo.

Isabel respira fundo.

E é possível viver as duas?

Weber a observa profundamente.

 É possível…

mas não sem conflito.

Silêncio.

Porque uma busca compreender…

 E a outra… transformar.

Isabel fecha os olhos por um instante.

E percebe:

Nem tudo pode ser resolvido pelo saber.

Nem tudo pode ser guiado pela ação.

Há caminhos diferentes…

e cada um exige escolha.

E, talvez…

assim como no amor,

também na vida

não se trata de encontrar uma única resposta…

mas de sustentar

as perguntas.


São Paulo, 20 de março de 2026. (Madrugada) 

Isabel Perides 





quinta-feira, 19 de março de 2026

Diálogo: O amor

 Diálogo: O amor 

Por Isabel Perides 

Isabel caminhava ao lado de seu mestre, Tales de Mileto.

O dia parecia simples…
mas dentro dela havia perguntas.

Mestre…
o que é o amor?

Tales seguiu em silêncio.

E mais…  continuou ela 
como saber se o que alguém diz sentir por nós…
é realmente amor?

Tales parou.

Há perguntas…
que precisam de mais de uma voz.

E indicou o caminho.

Não muito adiante, dois homens conversavam.

Um perguntava.
O outro organizava.

 Sócrates… Platão…  disse Tales 
ela busca compreender o amor.

Sócrates aproximou-se.

 Então diga-me, Isabel…
o que você pensa que é o amor?

Talvez… um sentimento verdadeiro entre duas pessoas.

E o verdadeiro… como reconheces?

Silêncio.

Platão então disse:

Em um banquete, discutimos isso.

Muitos pensaram saber o que era o amor…
mas poucos compreenderam.

Alguns disseram continuou Platão 
que o amor é encontrar a outra metade.

 Outros disse Sócrates 
que é o desejo pelo belo.

Mas pensa  continuou ele 
desejamos aquilo que já temos?

Não…

Então o amor é desejo daquilo que falta.

 O amor nasce da falta  disse Sócrates 
mas não é apenas carência.

É um caminho completou Platão.

Começa no corpo…
mas pode subir.

De um corpo… para muitos…
da beleza visível… à alma…
da alma… ao saber…
até alcançar o Belo em si.

 Mas… e quando alguém diz que me ama?  perguntou Isabel.

Observe disse Sócrates 
essa pessoa quer apenas te possuir…
ou crescer com esse sentimento?

O amor verdadeiro não prende disse Platão 
ele eleva.

O silêncio se instalou.

E então…

uma nova voz.

Falais do amor como elevação…

mas esqueceis…

que ele nasce da falta que nunca se preenche.

Quem está aí?  perguntou Isabel.

Alguém que escutou o desejo…

Tales murmurou:

Lacan…

O amor disse a voz 
é dar aquilo que não se tem…
a alguém que não o quer.

Como dar o que não tenho? perguntou Isabel.

Porque o amor não é posse.

Ofereces… justamente o que te falta.

E a quem não quer?

Porque o outro nunca corresponde exatamente ao que imaginas.

Nunca preenche o lugar que criaste.

E ainda assim…
é a ele que diriges teu amor.

Então o amor é desencontro?

Não… é verdade.

O amor aproxima duas faltas.

Sócrates falou:

Para nós… era a busca do belo.

Platão:

Um movimento de elevação.

Lacan:

E também… o reconhecimento da falta.

Isabel permaneceu em silêncio.

E então, mais adiante, outras vozes.

Dizes que amas? perguntou Sartre.

Digo…  respondeu Simone de Beauvoir 
mas sei que essa palavra nunca é simples.

 O amor é um projeto  disse Sartre.
Algo que se constrói.

E muitos o vivem como prisão  disse Simone.

Porque querem possuir disse ele.

 E amar é reconhecer a liberdade do outro respondeu ela.

Eis o paradoxo  disse Sartre 
queremos que o outro nos escolha…
mas nunca deixe de escolher.

 Queremos liberdade… com garantia disse Simone.

Isabel se aproxima.

 Posso perguntar?

O amor é reciprocidade?
É escolha?
Quem ama… deve estar perto quando o outro precisa?

Sartre respondeu:

O amor não é garantia de presença.

É escolha.

Simone disse:

 Mas se nunca há presença…
podemos chamar de amor?

Amar não é obrigação  disse ela 
mas também não é indiferença.

Então deve ficar? perguntou Isabel.

Não “deve” — disse Sartre.
Porque o dever prende.

Mas há algo essencial disse Simone 
a liberdade não exclui o compromisso.

 Amar  continuou ela 
é escolher.

E continuar escolhendo…

inclusive quando o outro precisa.

Se nunca estou  disse Sartre 
talvez nunca escolhi.

 Então o amor é equilíbrio?  perguntou Isabel.

 Não  disse Sartre 
é tensão.

 Entre ser livre…
e ainda assim não abandonar  disse Simone.

O vento passou.

E Isabel compreendeu:

O amor não é prova.

Não é certeza.

Não é posse.

É falta que se oferece.
É busca que se eleva.
É liberdade que escolhe.

E talvez…

amar seja isso:

poder partir…

e ainda assim,

ficar.


Continua…


Porque algumas perguntas
não se encerram em um único encontro.

Elas permanecem.

Respiram.
Crescem.
Insistem.

O amor…
a falta…
a escolha…
a liberdade…

Tudo isso ainda ecoa.

E Isabel sabe:

há mais a escutar.
mais a atravessar.
mais a compreender.

Outras vozes ainda virão.
Outros pensamentos se entrelaçarão.

E o diálogo…
não termina aqui.

Ele continua.

Na próxima reflexão,
seguiremos esse caminho 
aprofundando as ideias,
retomando as vozes de Sócrates, Platão, Lacan, Sartre e Simone, trazendo outros como Nietsche, amor como ilusão e criação e Aristóteles, amor como amizade e virtude 
e deixando que o amor, em suas múltiplas formas,
ainda nos interrogue.

Porque há perguntas
que não pedem respostas finais…

apenas continuidade ! 


São Paulo, 18 de março de 2026. 

Isabel Perides 

domingo, 15 de março de 2026

A justiça em A República de Platão: dos primeiros diálogos à dimensão política

 quarta-feira, 11 de março de 2026 — 20:19

A justiça em A República de Platão: dos primeiros diálogos à dimensão política

Por Isabel Perides 

A investigação sobre a justiça começa como um debate aparentemente simples, mas logo se transforma em uma questão central da filosofia política. Nos dois primeiros livros, o diálogo conduzido por Sócrates busca compreender o que é a justiça e por que ela deveria ser valorizada. Esse início estabelece o problema fundamental que orientará toda a obra.

No Livro 1, a discussão ocorre na casa de Céfalo e apresenta diferentes definições de justiça. Céfalo afirma que ser justo significa dizer a verdade e pagar o que se deve. Sócrates contesta essa definição com exemplos que mostram que devolver algo ou dizer a verdade nem sempre é moralmente correto, como no caso de devolver uma arma a alguém que perdeu o controle da razão. Em seguida, Polemarco propõe que justiça consiste em beneficiar amigos e prejudicar inimigos. Sócrates refuta essa ideia argumentando que a justiça não pode envolver tornar alguém pior, pois prejudicar outra pessoa produziria injustiça.

Por fim, Trasímaco apresenta uma visão mais radical e política: justiça seria simplesmente a vantagem do mais forte, ou seja, aquilo que beneficia os governantes que criam as leis. Sócrates tenta responder afirmando que governar deveria beneficiar os governados e que a injustiça gera desordem. Ainda assim, o Livro 1 termina sem uma definição satisfatória de justiça, deixando a questão em aberto.

No Livro 2, o problema é retomado e aprofundado por Glauco e Adeimanto. Eles argumentam que a maioria das pessoas considera a justiça apenas um meio para evitar punições, não algo desejável por si mesmo. O famoso exemplo do anel de Giges ilustra essa ideia: se alguém pudesse agir injustamente sem ser punido, provavelmente o faria.

Assim, o desafio lançado a Sócrates é demonstrar que a justiça é valiosa em si mesma e torna o indivíduo mais feliz que a injustiça. Para responder a esse desafio, Sócrates propõe investigar a justiça em uma escala maior, examinando primeiro como ela aparece na organização de uma cidade.

Essa mudança conduz a discussão da esfera moral para a esfera política. Ao buscar a justiça na cidade, Platão sugere que a ordem política reflete a ordem da alma humana. Uma cidade justa seria aquela em que cada grupo social cumpre adequadamente sua função, da mesma forma que uma alma justa é aquela em que cada parte desempenha seu papel em harmonia.

Assim, a justiça deixa de ser apenas uma virtude individual e passa a ser também um princípio de organização política. A análise desenvolvida nos primeiros livros prepara, portanto, a construção de uma teoria mais ampla sobre a cidade ideal e sobre quem deve governar. Dessa forma, Platão transforma a pergunta inicial, “o que é justiça?”, em uma reflexão profunda sobre a relação entre moralidade, poder e organização política.

Isabel Perides 

(São Paulo, 11 de março de 2026)