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domingo, 25 de janeiro de 2026

Debate: A dinâmica dos espaços portuários globais (com base na tese defendida por Isabel Perides, 2023)

A dinâmica dos Portos e a Globalização em Santos (SP) 

Por Isabel Perides 

Esta tese analisa a evolução histórica e a dinâmica contemporânea dos espaços portuários, centrando-se no papel do Porto de Santos como um nó estratégico da globalização. O texto percorre desde as raízes milenares da navegação até a transição para o regime de acumulação flexível, destacando como as inovações técnicas e as políticas estatais moldaram o território brasileiro. Através de uma perspectiva geográfica e socioeconômica, examina-se a importância da infraestrutura multimodal e das redes de transporte para a fluidez do comércio internacional de mercadorias. A pesquisa também aborda a regulação jurídica e os conflitos sociais decorrentes da modernização portuária e da influência de corporações transnacionais no setor marítimo. Por fim, discute-se a complexa relação entre o crescimento urbano e as operações logísticas, evidenciando os desafios de integração entre o porto e a cidade de Santos.


Debate fundamentado na tese 'A dinâmica dos espaços portuários globais', de autoria de Isabel Lopes Perides e defendida junto ao Departamento de Geografia Humana da FFLCH/USP (2023)

Se você já passou por uma grande cidade portuária, como Santos, e viu aqueles guindastes gigantes movendo contêineres coloridos sem parar, talvez já tenha se perguntado: quem é que comanda tudo isso? Hoje, a gestão dos portos no mundo passou por uma profunda transformação, que tirou o controle quase total do Estado e o dividiu com a iniciativa privada. Essa mudança é inegável, mas sua interpretação está longe de ser um consenso.

Para alguns, a modernização e a entrada do capital privado nos portos brasileiros, a partir dos anos 90, representaram uma evolução necessária e quase inevitável para o país competir na economia global, um passo indispensável para ganhar eficiência. O modelo antigo, centralizado na Portobrás, simplesmente não funcionava mais: era um sistema engessado e burocrático, incapaz de acompanhar a maior revolução do transporte marítimo, a conteinerização. De repente, os navios ficaram gigantes, e a logística passou a exigir agilidade e volumes de investimento que o Estado sozinho não conseguia prover. A economia globalizada funciona em tempo real e demanda velocidade. O setor privado trouxe não só o capital para novos terminais e equipamentos, mas também expertise em gestão focada em performance. Centros globais como Singapura e Xangai adotam variações desse modelo com sucesso estrondoso. Não se trata de perda de soberania, mas de gestão inteligente.

A crítica, porém, não questiona a necessidade de mudança, e sim a direção que ela tomou. O que foi apresentado como uma solução puramente técnica e gerencial foi, na verdade, uma profunda escolha política. A narrativa da ineficiência estatal serviu perfeitamente à agenda neoliberal em ascensão nos anos 90. A função do porto mudou: deixou de ser uma alavanca para o desenvolvimento industrial nacional e tornou-se um nó em uma rede logística global, cujo principal objetivo é gerar lucro para as grandes companhias de navegação e operadores de terminais. A pergunta inevitável é: eficiência para quem, exatamente?

Essa mudança de função não foi uma imposição arbitrária da realidade, mas uma resposta à tecnologia. Um porto incapaz de receber navios de 300 mil toneladas simplesmente sai do mapa das grandes rotas comerciais, é uma questão física. Portos como Roterdã e Antuérpia, na Europa, perceberam isso muito antes, já nos anos 60, e abriram suas operações ao capital privado, tornando-se gigantes. Não foi por ideologia neoliberal, mas por pragmatismo: a corrida tecnológica exigia investimentos e riscos que um governo, com tantas outras prioridades, não poderia sustentar sozinho. O que o Brasil fez nos anos 90 foi correr para alcançar uma transformação já consolidada no mundo.

A tecnologia, no entanto, não surge no vácuo; ela é aplicada dentro de um contexto político e econômico. No final do século XIX, o Estado brasileiro fez o movimento oposto: assumiu o controle dos portos, retirando-os das mãos privadas, porque os reconheceu como estratégicos demais para o projeto de industrialização do país ... eram a porta de entrada e saída que definiriam o futuro da economia. Nos anos 90, viu-se a inversão completa dessa lógica: o Estado abriu mão de ser agente direto do desenvolvimento para se tornar um mero facilitador, um gestor de contratos para o capital privado. Apresentar isso como fatalidade técnica ignora a profunda reorientação política por trás.

Ainda assim, o Estado não abriu mão do controle estratégico. O modelo que se tornou padrão global é o chamado Landlord Port. Pense nele como um grande shopping center: o Estado é o dono do terreno e da estrutura básica ... corredores, estacionamento, segurança. No porto, isso significa posse da área, canais de acesso, dragagem para manter a profundidade, ou seja, a infraestrutura essencial. Mas quem opera as “lojas”? Especialistas privados, marcas que sabem maximizar a performance. O Estado aluga os espaços (terminais) para empresas que investem e operam com eficiência. Ele continua sendo o senhorio, define as regras, mas a operação diária fica com quem tem expertise e capital.

Essa analogia do shopping é útil, mas esconde um detalhe crucial: e se um único lojista, uma grande rede, dominar 80% das lojas em todos os shoppings do país? Seu poder de barganha com o dono seria imenso. É exatamente o que ocorre nos portos. O mercado de transporte marítimo é extremamente concentrado em poucas gigantes globais. Essas empresas não negociam com o Porto de Santos como parceiras iguais: colocam Santos para competir com Buenos Aires ou Montevidéu, ameaçando realocar rotas se não conseguirem taxas mais baixas e regras mais flexíveis. O que o material de análise chama de “regulação híbrida”: na teoria, o Estado regula; na prática, o poder corporativo dita muitas regras.

Essa competição entre portos é saudável: força operadores a serem mais eficientes, reduz custos e beneficia, no final, o produtor brasileiro exportador e o consumidor importador. O modelo brasileiro, classificado como Mix Port, é ainda mais interessante: combina terminais arrendados dentro do porto público organizado com Terminais de Uso Privado (TUPs) fora da área organizada. Isso cria competição interna (...) se o preço em um terminal de Santos sobe, a carga pode ir para um TUP próximo. É a lógica de mercado gerando eficiência.

O que alguns chamam de lógica de mercado, outros veem como enfraquecimento da capacidade de planejamento estatal. Essa lógica vai além das tarifas. As “bandeiras de conveniência” são centrais nesse sistema: grandes companhias registram navios no Panamá, Libéria ou Ilhas Marshall (...) países com impostos quase nulos e regulamentações trabalhistas e ambientais mínimas. Na prática, é um arranjo global para evitar leis e impostos dos países onde realmente operam e lucram. Um operador de terminal (muitas vezes subsidiária dessas gigantes) maximiza lucro no porto, enquanto a empresa-mãe paga o mínimo globalmente. Dizer que o Estado mantém controle estratégico nesse cenário parece otimismo excessivo. O objetivo do operador privado é lucro para o acionista, ponto final (...) e esse objetivo pode ou não coincidir com o interesse nacional de longo prazo. Quando não coincide, quem perde é evidente.

As bandeiras de conveniência são um desafio regulatório global, não uma falha exclusiva do modelo portuário. Mas os impactos concretos da modernização são positivos para as cidades: ao otimizar operações em áreas concentradas e eficientes, liberou enormes áreas nobres antes ocupadas por armazéns velhos e trilhos enferrujados, no coração das cidades. Exemplos como Puerto Madero em Buenos Aires ou os projetos do Porto Maravilha no Rio de Janeiro transformaram essas áreas em espaços comerciais, residenciais e turísticos. A cidade, que vivia de costas para o mar, reconecta-se com a orla, gerando novos empregos, economia e qualidade de vida. O porto industrial pesado, barulhento, opera onde deve: de forma eficiente e distante do centro urbano. É um ganho para todos.

Essa visão da revitalização é a foto bonita vendida ao público, mas a realidade é mais complexa. O porto moderno tende a se tornar uma “plataforma logística desterritorializada”: um contêiner da China chega a Santos, e uma hora depois já está em trem rumo a um centro de distribuição em Campinas e dali para o Brasil todo. Para Santos, foi só um corredor de passagem. O porto moderno conecta-se mais às redes globais de produção do que ao entorno imediato ... vira um enclave de alta tecnologia que gera pouquíssimo emprego local e se isola funcionalmente da cidade.

E os projetos de revitalização? Não se pode negar o impacto positivo de transformar áreas degradadas em bairros vibrantes. Mas vibrantes para quem? Na esmagadora maioria dos casos, são processos de gentrificação: capital imobiliário e financeiro entra, constrói escritórios de luxo, apartamentos caros e restaurantes da moda, expulsando população de baixa renda e atividades econômicas tradicionais. A conexão com o porto torna-se quase nula. O Porto Maravilha é emblemático: dependia da venda de títulos imobiliários (os CEPACs) no mercado financeiro. Quando a crise veio e o mercado refluiu, o projeto colapsou, revelando que sua base não era desenvolvimento integrado com a atividade portuária, mas especulação financeira pura. O porto de verdade continuou lá, cada vez mais isolado, enquanto a revitalização virou esqueleto de obras paradas. A promessa de reconexão da cidade com o porto não se concretizou.

Em resumo, a transição para modelos com maior participação privada foi uma resposta necessária às forças da tecnologia e da globalização. Ela permitiu que portos como o de Santos não apenas sobrevivessem, mas prosperassem, gerenciando volumes de carga impensáveis no modelo antigo. Para um país exportador como o Brasil, portos eficientes não são opção: são a base da competitividade econômica. A alternativa seria estagnação, perda de rotas e marginalização no comércio global. O caminho é aperfeiçoar a regulação e o modelo de parceria, não retroceder a um estatismo já provado ineficiente.

Por outro lado, o discurso da modernização como imperativo puramente técnico é perigoso, pois esconde o essencial: uma profunda reconfiguração política. A privatização dos portos brasileiros reorientou-os para servir prioritariamente à lógica de acumulação do capital global. Isso não é ser contra a eficiência, mas perguntar: eficiência para quem e com qual propósito? O debate levanta questões cruciais sobre soberania, sobre quem se beneficia do desenvolvimento econômico e sobre o papel de uma infraestrutura estratégica para um projeto de país ... e não apenas como peça funcional na engrenagem do comércio mundial.

Fica evidente uma tensão fundamental: de um lado, a necessidade de adaptar-se e competir num cenário global implacável; de outro, o desafio de garantir que essa adaptação sirva aos interesses nacionais e ao desenvolvimento local. A análise de um espaço como o Porto de Santos revela que, por trás dos guindastes e contêineres, estão em jogo disputas profundas sobre poder, território e, no fim das contas, sobre que tipo de futuro estamos construindo. O material analisado oferece muito mais a ser explorado sobre como essas forças moldam nosso mundo.

Isabel Perides

São Paulo, 25 de janeiro de 2026.


sábado, 24 de janeiro de 2026

Como Vítimas Viram Agressores no Cancelamento Online

Como Vítimas Viram Agressores no Cancelamento Online


Por Isabel Perides 

Recentemente, mergulhei na leitura de um livro que analisa a relação entre agressor e vítima através das lentes do conto do Barba Azul. Essa leitura me fez pensar o quanto essas posições, que julgamos ser estáticas e opostas, são, na verdade, fluidas e profundamente conectadas. Quero compartilhar com vocês algumas dessas inquietações, tentando pensar em um assunto (que sei) que é, por natureza, espinhoso.

O Par Dialético: Onde um não existe sem o outro

A primeira coisa que precisamos entender é que agressor e vítima muitas vezes operam como um par dialético (deixando bem claro que a agressão que estou falando aqui é aquela da dinâmica entre vítima e agressor que se repete dia a dia). Na psicanálise, vemos isso claramente na relação entre o exibicionista e o voyeur: um precisa do olhar do outro para validar sua existência. No caso do Barba Azul, a curiosidade da esposa e o segredo do marido se alimentam mutuamente.

Freud, em "Além do Princípio do Prazer", nos ajuda a entender a compulsão à repetição. Muitas vezes, alguém que carrega um registro inconsciente de passividade pode acabar "buscando" ou se mantendo em situações de submissão porque aquele é o único roteiro que seu psiquismo conhece. É uma dinâmica invisível, onde o agressor se torna o palco para que a vítima atue seus traumas antigos.

A Vingança Fantasiada de Justiça

No desfecho do conto, a esposa mata Barba Azul e fica com seu patrimônio. Aqui nasce o ponto crucial: ao eliminar o agressor e se apossar de seus bens, ela transita de vítima a uma nova forma de agressora. Ela poderia ter denunciado? Fugido? Sim. Mas a escolha pelo extermínio e pelo ganho material revela que, muitas vezes, a "vontade de justiça" é uma máscara para a vingança (até mesmo contra uma situação do passado). 

Lacan falaria aqui sobre o desejo do Outro. A vítima, ao se vingar, muitas vezes não está se libertando, mas sim assumindo o lugar, repetindo a violência que acredita que sofreu para tentar, inutilmente, estancar uma ferida narcísica. Já Winnicott nos traria a ideia do ambiente: se o indivíduo não teve um "ambiente suficientemente bom" para processar a agressão, ele pode usar a retaliação como uma forma distorcida de sentir que finalmente tem controle sobre a realidade.

Do Tribunal do Cancelamento

Se levarmos essa dinâmica para o mundo digital, o cenário fica ainda mais complexo. Mascaro discute como a nossa sociedade é moldada pela "forma jurídica": nós enxergamos o mundo através de contratos, de quem está "certo" e quem está "errado", de quem deve ser punido.

Na internet, o cancelamento (...) Alguém comete um suposto erro (o agressor) e, imediatamente, uma massa de pessoas (que se sentem vítimas de seus valores ou falas) se volta contra ele com uma violência desmedida.

O cancelamento replica a lógica da forma jurídica do Estado punitivista. Em vez de buscarmos a transformação da estrutura que gera a agressão, focamos no extermínio subjetivo do indivíduo.

A "vítima" que cancela sente um prazer quase pulsional (o que Bion chamaria de elementos de um grupo em "ataque e fuga") ao destruir o outro. Nesse momento, ela deixa de buscar reparação e passa a exercer uma agressão soberana, escondida atrás de uma suposta superioridade moral.

O perigo de não reconhecermos nossa própria capacidade de agredir é que acabamos repetindo o ciclo que juramos combater. Se a esposa de Barba Azul apenas troca o sangue das esposas mortas pelo ouro do marido assassinado, a estrutura de poder não mudou (...)

Precisamos olhar para nossas relações ... e para nossa postura e perguntar: estamos buscando justiça ou apenas o prazer pulsional (velado) de sermos o agressor (...)  

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

A CLÍNICA LACANIANA NA CONTEMPORANEIDADE: DESAFIOS E PERSPECTIVAS FRENTE ÀS NOVAS MODALIDADES DE SOFRIMENTO

 

A CLÍNICA LACANIANA NA CONTEMPORANEIDADE: DESAFIOS E PERSPECTIVAS FRENTE ÀS NOVAS MODALIDADES DE SOFRIMENTO


Por Isabel Perides  


O deslocamento do sofrimento e a pertinência estrutural da psicanálise

... os estudos proporcionaram uma releitura dos fundamentos da clínica psicanalítica de orientação lacaniana, articulando neuroses, psicoses e suas conexões com outros campos do saber, como o Direito e a Topologia. A psicanálise, enquanto discurso, exige de si mesma uma constante atualização teórica, de modo a responder aos sintomas do seu tempo e às novas formas de subjetivação que emergem na contemporaneidade.

Na clínica atual, observa-se que o sofrimento psíquico adquire novos contornos, frequentemente marcados por angústias difusas, crises de identidade e fragilização dos laços simbólicos. A escuta lacaniana, ao privilegiar a singularidade da fala e do desejo, oferece um espaço de elaboração que contrasta com a lógica da eficiência e da medicalização dominantes. Essa abordagem resiste à redução do sujeito a categorias diagnósticas padronizadas, promovendo uma ética centrada no desejo inconsciente em vez da adaptação social (Fink, 1997).

Trago um exemplo experienciado em minha clínica para ilustrar essa questão: uma jovem adulta, com queixa inicial de ansiedade e sensação de constante julgamento, relatava angústia intensa diante de tarefas simples, como apresentar-se publicamente ou ser observada em seu ambiente de trabalho. À medida que o discurso se desenrolava na análise, emergia a experiência de um ambiente familiar rígido, permeado por exigências perfeccionistas e ausência de reconhecimento afetivo. Esse tipo de sofrimento, frequentemente rotulado como "ansiedade generalizada" nos manuais diagnósticos, revela-se, sob a ótica lacaniana, como efeito do desamparo simbólico e da fragilidade do Outro, marcando o sujeito contemporâneo em sua relação precária com a lei e o desejo (Leader, 2011). Comparativamente, isso difere das neuroses clássicas freudianas, onde o conflito era mais internalizado no simbólico; aqui, o real irrompe de forma mais bruta, exigindo uma reflexão crítica sobre como a psicanálise pode intervir sem sucumbir à demanda de cura imediata.

A Clínica Lacaniana pode se afirmar como um espaço de resistência ao imperativo do gozo e da produtividade capitalista, sustentando a importância da transferência e do desejo em um contexto dominado pela lógica da satisfação imediata (Assumpção, 2022). Instrumentos conceituais como a topologia lacaniana auxiliam o analista a mapear as estruturas subjetivas e os modos de laço social, possibilitando intervenções que preservem a singularidade do sujeito, em oposição às abordagens cognitivo-comportamentais que priorizam a normalização (Quinet, 2006).


O declínio do pai e o imperativo do gozo

As transformações culturais e tecnológicas do século XXI reconfiguram as formas de sofrimento psíquico e os modos de subjetivação. As redes sociais intensificam o domínio do Imaginário, promovendo uma busca incessante por validação através de imagens idealizadas, o que gera novas modalidades de alienação e dependência narcísica (Calligaris, 1996). Essa dinâmica pode ser comparada à metáfora do "estádio do espelho" de Lacan, mas amplificada pela era digital, onde o eu ideal é constantemente fragmentado e reconstruído online, levando a uma fragilização do simbólico.

Em um outro caso clínico que acompanho(...) relatava a dificuldade em reconhecer-se como adulta, (...) O pai(...) (...) Essa inversão simbólica das funções parentais e a falta de mediação da autoridade paterna produziam na paciente uma relação confusa com a lei e o desejo, levando-a a buscar incessantemente aprovação (...) Esse exemplo evidencia o declínio da função paterna, entendido não como ausência física do pai, mas como fragilização da metáfora paterna e da autoridade simbólica do Outro (Lacan, 2008). Em seu lugar, instala-se o Discurso Capitalista, no qual o objeto é apresentado como plenamente acessível e a satisfação se torna um imperativo moral. Se o sintoma clássico se articulava no Simbólico, as novas formas de sofrimento se manifestam diretamente no corpo e no ato, como crises de ansiedade, compulsões, automutilações ou bloqueios de performance e fenômenos que demandam uma crítica à medicalização excessiva, pois reduzem o sujeito a um organismo biológico em detrimento de sua dimensão desejante.

O papel do analista, nesse contexto, é não se deixar capturar pela demanda de alívio imediato, mas sustentar a função da escuta, que possibilita ao sujeito deslocar-se do lugar de objeto de gozo para o de sujeito do desejo. Essa posição ética lacaniana contrasta com terapias breves, que frequentemente acomodam o real sem questioná-lo, reforçando assim uma reflexão crítica sobre os limites da psicanálise em tempos de aceleração social.


Desafios contemporâneos: do deciframento à acomodação do Real

A clínica lacaniana enfrenta o desafio de sustentar o tempo lógico da análise em uma cultura da instantaneidade, que exige resultados imediatos e visíveis. A medicalização crescente do sofrimento psíquico, que tende a reduzir a subjetividade a diagnósticos e protocolos, contrasta com a ética lacaniana, voltada à singularidade do desejo (Leader, 2011).

Na prática clínica, é frequente observar sujeitos que, diante de pequenos contratempos cotidianos, apresentam reações desproporcionais de angústia ou choro. Em uma das sessões, uma analisanda relatou ter chorado intensamente (...) A repetição dessa experiência no campo laboral revela como o sintoma contemporâneo pode atualizar, no Real, marcas simbólicas de infância ainda não elaboradas, destacando a necessidade de uma articulação entre o passado e o presente que evite reduções simplistas.

A dificuldade do sujeito em nomear o que sente uma resistência comum em muitos atendimentos, desafia o analista a sustentar a escuta do não-dito e a trabalhar com o furo do simbólico. O choro, as falas sobre o "olhar julgador" ou a sensação de "peso" na emotividade surgem como formações do inconsciente que pedem deciframento, em oposição à tendência contemporânea de patologizar emoções normais.

No diálogo com o Direito, a psicanálise se depara com resistências institucionais, pois seu enfoque subjetivo diverge da objetividade exigida em tribunais ou políticas públicas. O sujeito jurídico é substituído pelo sujeito do inconsciente, cuja responsabilidade se inscreve no campo do desejo e não da norma. Assim, a psicanálise pode contribuir, inclusive nos contextos jurídicos e institucionais, como prática que devolve ao sujeito sua palavra e sua implicação, promovendo uma crítica às estruturas punitivas que ignoram a dimensão psíquica.


Perspectivas: a força do dispositivo analítico e a topologia

A clínica lacaniana, ao valorizar a singularidade e a palavra do sujeito, mantém sua força subversiva diante da homogeneização promovida pelo discurso dominante (Quinet, 2006).

Em um caso de atendimento recente, uma jovem demonstrava extrema dificuldade em estabelecer limites (...) assumindo constantemente o papel de cuidadora. A análise permitiu que ela reconhecesse esse padrão e começasse a se afirmar, recusando exigências abusivas sem sentir culpa excessiva. Essa pequena virada subjetiva ilustra a potência da clínica lacaniana em restituir ao sujeito um espaço de desejo próprio, sem ceder ao ideal de submissão familiar ou social, e reflete uma comparação com casos semelhantes descritos por Lacan em seu seminário sobre o avesso da psicanálise (Lacan, 2008).

No campo da Topologia, conceitos como o nó borromeano e o toro permitem compreender as novas configurações do sujeito na era digital, especialmente no modo como este constrói identidades múltiplas e transitórias nas redes sociais. A topologia oferece um modelo não linear de subjetividade, onde o Simbólico, o Imaginário e o Real se entrelaçam de formas singulares, permitindo ao analista mapear impasses que escapam às categorias clássicas (Miller, 1988). Essa ferramenta teórica é particularmente relevante para refletir criticamente sobre como a psicanálise pode adaptar-se sem perder sua essência.

O analista, ao operar no campo do Real, precisa estar atento às manifestações fora da linguagem, atos, sintomas corporais, lapsos que expressam o ponto onde o simbólico falha. A formação do analista, portanto, deve acompanhar essas mutações, sem abandonar a ética do desejo nem a escuta do inconsciente.


A clínica do Real como resistência

A Clínica Lacaniana pode se firmar hoje como uma clínica do Real, voltada para os sintomas do excesso de gozo e do esvaziamento da autoridade simbólica. O sujeito contemporâneo, desamparado pelas referências tradicionais, busca na análise um espaço de escuta e de elaboração singular de seu sofrimento (Assumpção, 2022).

Os casos atendidos revelam que o sofrimento atual, embora expresso em termos como "ansiedade", "tristeza" ou "falta de motivação", carrega marcas profundas de desamparo, rigidez e exigência de perfeição. A análise, ao oferecer um espaço de fala livre, possibilita a emergência de significantes que resgatam a história do sujeito para além dos diagnósticos, promovendo uma crítica à hegemonia dos medicamentos.

Os desafios são muitos: sustentar a transferência, resistir à medicalização e à lógica da eficácia, e preservar o espaço do desejo em meio ao discurso capitalista. No entanto, a Psicanálise, ao não recuar diante do Real, oferece um campo de fala e de escuta que subverte o mal-estar contemporâneo.

A ética da clínica lacaniana não visa a normalização nem a adaptação, mas o encontro do sujeito com seu próprio desejo. Assim, a clínica se configura como um território de fronteira entre o simbólico e o real, entre o discurso social e a singularidade subjetiva, reafirmando seu papel como espaço de resistência e de criação frente às novas modalidades de sofrimento.

 

 

REFERÊNCIAS

AMARAL, Eduardo. Psicanálise e direito: interfaces, bases freudianas e bases lacanianas. Disciplina (online, 2025) ministrada no Curso de Pós-graduação: Clínica Psicanalítica Lacaniana, ESPE.

______. Transmutações do laço-social: efeitos sobre os operadores do direito e sobre a subjetividade. Disciplina (online, 2025) ministrada no Curso de Pós-graduação: Clínica Psicanalítica Lacaniana, ESPE.

CALLIGARIS, Contardo. Hello Brasil! Notas de um psicanalista europeu viajando ao Ocidente. São Paulo: Escuta, 1996.

FINK, Bruce. A clinical introduction to Lacanian psychoanalysis: Theory and technique. Cambridge: Harvard University Press, 1997.

LACAN, Jacques. O seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.

LACAN, Jacques. O seminário, livro 17: O avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.

LEADER, Darian. The new black: Mourning, melancholia and depression. Londres: Penguin Books, 2011.

MILLER, Jacques-Alain. Percurso de Lacan: Uma Introdução. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988.

QUINET, Antônio. Psicose e Laço Social: Esquizofrenia, paranóia e melancolia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006.

ZAPPAROLI, Ferdinando. Topologia e clínica: fundamentos. Disciplina (online, 2025) ministrada no Curso de Pós-graduação: Clínica Psicanalítica Lacaniana, ESPE.

______. Topologia e nós: a contemporaneidade clínica. Disciplina (online, 2025) ministrada no Curso de Pós-graduação: Clínica Psicanalítica Lacaniana, ESPE.

 

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

 

Desigualdade, Direito e a Angústia na Forma Social

Por Isabel Perides 


Este texto é o resultado de uma leitura cuidadosa, fundamentada em sua totalidade nas obras e nos apontamentos de seminários e conferências de Alysson Mascaro


A compreensão do fenômeno jurídico exige um mergulho profundo nas raízes da realidade social, partindo do princípio fundamental de que o Direito, assim como a religião, não possui uma história própria. Como demonstram as lições de Marx e Engels em A Ideologia Alemã, as formas jurídicas não evoluem por um movimento autônomo de ideias, mas são reflexos das práticas sociais e das necessidades materiais de cada época. O Direito Marítimo, por exemplo, não surgiu de uma inspiração abstrata de justiça, mas da necessidade concreta de regular o comércio marítimo, provando que a normatividade vem da prática da realidade social e das relações de produção.

Essa perspectiva exige uma ruptura epistemológica com o idealismo hegeliano. Através das 11 Teses sobre Feuerbach, Marx estabelece que o conhecimento não deve apenas interpretar o mundo, mas transformá-lo, movendo o eixo da filosofia do "Espírito" para a materialidade. Autores como Galvano della Volpe e Louis Althusser aprofundam essa ruptura ao sugerir que Marx não é apenas um "Hegel invertido", mas alguém que instituiu um novo método científico baseado na força da abstração real. Esse método permite isolar as categorias econômicas e sociais para enxergar a essência do capital por trás das aparências da circulação mercantil.

No cerne dessa estrutura está o capital, que não deve ser compreendido como uma coisa, mas como um valor em processo de valorização constante. O movimento do capitalista, busca incessantemente o mais-valor, seja de forma absoluta, através do aumento da jornada de trabalho, ou de forma relativa, por meio da tecnologia e das máquinas que aumentam a produtividade e alteram a própria percepção do tempo. Essa dinâmica leva à subsunção real do trabalho ao capital, onde o ritmo da vida e da produção é ditado pela tecnologia, gerando uma exploração que vai além do contrato formal.

O Direito, nesse contexto, surge como uma "forma social" necessária, conforme teorizado por Evguiéni Pachukanis. O capitalismo exige a figura do "sujeito de direito": indivíduos juridicamente livres e iguais que podem vender sua força de trabalho como uma mercadoria. É nesse ponto que o fetichismo da mercadoria se encontra com o fetichismo jurídico, criando a ilusão de que somos agentes plenamente autônomos, enquanto somos, na verdade, peças funcionais da acumulação de capital. O Estado, por sua vez, não é burguês apenas por quem o ocupa, mas porque sua própria forma política é desenhada para garantir a equivalência das trocas e a reprodução da sociabilidade capitalista.

Essa estrutura jurídica e econômica impacta diretamente a subjetividade humana, ponto em que o marxismo contemporâneo de autores como Alysson Mascaro e Slavoj Žižek se encontra com a psicanálise lacaniana. A ideologia atua na constituição do sujeito, criando uma identificação com a forma "vazia" do sujeito de direito que tentamos preencher através do consumo. A angústia atual, portanto, é um sintoma social; ela nasce da contradição entre a promessa de liberdade jurídica e a realidade de uma exploração técnica e temporal exaustiva. Enquanto teorias como a de Gramsci focam na hegemonia e no convencimento, a análise crítica aponta que a angústia é inerente a um sistema que exige performance constante em um horizonte de equivalência e concorrência.

A superação desse estado de angústia e exploração projeta-se no horizonte de uma sociedade onde a lógica da equivalência jurídica seja substituída pelas necessidades humanas reais. O princípio marxista de que a cada qual deve ser dado segundo sua necessidade e exigido segundo sua capacidade propõe uma nova sociabilidade, onde o desejo não seja mais mediado pela forma mercadoria. No final, entender o capital e o Direito através dessa lente crítica é reconhecer que a emancipação política é indissociável de uma nova forma de existência, livre das amarras do valor e do fetichismo que moldam o sofrimento moderno.

Isabel Perides 

(São Paulo, 07 de jan. de 2026)

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Ideal do Eu e a Forma-Sujeito

 

Ideal do Eu e a Forma-Sujeito

Por Isabel Perides 

Ao reler meus apontamentos sobre a obra de Alysson Mascaro e as bases do marxismo, uma peça do quebra-cabeça da "dialética do like" finalmente se encaixou. No meu último texto, falei sobre o vazio que meu amor me ajudou a nomear. Hoje, entendo que esse vazio é o sintoma de um conflito profundo entre quem tentamos parecer nas redes e a estrutura que nos sustenta.

Para Freud, o Mal-estar na Civilização surge da renúncia pulsional: trocamos parte da nossa liberdade e satisfação por segurança e convivência. No entanto, na era digital, essa troca foi pervertida pela "indústria da felicidade". O Ideal do Eu ... aquela instância do Superego que representa o que deveríamos ser para sermos amados ... não é mais moldado pela ética ou pela comunidade, mas pelo algoritmo.

Aqui, a psicanálise encontra o marxismo de Mascaro. Como discuti em meu trabalho anterior, a Forma de Subjetividade Jurídica no capitalismo nos constitui como sujeitos para que possamos trocar mercadorias. Nas redes, nós nos tornamos a própria mercadoria. O Ideal do Eu digital exige que sejamos produtivos, felizes e militantes esteticamente perfeitos. Quando não alcançamos essa imagem idealizada (o Eu Ideal), o resultado não é apenas frustração, mas o afundamento depressivo que mencionei anteriormente.

O mal-estar contemporâneo nasce dessa "higiene do algoritmo". Se a infraestrutura do capital (a base do prédio que muitas vezes não vemos) exige a nossa exploração, a superestrutura (as redes sociais como Aparelho Ideológico) exige o sorriso enquanto somos explorados. O "like" é o anestésico desse mal-estar; é a tentativa de suturar a ferida da nossa própria castração.

Mas, como nos ensina a teoria das Formas Sociais, não basta mudar a consciência individual se a forma política estatal e a forma mercadoria permanecem intactas. A verdadeira "hegemonia de baixo" de Gramsci exige que ocupemos esses espaços não para alimentar nosso Ideal do Eu narcisista, mas para expor as contradições da base.

A tarefa política e analítica é a mesma: atravessar a fantasia. Admitir que o mal-estar é inerente à nossa condição e que a felicidade de vitrine é uma ferramenta de controle. Precisamos resgatar o direito ao conflito, à imperfeição e ao coletivo real. Só assim deixaremos de ser "sujeitos do like" para nos tornarmos sujeitos da história.


Isabel Perides 

(São Paulo, 06 de janeiro de 2026) 

domingo, 4 de janeiro de 2026

A Imagem e o Resgate do Real

 

A Imagem e o Resgate do Real 

Por Isabel Perides 

Seguindo o rastro da minha reflexão anterior, na qual admiti que o vazio que sentia era o eco de um desejo não nomeado, percebo que a "dialética do like" representa, acima de tudo, uma prisão da identidade. Como registrei em minhas notas de aula ... para transitar da performance à práxis, é essencial compreender como o estágio do espelho lacaniano ...

Lacan nos ensina que o "eu" surge do exterior: navegamos pelo mundo com base na representação que construímos de nós mesmos, mediada pelo olhar do Outro. Nas redes sociais, o rosto refletido no espelho digital não corresponde ao que somos de fato. Trata-se de uma busca desesperada pelo Eu Ideal ... aquela imagem de perfeição que nutre o narcisismo e nos distancia da aspereza do Real.

Vivemos uma ambivalência paradoxal: hiperconectados, mas profundamente isolados. Se no século XX a histeria marcava a subjetividade... no século XXI, a depressão emerge como o sintoma predominante, um verdadeiro afundamento do sujeito. Como observa o Prof. Pedro de Santi, a "indústria da felicidade" opera como uma fábrica de depressão: a promessa incessante de perfeição engendra um Superego de autoexigência implacável. "Morremos de "saudade de quem sente culpa", imersos em uma selva de prazer imediato (o Trieb freudiano) e indiferença pelo entorno." (Santi)

A verdadeira política demanda o que a clínica psicanalítica propõe: o autoconhecimento por meio da interlocução. "O olho não se vê a si próprio"; necessitamos do Outro para acessar nossos pontos cegos. O "like" encarna a recusa da castração simbólica; é a ilusão de completude via imagem. No entanto, aceitar nossa castração ... reconhecer nossa imperfeição inerente ... é o que nos liberta do narcisismo e nos projeta efetivamente no mundo.

A ocupação dos Aparelhos Ideológicos do Estado, que defendi anteriormente, só se tornará efetiva se acompanhada por essa revolução subjetiva. Precisamos cultivar uma saúde mental ancorada na "capacidade de estar só" (Winnicott), edificando um mundo interno independente da validação externa da vitrine digital.

A resistência inicia-se ao reconhecermos que a terapia não visa dissolver o sujeito, mas sim apropriar-se de sua própria história. Fora do "story performático" e dentro da história material.

Para uma próxima reflexão seguirei abordando o superego, o algoritmo e a depressão ... conectando o controle algorítmico das plataformas à internalização de padrões inatingíveis, exacerbando o ciclo de autoexigência e esgotamento.

Isabel Perides

(São Paulo, 04 de jan. de 2026.)

Sabotando o Espelho: A Dialética do Like e a Ruptura Fantasmática

Sabotando o Espelho: 

A Dialética do Like e a Ruptura Fantasmática 

Por Isabel Perides 


No texto anterior, diagnostiquei a política reduzida à poiésis: o "crítico" que fabrica uma identidade para consumo alheio. Mas a madrugada tem seus próprios métodos de cobrança. Em conversa com meu amor, no silêncio que sucede o barulho das notificações, ele me ensinou o que estava faltando: o enigma do vazio que eu sentia era apenas o eco de um desejo meu que eu ainda não tinha nomeado. Percebi que minha crítica ao narcisismo ainda era, em parte, um refúgio. Se o "narciso" é o sintoma, qual é a estrutura? Se a rede é um tribunal de conveniência, podemos simplesmente nos retirar dela?

A resposta passa por compreender, com Althusser, que as redes não são apenas palcos de vaidade, mas o Aparelho Ideológico de Estado central da nossa era. O ato de postar é a materialização de uma disciplina internalizada: o Estado não precisa nos vigiar quando nós mesmos nos submetemos à "disciplina da vitrine". Ignorar esse aparelho sob o pretexto de um purismo ético seria entregar o monopólio da consciência das massas ao capital.

Aqui, a psicanálise se torna uma ferramenta de combate. Para que a disputa de hegemonia ocorra, é preciso que o sujeito saia do estado de "ideologia cínica" ... aquele em que você sabe que é uma farsa, mas age como se não soubesse. A consciência política real exige um "atravessamento da fantasia": reconhecer que o algoritmo sequestra seu desejo de transformação e o devolve em forma de narcisismo. Sem essa percepção, qualquer disputa vira performance ... como o ativista que coleta likes enquanto ignora a exploração material que sustenta sua própria conexão.

Como alerta Mascaro, a verdadeira política exige o abandono das "redomas morais". A hegemonia da massas exige a coragem de ocupar as trincheiras ideológicas digitais sem sucumbir à sua higiene estética. A política real exige o corpo, o conflito e a disposição para abraçar o povo em suas contradições.

A dialética se fecha assim: usamos o aparelho para despertar a consciência de classe, sabendo que o "like" é uma armadilha. O objetivo não é alimentar o Narciso, mas sabotar o espelho para que as massas enxerguem a realidade material que o filtro insiste em esconder.

Mascaro nos convida para um despertar além das telas

E se, em vez de mais um like, experimentássemos o desconforto da práxis real? Só assim, fora da vitrine, construiremos uma consciência que não se dissolve em algoritmos.

O que você fará hoje para sabotar o espelho?


Isabel Perides 

(São Paulo, 04 de jan. de 2026)