O cartógrafo da cidade invisível
Quando aceitaram que ele desenhasse o mapa daquela cidade, imaginaram que receberiam um registro de suas ruas, avenidas, praças e edifícios.
Entregaram-lhe instrumentos de medição, cadernos em branco e antigos documentos guardados nos arquivos públicos. Explicaram onde ficavam os tribunais, as universidades, as escolas, as igrejas, os jornais e os grandes centros comerciais. Advertiram-no sobre os bairros mais afastados e recomendaram que não perdesse tempo com caminhos que já não constavam dos mapas oficiais.
O cartógrafo ouviu tudo em silêncio.
Conhecia cidades.
Conhecia também as leis que organizavam seus territórios, as palavras com que justificavam suas fronteiras e os discursos pelos quais uma ordem histórica passava a ser apresentada como natural.
Durante muitos anos, estudara os mapas desenhados por outros homens. Sabia que todo mapa escolhe o que mostrar e, sobretudo, o que esconder.
Por isso, antes de iniciar o trabalho, fez uma pergunta:
— Onde estão representadas as ideias da cidade?
Os funcionários sorriram.
Disseram-lhe que ideias não ocupavam espaço.
Não tinham ruas, paredes ou coordenadas.
Não poderiam, portanto, ser desenhadas.
O cartógrafo agradeceu a explicação e começou seu percurso.
Na primeira manhã, visitou uma escola.
As crianças aprendiam a ler, escrever, contar e localizar continentes. Aprendiam também a chegar no horário, a aguardar autorização para falar, a reconhecer quem poderia avaliar seus conhecimentos e a aceitar que algumas respostas eram consideradas corretas antes mesmo de serem compreendidas.
Nas paredes, havia frases sobre liberdade, mérito e futuro.
Nenhuma delas parecia falsa.
O cartógrafo percebeu, porém, que as lições mais profundas não estavam escritas nos livros.
Elas estavam na disposição das carteiras, na divisão do tempo, nos sinais que anunciavam o início e o fim de cada atividade, na autoridade de quem perguntava e na obrigação de quem deveria responder.
Anotou no caderno:
“Há ensinamentos que não precisam ser enunciados para serem aprendidos.”
Depois visitou uma família.
Ali, as pessoas transmitiam umas às outras histórias, afetos, medos e expectativas. Ensinavam como uma mulher deveria comportar-se, o que se esperava de um homem, quais sonhos seriam prudentes e quais desejos poderiam ameaçar a estabilidade da casa.
Ninguém lia um manual.
Ainda assim, todos pareciam conhecer seus papéis.
O cartógrafo anotou:
“Algumas fronteiras são desenhadas dentro dos sujeitos antes que eles aprendam a nomeá-las.”
Na igreja, observou os ritos.
No tribunal, os procedimentos.
Na universidade, os títulos.
Na empresa, as hierarquias.
No jornal, a seleção diária entre aquilo que mereceria ser lembrado e aquilo que deveria desaparecer antes mesmo de chegar à consciência pública.
Cada instituição possuía uma linguagem própria. Mas, por trás das diferenças, havia uma gramática comum.
A escola formava.
A família preparava.
A igreja consagrava.
O tribunal legitimava.
A universidade autorizava.
O jornal distribuía visibilidade.
A empresa organizava a sobrevivência.
A cidade não precisava ordenar aos habitantes que acreditassem nela. Ela os recebia desde o nascimento, oferecia-lhes nomes, lugares e expectativas e, depois, permitia que cada um chamasse de escolha o caminho para o qual havia sido cuidadosamente preparado.
O cartógrafo começou a compreender que a cidade não existia apenas ao redor de seus habitantes.
Ela existia dentro deles.
Mas essa descoberta ainda não lhe parecia suficiente.
Se as instituições fabricavam gestos, certezas e sujeitos, quem havia fabricado as instituições?
De onde vinha a gramática comum que atravessava lugares tão diferentes?
Ele deixou os edifícios centrais e caminhou em direção aos bairros onde a cidade produzia sua própria existência.
Visitou fábricas, depósitos, escritórios, hospitais e canteiros de obras. Observou homens e mulheres que vendiam seu tempo para continuar vivendo. Viu aqueles que decidiam sem produzir e aqueles que produziam sem decidir.
Percebeu que a cidade não fabricava apenas objetos.
Fabricava necessidades.
Fabricava escassez.
Fabricava abundância.
Fabricava o medo de perder.
Fabricava também as palavras com que cada habitante explicava sua posição no mundo.
A desigualdade era apresentada como diferença de esforço.
A exploração recebia o nome de oportunidade.
A obediência tornava-se profissionalismo.
A insegurança convertia-se em flexibilidade.
O privilégio aprendia a chamar a si mesmo de mérito.
O cartógrafo compreendeu, então, que as ideias não flutuavam acima da cidade como nuvens independentes. Elas nasciam de suas relações materiais, dos conflitos entre aqueles que possuíam e aqueles que trabalhavam, dos interesses que não poderiam ser reconciliados apenas por meio de boas intenções.
A cidade produzia sua riqueza e, ao mesmo tempo, as formas de consciência capazes de justificar a maneira como essa riqueza era produzida e distribuída.
Anotou:
“As ideias possuem edifícios, mas também possuem raízes.”
Durante algum tempo, o cartógrafo acreditou estar diante de duas cidades.
A primeira era formada por instituições, rituais e práticas que transformavam indivíduos em sujeitos reconhecíveis. Nela, cada pessoa aprendia a dizer “eu” usando palavras que já existiam antes de seu nascimento.
A segunda era uma totalidade atravessada por interesses materiais, posições de classe e contradições históricas. Nela, nenhuma ideia poderia ser compreendida isoladamente das relações sociais que lhe davam origem e função.
Uma cidade parecia explicar como os sujeitos eram constituídos.
A outra perguntava por que precisavam ser constituídos daquela maneira.
Uma revelava a materialidade das instituições.
A outra buscava a materialidade da própria ordem social.
Uma desconfiava da consciência individual.
A outra desconfiava da neutralidade daqueles que diziam falar em nome da consciência universal.
O cartógrafo não tentou escolher imediatamente entre elas.
Sabia que os mapas se tornam falsos quando eliminam aquilo que não cabe em sua escala.
Preferiu sobrepor os desenhos.
Percebeu que uma escola não poderia ser compreendida apenas por suas paredes, seus horários e seus rituais. Era necessário perguntar que tipo de sociedade precisava daquela escola e que relações ela ajudava a reproduzir.
Mas também percebeu que não bastava mencionar a luta entre classes como se ela, sozinha, explicasse cada gesto, cada desejo e cada palavra. Era preciso compreender os mecanismos concretos pelos quais uma ordem social se transformava em hábito, identidade e vida cotidiana.
A totalidade não dispensava as instituições.
As instituições não existiam fora da totalidade.
Foi então que lhe perguntaram se havia finalmente descoberto qual era a verdadeira ideologia da cidade.
O cartógrafo respondeu que a pergunta estava mal formulada.
A ideologia não era uma mentira contada por alguns homens mal-intencionados a uma multidão inocente.
Também não era um véu que pudesse ser simplesmente retirado para que a verdade aparecesse intacta.
Ela era uma forma de consciência social, produzida no interior de conflitos materiais reais.
Era também uma prática incorporada em instituições, rituais, gestos e modos de reconhecimento.
Não bastava corrigir um erro.
Era necessário transformar as relações que tornavam certas formas de consciência necessárias e as estruturas que as reproduziam como se fossem naturais.
Os funcionários não gostaram da resposta.
Esperavam que o cartógrafo separasse com clareza os ignorantes dos esclarecidos, os enganados dos conscientes, os ideólogos dos cientistas.
Ele, porém, recusava a posição confortável daquele que observa a cidade de fora.
Sabia que nenhum pensamento social nasce sem lugar, sem história e sem conflito.
Até mesmo aquele que se declara neutro participa de uma disputa, ainda que sua participação consista justamente em transformar a ordem existente em medida universal da racionalidade.
A ciência poderia romper com certas evidências espontâneas.
Poderia revelar mecanismos invisíveis.
Mas não pairava acima da sociedade como uma consciência sem corpo.
Todo conhecimento era produzido em um mundo dividido.
A questão, portanto, não era saber quem possuía ideias e quem possuía ciência.
Era perguntar quais relações sociais cada teoria tornava visíveis, quais interesses ocultava e a qual transformação histórica seu horizonte servia.
Foi depois dessa resposta que a cidade começou a tratá-lo de outra maneira.
Nada aconteceu de forma abrupta.
Nenhum decreto foi publicado.
Nenhuma acusação formal chegou às suas mãos.
Os tribunais continuaram funcionando.
As universidades permaneceram abertas.
Os jornais seguiram defendendo a liberdade de expressão.
Os professores repetiram que o pensamento crítico era indispensável à democracia.
Apenas deixaram de convidá-lo.
Primeiro, seu nome desapareceu de uma mesa de debates.
Depois, de um programa acadêmico.
Em seguida, de um projeto editorial.
Pessoas que antes o cumprimentavam passaram a olhar para o outro lado da rua.
Colegas que conheciam seu trabalho começaram a referir-se a ele como se fosse uma lembrança embaraçosa de um tempo distante.
Ninguém dizia que estava proibido ouvi-lo.
Apenas se tornara inconveniente escutar.
O silêncio ao seu redor não havia sido decidido em uma única sala.
Não possuía autor identificável.
Cada pessoa podia afirmar, com aparente sinceridade, que tomara sua própria decisão.
Uma alegava prudência.
Outra, cuidado institucional.
Outra, responsabilidade pública.
Outra dizia apenas não desejar problemas.
Separadamente, todos pareciam agir livremente.
Em conjunto, produziam uma muralha.
O cartógrafo compreendeu que havia encontrado o território que não aparecia em nenhum atlas.
Era uma região sem fronteiras visíveis, para a qual se enviavam aqueles cuja existência passava a ameaçar a harmonia imaginária da cidade.
Ali, ninguém era preso.
Ninguém era formalmente condenado.
Não se retirava do indivíduo o direito abstrato de falar.
Retiravam-se os lugares concretos de onde sua fala poderia ser ouvida.
O cancelamento não precisava destruir o corpo.
Bastava desorganizar sua existência social.
Era uma pena sem tribunal, uma sentença sem processo e uma exclusão que se apresentava como soma de escolhas individuais.
A cidade, que celebrava diariamente a liberdade, havia aperfeiçoado uma forma de silêncio que não precisava chamar a si mesma de censura.
O cartógrafo não se surpreendeu apenas com aqueles que o excluíam.
Surpreendeu-se com a facilidade com que homens e mulheres considerados críticos repetiam os mesmos procedimentos da ordem que afirmavam combater.
Falavam em emancipação, mas desejavam eliminar o conflito.
Defendiam a diversidade, desde que nenhuma diferença abalasse os limites já estabelecidos.
Denunciavam o poder, mas reproduziam seus ritos quando controlavam uma pequena instituição, um jornal, uma universidade ou uma associação.
A cidade ensinara até mesmo seus opositores a desejar reconhecimento segundo os critérios dela.
O cartógrafo anotou:
“A dominação mais profunda não é aquela que impede o sujeito de falar. É aquela que determina antecipadamente quais falas poderão ser reconhecidas como legítimas.”
Apesar disso, ele não concluiu que todas as saídas estavam fechadas.
Se a ideologia não era apenas erro, mas uma forma necessária de consciência produzida em sociedades divididas, então a emancipação também precisaria construir uma consciência capaz de orientar outra prática histórica.
Não bastava denunciar.
Não bastava revelar que as instituições formavam sujeitos.
Não bastava demonstrar que as ideias possuíam raízes materiais.
Era necessário produzir novas formas de organização, novas mediações e outra maneira de viver coletivamente.
A cidade invisível não seria superada por indivíduos que se julgassem intelectualmente puros.
Seria preciso transformar o chão sobre o qual seus edifícios se erguiam.
Também seria preciso reconhecer que nenhuma sociedade existiria sem formas de representação, educação e constituição dos sujeitos. A questão não era imaginar um mundo sem ideologia, como se os seres humanos pudessem relacionar-se com a realidade sem qualquer mediação.
A questão era saber se essas mediações continuariam organizadas pela reprodução do capital, pela naturalização das hierarquias e pelo silenciamento dos conflitos ou se poderiam participar conscientemente da construção de outra sociabilidade.
O cartógrafo continuou trabalhando.
Já não recebia respostas oficiais, mas passou a conversar com aqueles que habitavam as margens do mapa.
Professores afastados.
Trabalhadores invisíveis.
Pesquisadores sem instituição.
Mulheres cuja inteligência fora traduzida como insolência.
Homens que descobriram tarde demais que a obediência nunca lhes garantiria proteção.
Jovens que repetiam palavras radicais enquanto disputavam os mesmos lugares de prestígio que diziam rejeitar.
Com eles, o cartógrafo percebeu que nenhuma estrutura funciona sem fissuras.
A interpelação nunca é perfeita.
A reprodução social nunca acontece sem contradições.
O sujeito pode ser constituído pela ordem e, ainda assim, confrontar as condições de sua própria constituição.
A consciência nasce em relações históricas determinadas, mas não está condenada a apenas repeti-las.
A ideologia dominante possui força material, porém não é a única forma possível de consciência social.
Onde existe antagonismo, existe também a possibilidade de outra orientação.
Onde a cidade produz submissão, produz involuntariamente as condições para que alguém perceba suas engrenagens.
Onde tenta apagar um pensamento, revela o medo que esse pensamento provoca.
Ao concluir o trabalho, o cartógrafo foi chamado ao edifício central.
Os funcionários esperavam receber um mapa convencional.
Abriram sobre a mesa uma folha muito extensa.
Nela estavam desenhadas as escolas, as famílias, os templos, os tribunais, as universidades, os jornais e as empresas.
Mas também apareciam as relações invisíveis que ligavam cada instituição às formas de produção, propriedade, poder e reconhecimento.
Havia linhas mostrando como as palavras circulavam.
Setas indicando como determinados interesses se transformavam em valores universais.
Regiões sombreadas onde pessoas desapareciam sem abandonar fisicamente a cidade.
Fronteiras atravessando não apenas os bairros, mas os próprios sujeitos.
Um funcionário perguntou:
— Onde está o centro deste mapa?
O cartógrafo respondeu:
— Em toda parte.
Outro perguntou:
— Quem governa esta cidade?
Ele respondeu:
— Aqueles que controlam suas relações materiais, mas também todos nós, quando repetimos seus ritos como se fossem naturais.
Um terceiro, já irritado, quis saber:
— Então ninguém é livre?
O cartógrafo permaneceu em silêncio por alguns instantes.
Depois disse:
— A liberdade começa quando percebemos que aquilo que parecia nascer apenas de nós também possui uma história. Mas essa percepção, sozinha, não nos liberta. Ela apenas nos torna responsáveis pelo que faremos depois de compreender.
Os funcionários enrolaram o mapa.
Disseram que ele era excessivamente complexo.
Não possuía utilidade administrativa.
Misturava economia, instituições, linguagem, consciência, poder e história.
Não respeitava as fronteiras entre as disciplinas.
Era, portanto, inadequado.
O cartógrafo recolheu seus instrumentos.
Antes de deixar o edifício, percebeu que ainda faltava representar um território.
Dirigiu-se à praça central e estendeu novamente o mapa sobre o chão.
Pessoas aproximaram-se.
Algumas reconheceram suas casas.
Outras encontraram as escolas onde haviam estudado, os jornais que liam e as empresas para as quais entregavam seus dias.
Muitas procuraram no desenho o lugar ocupado pelos inimigos.
Quase nenhuma buscou a própria posição.
O cartógrafo pegou o lápis e, no limite inferior do mapa, escreveu:
“Falta representar o lugar de onde você observa esta cidade.”
Uma mulher perguntou onde ficava esse lugar.
Ele apontou para ela.
Um homem riu e disse que não fazia parte daquilo.
O cartógrafo apontou também para ele.
Outro exigiu que a frase fosse apagada.
Alguns fotografaram o mapa e seguiram adiante sem interromper o caminho.
Poucos permaneceram.
O cartógrafo não lhes ofereceu uma resposta final.
Sabia que um mapa capaz de responder a todas as perguntas seria apenas outra forma de fechar a cidade.
Disse-lhes apenas que nenhuma crítica seria suficiente enquanto servisse para localizar a ideologia somente no pensamento dos outros.
Depois partiu.
Durante algum tempo, seu nome deixou de circular.
Mas o mapa permaneceu na praça.
A chuva apagou algumas linhas.
O vento levou parte do papel.
Crianças desenharam novas ruas sobre os edifícios antigos.
Trabalhadores acrescentaram caminhos que o cartógrafo não conhecera.
Uma professora escreveu, ao lado da escola, uma pergunta sobre aquilo que ensinava sem perceber.
Um estudante traçou uma passagem entre a universidade e os bairros que ela preferia estudar à distância.
Alguém redesenhou a região dos esquecidos.
Outro escreveu o nome daqueles que a cidade tentara apagar.
E, pouco a pouco, o mapa deixou de pertencer ao homem que o havia iniciado.
Talvez fosse esse o seu objetivo desde o princípio.
Não produzir uma representação definitiva da cidade, mas permitir que seus habitantes percebessem que o território em que viviam era histórico, contraditório e, por isso mesmo, transformável.
A cidade invisível continuou existindo.
Suas instituições não desapareceram.
Seus conflitos não foram reconciliados.
Seus habitantes não se tornaram subitamente conscientes de todas as forças que os atravessavam.
Mas, depois daquele mapa, já não era possível afirmar com a mesma tranquilidade que as ruas eram naturais, que as fronteiras eram eternas ou que os silêncios aconteciam por acaso.
Às vezes, uma cidade começa a mudar não quando todos encontram a mesma resposta, mas quando alguém desenha, no coração de sua ordem, uma pergunta que já não pode ser completamente apagada.
Talvez ...
Nota ao leitor
Este texto nasceu do encontro entre três caminhos de reflexão.
Em O poder da ideologia, István Mészáros compreende a ideologia como uma determinação estrutural das sociedades divididas por interesses materiais antagônicos. A ideologia não é apresentada simplesmente como falsa consciência ou erro cognitivo, mas como forma de consciência social vinculada às posições e aos conflitos concretos que atravessam a reprodução da vida material. Por isso, Mészáros também questiona a pretensão de neutralidade absoluta da ciência social e sustenta a necessidade de uma consciência emancipatória orientada para a superação da lógica do capital.
Em Ideologia e Aparelhos Ideológicos de Estado, Louis Althusser desloca o problema da ideologia para sua existência material nas instituições, nos rituais e nas práticas sociais. A escola, a família, a religião, os meios de comunicação e outras instituições não apenas difundem ideias: participam da constituição dos indivíduos como sujeitos. A ideologia, nesse sentido, não é somente aquilo em que alguém acredita, mas a relação vivida por meio da qual cada pessoa reconhece a si mesma e seu lugar no mundo.
A narrativa também dialoga, nas entrelinhas, com Crítica do cancelamento, de Alysson Leandro Mascaro. O cartógrafo não representa apenas um indivíduo isolado, mas a experiência daquele que, ao revelar as estruturas profundas da cidade, passa a enfrentar formas contemporâneas de silenciamento, exclusão e destruição social que não dependem necessariamente de uma proibição formal. O cancelamento aparece, assim, não como simples conflito entre personalidades, mas como fenômeno relacionado às formas sociais, às instituições, à disputa ideológica e aos mecanismos pelos quais uma ordem escolhe quais vozes serão reconhecidas e quais poderão ser tornadas invisíveis.
O texto não pretende conciliar completamente Mészáros e Althusser. Procura preservar o atrito entre eles.
De um lado, a totalidade social, as relações materiais, os antagonismos de classe e a impossibilidade de uma ciência social absolutamente neutra.
De outro, a materialidade dos aparelhos, a autonomia relativa das instituições, a constituição ideológica do sujeito e a permanência das mediações simbólicas em qualquer formação social.
Entre essas duas perspectivas, o cartógrafo tenta desenhar uma cidade na qual a ideologia não está apenas na consciência nem somente nas instituições, mas na relação entre sujeitos, práticas, estruturas e formas históricas de reprodução social.
O mapa permanece incompleto porque nenhum leitor observa essa cidade de fora.
Referências
ALTHUSSER, Louis. Ideologia e aparelhos ideológicos de Estado.
MASCARO, Alysson Leandro. Crítica do cancelamento.
MÉSZÁROS, István. O poder da ideologia.
São Paulo, 10 de julho de 2026.
Isabel Perides