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quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Cartografias do Self

Cartografias do Self 

Organizando as gavetas para a entrada de um novo ano! 

Por Isabel Perides

Esta reflexão nasceu de um momento de síntese em uma análise de grupo. Ao ser questionada sobre qual havia sido o meu percurso, minha psicanalista ouviu atentamente e resumiu a minha trajetória e concluiu: "Interessante... o Direito como o pai castrador; a Geografia como o mundo e suas cartografias, onde você saiu em busca de si; e, finalmente, a psicanálise como o retorno para si". A partir dela, comecei a organizar as gavetas da alma para o início de uma nova jornada que se aproxima.

O meu caminho intelectual tem sido, portanto, um percurso multifacetado, onde disciplinas aparentemente díspares se entrelaçam como camadas de um mapa. O Direito, minha formação inicial, materializou exatamente esse universo da lei como uma estrutura paterna e impositiva. Ali, encontrei o Estado com suas normas rígidas ... um aparato de controle social que, sob a lente marxista, ecoa as relações de poder e alienação descritas por Marcuse e Althusser. Naquele cenário, a repressão não era mera abstração, mas uma força que moldava meu olhar, suprimindo desejos em nome da ordem produtiva.

A Geografia chegou em meu caminho como um convite ao oposto: a saída para o mundo. Foi uma exploração dos mapas, da terra como mãe afetuosa e acolhedora, repleta de horizontes infinitos. Foi uma viagem real, cruzando fronteiras físicas que, confesso, me assustavam. Traçar rotas por continentes e culturas propiciou, no cerne, essa odisseia interna em busca de mim mesma, onde o espaço geográfico se torna espelho (e não palco) da experiência humana. Milton Santos e David Harvey me ajudaram a compreender que essa exploração não era apenas física, mas uma resistência frente à totalização do capital que tenta alienar o indivíduo de sua raiz territorial.

Agora, como o "retorno para si" profetizado na análise, a psicanálise chega e me convida a um mergulho profundo no território invisível do interior. As estruturas freudianas ... o Id, o Ego e o Superego ... revelam os conflitos psíquicos como verdadeiros mapas do eu, povoados por abismos e pontes. Essa cartografia interna não é estática; é dinâmica e marcada por tensões que, como Wilhelm Reich bem pontuou, integram o marxismo para mostrar como as estruturas de poder externas se infiltram em nosso íntimo.

A lei externa do Direito confronta-se com o Id; a busca por mapas na Geografia desdobra-se na navegação do Ego. A psicanálise, por fim, oferece as ferramentas para reconciliar esses elementos. Com Fromm e Žižek, compreendi que a autorrealização surge da dialética entre desejo e estrutura. Assim, minha jornada não é linear, mas um palimpsesto de camadas que se sobrepõem em uma busca eterna pelo eu integral.

Isabel Perides (25 de dezembro de 2025)

sábado, 20 de dezembro de 2025

O amor entre a falta e a ideologia

 

 O amor entre a falta e a ideologia 

Isabel Perides

 

O amor contemporâneo é um território de disputa entre o desejo subjetivo e a imposição ideológica. Frequentemente, o que chamamos de "amor" é uma síntese de fantasias infantis e construções sociais que servem para maquiar uma verdade fundamental da condição humana: a incompletude. Este texto busca refletir como a ideologia molda nossas expectativas românticas e como a psicanálise e o pensamento crítico  oferecem caminhos para uma vivência amorosa mais autêntica e menos performática.

Para Jacques Lacan, o amor é estruturado sobre a "falta". O sujeito, ao amar, não oferece ao outro uma completude, mas sim a sua própria carência. A frase "amar é dar o que não se tem a alguém que não o quer" resume o desencontro inerente ao laço amoroso. O amor que oferecemos nunca é exatamente o que o outro espera receber, pois ambos os sujeitos estão presos em suas próprias fantasias inconscientes. A fantasia não é uma mentira, a fantasia é a maneira pela qual enxergamos o outro. Ela é perigosa quando se torna uma uma lente fixa e que limita a alteridade do parceiro às nossas necessidades de validação.

Na filosofia, Marx e Engels e pensadores da Escola de Frankfurt, entendem que o sentimento  é moldado pela base econômica da sociedade. Friedrich Engels aponta que o modelo de amor romântico burguês nasceu para garantir a transmissão de herança e o controle dos corpos. O amor, sob o capital, tende materializar a posse. Na lógica capitalista, transformamos o parceiro em um objeto de consumo. Esperamos um retorno sobre o investimento afetivo, e a frustração surge quando o outro não cumpre sua a tarefa de nos completar ou nos validar socialmente. A ideologia do romantismo funciona como o fetiche da mercadoria: ela oculta as relações reais de poder e fantasia o cotidiano com um misto de destino e magia. O ponto alto da reflexão é o desafio de desvincular o amor da aprovação social: o relacionamento precisa ser performado para ser considerado real?

Muitas vezes, deixamos de vivenciar a plenitude de uma relação em sua beleza crua e cotidiana porque ela não se encaixa nos padrões estéticos ou ideológicos da conhecida e vendida pela cultura. O desejo de validação externa é, no fundo, um desejo de que o Grande Outro, nas figuras representadas pela sociedade,  nos diga que somos "normais" e "bem-sucedidos" em todos os campos da nossa existência. 

Não é raro observar indivíduos de alta capacidade intelectual que, embora compreendam as complexidades das estruturas sociais, permanecem analfabetos emocionais em suas vidas privadas. Isso ocorre porque a intelectualização pode servir como uma defesa contra a vulnerabilidade da "falta". Filosofar sobre sobre a própria relação é um exercício de entrega e reconhecimento da própria impotência.

A libertação não reside na destruição da fantasia, o ser humano necessita de simbolismo para desejar. Em minha experiência pessoal pude confirmar que atravessar a fantasia significa: Aceitar que o outro não veio para nos completar, e sim para caminhar ao lado de nossa solidão. Desconstruir a necessidade de validação e reconhecimento externo e vivenciar a alegria e a felicidade  do encontro. Reconhecer que o amor é um exercício diário de descolonização, retirando-o da esfera da posse e devolvendo-o à esfera da liberdade. 

Ao abrirmos mão das caixinhas ideológicas, permitimos que o amor se materialize em formas mais amplas, generosas e, finalmente, reais.


Isabel Perides 

(20 de dezembro de 2025) 

domingo, 7 de dezembro de 2025

A ESSÊNCIA CÍCLICA DO SER

 Luz, 

A percepção de que o universo e a própria existência são tecidos por um princípio de ciclicidade é uma das chaves profundas para decifrar o mistério da vida. Esta ideia transcende a noção linear de tempo e revela uma estrutura onde o fim é sempre um novo começo.

A ampulheta, não apenas um medidor, mas  um elemento místico. O ato de virá-la é um rito de passagem: a areia que desce e simboliza o tempo que se esgota é, magicamente, a mesma areia que, ao ser invertida, inaugura um novo ciclo. Representando o eterno retorno, a constante renovação onde a morte é apenas o anúncio de uma nova forma de vida.

Essa visão de que tudo é renovado ,a infância que se torna juventude, os processos de formação que se concluem e se iniciam em patamares mais altos, ressoa com o conceito do Eterno Retorno. Para o filósofo, a aceitação de viver cada instante como se fôssemos obrigados a revivê-lo infinitamente não é um fardo, mas a maior afirmação da beleza da vida.

O universo, visto como uma entidade em constante transformação e repetição de padrões, encontra eco nos estudos sobre o Tempo Mítico. Que como as culturas antigas buscavam constantemente reentrar no tempo sagrado e primordial, por meio de rituais que repetiam a criação uma busca pela anulação do tempo profano e a reinserção na perenidade do ciclo cósmico.

A ciclicidade não implica uma repetição idêntica, mas sim uma evolução. E, muitas vezes, para que a espiral ascendente avance, é necessária uma ruptura. Essa quebra de ciclo, por mais dolorosa que seja, não é um colapso, mas uma oportunidade de salto. É o momento em que se condensam múltiplas experiências em uma única travessia, levando o indivíduo a um novo e mais alto patamar de consciência.

Essa coragem de romper e se auto aceitar em um novo caminho foi vivenciada por Carl Gustav Jung. Próximo dos 50 anos, ele enfrentou uma profunda crise e precisou concretizar a ruptura com Sigmund Freud. Esse movimento, que lhe custou a solidariedade de muitos, foi essencial para que ele se libertasse do papel de "discípulo herdeiro" e construísse sua própria identidade e sistema de pensamento. Foi um ato de profunda transformação interna que, apesar da dificuldade, permitiu que sua contribuição singular florescesse para o mundo.

A espiral de desenvolvimento, que conecta o terreno ao universal, o finito ao infinito, dialoga com o Princípio Esperança de Ernst Bloch. O ciclo cósmico, permeado por uma força que impulsiona o ser em direção a um futuro não realizado, mas sempre prometido, transforma a mera repetição em um processo contínuo de evolução e transcendência. 

Isabel (07 de dez. de 2025)