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segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

A CLÍNICA LACANIANA NA CONTEMPORANEIDADE: DESAFIOS E PERSPECTIVAS FRENTE ÀS NOVAS MODALIDADES DE SOFRIMENTO

 

A CLÍNICA LACANIANA NA CONTEMPORANEIDADE: DESAFIOS E PERSPECTIVAS FRENTE ÀS NOVAS MODALIDADES DE SOFRIMENTO


Por Isabel Perides  


O deslocamento do sofrimento e a pertinência estrutural da psicanálise

... os estudos proporcionaram uma releitura dos fundamentos da clínica psicanalítica de orientação lacaniana, articulando neuroses, psicoses e suas conexões com outros campos do saber, como o Direito e a Topologia. A psicanálise, enquanto discurso, exige de si mesma uma constante atualização teórica, de modo a responder aos sintomas do seu tempo e às novas formas de subjetivação que emergem na contemporaneidade.

Na clínica atual, observa-se que o sofrimento psíquico adquire novos contornos, frequentemente marcados por angústias difusas, crises de identidade e fragilização dos laços simbólicos. A escuta lacaniana, ao privilegiar a singularidade da fala e do desejo, oferece um espaço de elaboração que contrasta com a lógica da eficiência e da medicalização dominantes. Essa abordagem resiste à redução do sujeito a categorias diagnósticas padronizadas, promovendo uma ética centrada no desejo inconsciente em vez da adaptação social (Fink, 1997).

Trago um exemplo experienciado em minha clínica para ilustrar essa questão: uma jovem adulta, com queixa inicial de ansiedade e sensação de constante julgamento, relatava angústia intensa diante de tarefas simples, como apresentar-se publicamente ou ser observada em seu ambiente de trabalho. À medida que o discurso se desenrolava na análise, emergia a experiência de um ambiente familiar rígido, permeado por exigências perfeccionistas e ausência de reconhecimento afetivo. Esse tipo de sofrimento, frequentemente rotulado como "ansiedade generalizada" nos manuais diagnósticos, revela-se, sob a ótica lacaniana, como efeito do desamparo simbólico e da fragilidade do Outro, marcando o sujeito contemporâneo em sua relação precária com a lei e o desejo (Leader, 2011). Comparativamente, isso difere das neuroses clássicas freudianas, onde o conflito era mais internalizado no simbólico; aqui, o real irrompe de forma mais bruta, exigindo uma reflexão crítica sobre como a psicanálise pode intervir sem sucumbir à demanda de cura imediata.

A Clínica Lacaniana pode se afirmar como um espaço de resistência ao imperativo do gozo e da produtividade capitalista, sustentando a importância da transferência e do desejo em um contexto dominado pela lógica da satisfação imediata (Assumpção, 2022). Instrumentos conceituais como a topologia lacaniana auxiliam o analista a mapear as estruturas subjetivas e os modos de laço social, possibilitando intervenções que preservem a singularidade do sujeito, em oposição às abordagens cognitivo-comportamentais que priorizam a normalização (Quinet, 2006).


O declínio do pai e o imperativo do gozo

As transformações culturais e tecnológicas do século XXI reconfiguram as formas de sofrimento psíquico e os modos de subjetivação. As redes sociais intensificam o domínio do Imaginário, promovendo uma busca incessante por validação através de imagens idealizadas, o que gera novas modalidades de alienação e dependência narcísica (Calligaris, 1996). Essa dinâmica pode ser comparada à metáfora do "estádio do espelho" de Lacan, mas amplificada pela era digital, onde o eu ideal é constantemente fragmentado e reconstruído online, levando a uma fragilização do simbólico.

Em um outro caso clínico que acompanho(...) relatava a dificuldade em reconhecer-se como adulta, (...) O pai(...) (...) Essa inversão simbólica das funções parentais e a falta de mediação da autoridade paterna produziam na paciente uma relação confusa com a lei e o desejo, levando-a a buscar incessantemente aprovação (...) Esse exemplo evidencia o declínio da função paterna, entendido não como ausência física do pai, mas como fragilização da metáfora paterna e da autoridade simbólica do Outro (Lacan, 2008). Em seu lugar, instala-se o Discurso Capitalista, no qual o objeto é apresentado como plenamente acessível e a satisfação se torna um imperativo moral. Se o sintoma clássico se articulava no Simbólico, as novas formas de sofrimento se manifestam diretamente no corpo e no ato, como crises de ansiedade, compulsões, automutilações ou bloqueios de performance e fenômenos que demandam uma crítica à medicalização excessiva, pois reduzem o sujeito a um organismo biológico em detrimento de sua dimensão desejante.

O papel do analista, nesse contexto, é não se deixar capturar pela demanda de alívio imediato, mas sustentar a função da escuta, que possibilita ao sujeito deslocar-se do lugar de objeto de gozo para o de sujeito do desejo. Essa posição ética lacaniana contrasta com terapias breves, que frequentemente acomodam o real sem questioná-lo, reforçando assim uma reflexão crítica sobre os limites da psicanálise em tempos de aceleração social.


Desafios contemporâneos: do deciframento à acomodação do Real

A clínica lacaniana enfrenta o desafio de sustentar o tempo lógico da análise em uma cultura da instantaneidade, que exige resultados imediatos e visíveis. A medicalização crescente do sofrimento psíquico, que tende a reduzir a subjetividade a diagnósticos e protocolos, contrasta com a ética lacaniana, voltada à singularidade do desejo (Leader, 2011).

Na prática clínica, é frequente observar sujeitos que, diante de pequenos contratempos cotidianos, apresentam reações desproporcionais de angústia ou choro. Em uma das sessões, uma analisanda relatou ter chorado intensamente (...) A repetição dessa experiência no campo laboral revela como o sintoma contemporâneo pode atualizar, no Real, marcas simbólicas de infância ainda não elaboradas, destacando a necessidade de uma articulação entre o passado e o presente que evite reduções simplistas.

A dificuldade do sujeito em nomear o que sente uma resistência comum em muitos atendimentos, desafia o analista a sustentar a escuta do não-dito e a trabalhar com o furo do simbólico. O choro, as falas sobre o "olhar julgador" ou a sensação de "peso" na emotividade surgem como formações do inconsciente que pedem deciframento, em oposição à tendência contemporânea de patologizar emoções normais.

No diálogo com o Direito, a psicanálise se depara com resistências institucionais, pois seu enfoque subjetivo diverge da objetividade exigida em tribunais ou políticas públicas. O sujeito jurídico é substituído pelo sujeito do inconsciente, cuja responsabilidade se inscreve no campo do desejo e não da norma. Assim, a psicanálise pode contribuir, inclusive nos contextos jurídicos e institucionais, como prática que devolve ao sujeito sua palavra e sua implicação, promovendo uma crítica às estruturas punitivas que ignoram a dimensão psíquica.


Perspectivas: a força do dispositivo analítico e a topologia

A clínica lacaniana, ao valorizar a singularidade e a palavra do sujeito, mantém sua força subversiva diante da homogeneização promovida pelo discurso dominante (Quinet, 2006).

Em um caso de atendimento recente, uma jovem demonstrava extrema dificuldade em estabelecer limites (...) assumindo constantemente o papel de cuidadora. A análise permitiu que ela reconhecesse esse padrão e começasse a se afirmar, recusando exigências abusivas sem sentir culpa excessiva. Essa pequena virada subjetiva ilustra a potência da clínica lacaniana em restituir ao sujeito um espaço de desejo próprio, sem ceder ao ideal de submissão familiar ou social, e reflete uma comparação com casos semelhantes descritos por Lacan em seu seminário sobre o avesso da psicanálise (Lacan, 2008).

No campo da Topologia, conceitos como o nó borromeano e o toro permitem compreender as novas configurações do sujeito na era digital, especialmente no modo como este constrói identidades múltiplas e transitórias nas redes sociais. A topologia oferece um modelo não linear de subjetividade, onde o Simbólico, o Imaginário e o Real se entrelaçam de formas singulares, permitindo ao analista mapear impasses que escapam às categorias clássicas (Miller, 1988). Essa ferramenta teórica é particularmente relevante para refletir criticamente sobre como a psicanálise pode adaptar-se sem perder sua essência.

O analista, ao operar no campo do Real, precisa estar atento às manifestações fora da linguagem, atos, sintomas corporais, lapsos que expressam o ponto onde o simbólico falha. A formação do analista, portanto, deve acompanhar essas mutações, sem abandonar a ética do desejo nem a escuta do inconsciente.


A clínica do Real como resistência

A Clínica Lacaniana pode se firmar hoje como uma clínica do Real, voltada para os sintomas do excesso de gozo e do esvaziamento da autoridade simbólica. O sujeito contemporâneo, desamparado pelas referências tradicionais, busca na análise um espaço de escuta e de elaboração singular de seu sofrimento (Assumpção, 2022).

Os casos atendidos revelam que o sofrimento atual, embora expresso em termos como "ansiedade", "tristeza" ou "falta de motivação", carrega marcas profundas de desamparo, rigidez e exigência de perfeição. A análise, ao oferecer um espaço de fala livre, possibilita a emergência de significantes que resgatam a história do sujeito para além dos diagnósticos, promovendo uma crítica à hegemonia dos medicamentos.

Os desafios são muitos: sustentar a transferência, resistir à medicalização e à lógica da eficácia, e preservar o espaço do desejo em meio ao discurso capitalista. No entanto, a Psicanálise, ao não recuar diante do Real, oferece um campo de fala e de escuta que subverte o mal-estar contemporâneo.

A ética da clínica lacaniana não visa a normalização nem a adaptação, mas o encontro do sujeito com seu próprio desejo. Assim, a clínica se configura como um território de fronteira entre o simbólico e o real, entre o discurso social e a singularidade subjetiva, reafirmando seu papel como espaço de resistência e de criação frente às novas modalidades de sofrimento.

 

 

REFERÊNCIAS

AMARAL, Eduardo. Psicanálise e direito: interfaces, bases freudianas e bases lacanianas. Disciplina (online, 2025) ministrada no Curso de Pós-graduação: Clínica Psicanalítica Lacaniana, ESPE.

______. Transmutações do laço-social: efeitos sobre os operadores do direito e sobre a subjetividade. Disciplina (online, 2025) ministrada no Curso de Pós-graduação: Clínica Psicanalítica Lacaniana, ESPE.

CALLIGARIS, Contardo. Hello Brasil! Notas de um psicanalista europeu viajando ao Ocidente. São Paulo: Escuta, 1996.

FINK, Bruce. A clinical introduction to Lacanian psychoanalysis: Theory and technique. Cambridge: Harvard University Press, 1997.

LACAN, Jacques. O seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.

LACAN, Jacques. O seminário, livro 17: O avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.

LEADER, Darian. The new black: Mourning, melancholia and depression. Londres: Penguin Books, 2011.

MILLER, Jacques-Alain. Percurso de Lacan: Uma Introdução. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988.

QUINET, Antônio. Psicose e Laço Social: Esquizofrenia, paranóia e melancolia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006.

ZAPPAROLI, Ferdinando. Topologia e clínica: fundamentos. Disciplina (online, 2025) ministrada no Curso de Pós-graduação: Clínica Psicanalítica Lacaniana, ESPE.

______. Topologia e nós: a contemporaneidade clínica. Disciplina (online, 2025) ministrada no Curso de Pós-graduação: Clínica Psicanalítica Lacaniana, ESPE.

 

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