Seguidores

sábado, 3 de janeiro de 2026

A dialética do like: narcisismo e falsa consciência


A dialética do like: narcisismo e falsa consciência

Por Isabel Perides 

O paradoxo é a marca da nossa era: a frase revolucionária, postada com filtro, serve menos à transformação social e mais à colheita de curtidas de quem mal se detém na leitura. A psicanálise tem um nome para isso: é o narciso se fantasiando de crítico. O sujeito acredita (sinceramente) estar em posição de ruptura, mas está integrado na mesma lógica de validação que diz não gostar. Essa patologia não é apenas individual ... ela é o resultado de uma erosão histórica do fazer político.

Do Espaço Público à Fabricação de Imagens

Para compreender esse fenômeno, precisamos retornar à história do pensamento político. Na tradição clássica, Aristóteles definia a política como práxis, uma ação coletiva realizada na ágora, que tem seu fim em si mesma. A política era o exercício do corpo e da voz no mundo comum.

A modernidade, de Hobbes a Rousseau, deslocou o foco para o contrato social e a legitimidade das instituições, mas ainda preservava a ideia de um cidadão atuante. O que vemos hoje é o colapso dessa trajetória: a política foi reduzida à poiesis. O crítico  não atua politicamente, ele fabrica uma identidade política para consumo alheio. Disse Debord, vivemos na Sociedade do Espetáculo, onde o capital atingiu tal grau de acumulação que se tornou imagem. A crítica ao capitalismo, sob um algoritmo de engajamento, nada mais é do que a própria mercadoria. 

A Indústria Cultural e a Falsa Consciência

Essa dinâmica a "falsa consciência": uma percepção da realidade que, embora se pretenda crítica, serve apenas para rearrumar a superfície sem alterar a essência (Lukács). A crítica foi absorvida pela Indústria Cultural. (Adorno e Horkheimer ... Escola de Frankfurt)

A contestação tornou-se um item de prateleira, um ornamento que valida a sensibilidade do usuário sem ameaçar o poder real. É a crítica como mercadoria: você consome, você compartilha, você se sente parte de uma vanguarda. Pasolini, crítico feroz da homologação cultural, veria nessa "rebeldia de story" a forma mais insidiosa de conformismo burguês.

 A Ideologia Cínica e o Aparelho Interno

O ato de postar é a materialização do que Althusser chamaria de Aparelho Ideológico de Estado internalizado. O Estado não precisa nos vigiar quando nós mesmos nos submetemos à disciplina da vitrine digital. Caímos na ideologia cínica: sabemos que é uma farsa, sabemos que o engajamento é vazio, mas continuamos agindo como se fosse real. É o conhecimento crítico a serviço da prática alienada (Žižek). 

Da Performance à Práxis Material

Como sair disso? Gramsci apontava o caminho através da hegemonia "de baixo": a política se faz na construção orgânica, na mesa do bar, no abraço coletivo e no olho no olho, e não na vitrine algorítmica. Mas essa ida à realidade material saindo do gabinete catedrático exige um preço que a estética do feed se recusa a pagar.

Como bem sinaliza a crítica contemporânea de Mascaro, a verdadeira política exige o abandono das "redomas morais" e do policiamento estéril das bolhas digitais. Se a revolução é transformação real, ela é ontologicamente incompatível com a higiene do algoritmo. Ela exige o que o filtro esconde: a crueza do corpo no espaço público, o risco do conflito real e a coragem de abraçar o povo em suas contradições, ainda que isso signifique o "cancelamento" pelas mãos do capital e de seus tribunais de conveniência.

Pasolini via na realidade a única resistência contra o consumismo, o caminho para uma política madura exige o abandono da performance. A transformação real é antiestética. 

Rompendo com o purismo performático, a autêntica práxis não teme o erro ou o julgamento da moralidade liberal ... ela teme a irrelevância da imagem sem substância. A verdadeira ruptura não é para ser vista ou aplaudida ... é para ser vivida! Fora do story performático e dentro da história material ... onde o corpo se suja, a alma se fortalece, os inimigos se revelam, os camaradas se amparam e a política ...  acontece! 

Isabel Perides 

(03 de jan. de 2026) 

Nenhum comentário:

Postar um comentário