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domingo, 4 de janeiro de 2026

A Imagem e o Resgate do Real

 

A Imagem e o Resgate do Real 

Por Isabel Perides 

Seguindo o rastro da minha reflexão anterior, na qual admiti que o vazio que sentia era o eco de um desejo não nomeado, percebo que a "dialética do like" representa, acima de tudo, uma prisão da identidade. Como registrei em minhas notas de aula ... para transitar da performance à práxis, é essencial compreender como o estágio do espelho lacaniano ...

Lacan nos ensina que o "eu" surge do exterior: navegamos pelo mundo com base na representação que construímos de nós mesmos, mediada pelo olhar do Outro. Nas redes sociais, o rosto refletido no espelho digital não corresponde ao que somos de fato. Trata-se de uma busca desesperada pelo Eu Ideal ... aquela imagem de perfeição que nutre o narcisismo e nos distancia da aspereza do Real.

Vivemos uma ambivalência paradoxal: hiperconectados, mas profundamente isolados. Se no século XX a histeria marcava a subjetividade... no século XXI, a depressão emerge como o sintoma predominante, um verdadeiro afundamento do sujeito. Como observa o Prof. Pedro de Santi, a "indústria da felicidade" opera como uma fábrica de depressão: a promessa incessante de perfeição engendra um Superego de autoexigência implacável. "Morremos de "saudade de quem sente culpa", imersos em uma selva de prazer imediato (o Trieb freudiano) e indiferença pelo entorno." (Santi)

A verdadeira política demanda o que a clínica psicanalítica propõe: o autoconhecimento por meio da interlocução. "O olho não se vê a si próprio"; necessitamos do Outro para acessar nossos pontos cegos. O "like" encarna a recusa da castração simbólica; é a ilusão de completude via imagem. No entanto, aceitar nossa castração ... reconhecer nossa imperfeição inerente ... é o que nos liberta do narcisismo e nos projeta efetivamente no mundo.

A ocupação dos Aparelhos Ideológicos do Estado, que defendi anteriormente, só se tornará efetiva se acompanhada por essa revolução subjetiva. Precisamos cultivar uma saúde mental ancorada na "capacidade de estar só" (Winnicott), edificando um mundo interno independente da validação externa da vitrine digital.

A resistência inicia-se ao reconhecermos que a terapia não visa dissolver o sujeito, mas sim apropriar-se de sua própria história. Fora do "story performático" e dentro da história material.

Para uma próxima reflexão seguirei abordando o superego, o algoritmo e a depressão ... conectando o controle algorítmico das plataformas à internalização de padrões inatingíveis, exacerbando o ciclo de autoexigência e esgotamento.

Isabel Perides

(São Paulo, 04 de jan. de 2026.)

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