Quando o Sintoma Mancha a Lombada
Um café, Lacan e o acaso que não é acaso
Por vezes, a vida nos interrompe com um “acidente” que, de acaso, não tem nada.
Eu estava imersa na escrita de (...) um trabalho que pede precisão, recolhimento e silêncio ... quando por um gesto ... A xícara de café escorregou, e o líquido escuro se espalhou pela estante. Entre tantos livros, escolheu um só: O Seminário, Livro 23, de Lacan — O Sinthoma.
O café não arruinou o volume. Ao contrário. Marcou a lombada e algumas páginas com um tom envelhecido, quase artístico, como se aquele livro tivesse atravessado mais tempo do que os outros.
Para quem habita a psicanálise e o universo acadêmico, um café derramado sobre um livro dedicado ao sintoma não é apenas um descuido. É um convite.
O sintoma como aquilo que sustenta
Em Lacan, o sinthoma, grafado assim, à moda antiga, não designa algo a ser corrigido ou eliminado. Trata-se antes de um modo singular de amarração. É aquilo que permite a cada sujeito sustentar, à sua maneira, o real, o simbólico e o imaginário sem que tudo se desfaça.
O sintoma não se resolve. Ele se atravessa.
Diante da mancha no livro, fui levada a olhar para a minha própria trajetória. Um percurso que atravessa diferentes áreas do saber, marcado por deslocamentos, insistências e por algo que sempre esteve ali ... uma dificuldade que nunca se deixou apagar por completo e difícil de esconder ...
Durante muito tempo, essa presença foi vivida como entrave. Algo que parecia destoar, atrasar, exigir contornos. Com o tempo, tornou-se possível reconhecê-la como motor: foi ela que orientou escolhas e empurrou para a pesquisa, para o aprofundamento teórico e, mais tarde, para a própria psicanálise.
Talvez não se trate de superar certas falhas, mas de escutar o que elas fazem ...
Quando o acaso ganha sentido
Jung nos lembra que nem todo encontro se organiza pela lógica da causa. Há momentos em que o mundo responde por símbolos. Algo se move internamente, e o exterior se rearranja em torno disso.
O café cair exatamente sobre aquele livro, naquele momento de recolhimento intelectual, pareceu menos um acidente e mais um sinal discreto. Um lembrete silencioso de que o sintoma não é obstáculo à criação ... muitas vezes, é sua condição.
A mancha na lombada passou a representar isso: não o erro, mas a marca. Aquilo que não se apaga e, justamente por isso, singulariza.
As marcas que nos fazem inteiros
Hoje, aquela dificuldade já não ocupa o mesmo lugar. Sua marca permanece, transformada em reflexão. Assim como o café permanece no livro de Lacan: não como dano, mas como vestígio.
Talvez a vida não nos peça coerência absoluta nem trajetórias limpas. Talvez ela apenas derrame um pouco de café sobre nossos planos para nos lembrar de que é na forma como lidamos com as manchas que algo verdadeiramente nosso se sustenta.
Cada um carrega sua própria lombada marcada. E, muitas vezes, é justamente ali que o nó se mantém.
Isabel Perides
São Paulo, 08 de fevereiro de 2026.
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