no final do Alcibíades I. O diálogo parece terminar com uma promessa de transformação… mas Platão escreve essa promessa quase como quem observa alguém à beira de um precipício.
Sócrates conduz Alcibíades até uma descoberta decisiva: ninguém pode governar uma cidade sem antes aprender a governar a si mesmo. O problema é que Alcibíades ainda ama excessivamente aquilo que o impede de realizar essa descoberta por inteiro. Ele admira o brilho do mundo. Ama a glória. Ama ser visto. Ama a possibilidade de tornar-se grande aos olhos dos outros.
E talvez seja justamente aí que o diálogo se torne trágico.
Porque há momentos em que o ser humano compreende a verdade… sem, contudo, possuir força suficiente para permanecer nela.
A última página do diálogo carrega essa atmosfera estranha. Há lucidez e há filosofia, mas o mundo continua chamando do lado de fora. O poder continua belo. O reconhecimento continua intoxicante. E Sócrates parece perceber que descobrir a própria alma não significa necessariamente conseguir salvá-la.
Talvez o mais perigoso não seja a ignorância absoluta… mas aquela forma sofisticada de cegueira que nasce quando alguém acredita finalmente ter compreendido a si mesmo enquanto continua secretamente apaixonado pelas mesmas estruturas que o destroem.
Alguns homens não traem apenas outros homens.
Traem aquilo que viram de mais verdadeiro em si mesmos.
E talvez toda tragédia política comece exatamente nesse ponto invisível… quando alguém abandona lentamente o cuidado da alma para voltar a desejar o brilho do mundo.
Talvez ...
Isabel Perides
São Paulo, 21 de maio de 2026.
Nenhum comentário:
Postar um comentário