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quinta-feira, 11 de junho de 2026

Da travessia

Os homens costumam acreditar que a maior dificuldade de uma travessia está nas tempestades.

Talvez estejam enganados.

As tempestades são visíveis. O verdadeiro perigo costuma surgir quando o mar está calmo demais e os navegantes passam a confundir a superfície das águas com a própria realidade.

É então que começam as disputas pelo leme.

Cada um reivindica para si a direção da embarcação. Cada um acredita possuir o melhor mapa. Cada um toma suas impressões por conhecimento e suas certezas por verdade.

Poucos percebem que nenhuma rota pode ser traçada apenas olhando para as ondas.

É preciso erguer os olhos.

Há algo curioso nisso. Quanto mais alguém aprende a olhar para além da espuma, menos interesse parece ter pelas disputas do convés. Talvez porque compreenda que o destino de uma viagem depende menos da força das mãos do que da direção do olhar.

Mas nem mesmo o olhar basta.

Pois existe uma diferença entre ver e tornar visível.

O mar está lá antes do amanhecer. O horizonte está lá. As estrelas estão lá. Ainda assim, sem luz, tudo permanece oculto.

Talvez a condição mais rara não seja encontrar quem saiba navegar.

Talvez seja encontrar, na mesma travessia, uma inteligência capaz de reconhecer o horizonte e uma luz capaz de revelar aquilo que já estava presente.

Os golfinhos parecem saber disso.

Não disputam portos. Não acumulam mapas. Não reivindicam o oceano para si.

Limitam-se a acompanhar, por algum tempo, aquilo que reconhecem como parte do mesmo movimento.

E talvez exista uma forma de sabedoria nesse gesto.

Porque algumas presenças não servem para possuir o mundo.

Servem apenas para lembrar que existe algo além das sombras refletidas sobre a água.

Isabel Perides 

São Paulo, junho de 2026. 




Referências filosóficas

PLATÃO. A República.

Livro V: a cidade justa e a superação dos interesses particulares em favor do bem comum.

Livro VI: a alegoria do navio, a distinção entre opinião e conhecimento, e a analogia do Sol como condição da verdade e da inteligibilidade.

Livro VII: a alegoria da caverna e a passagem das sombras para o conhecimento.