Entre o Coração e os Algoritmos: Gramsci e a Disputa pela Consciência
Tenho passado os últimos dias mergulhada nas Lettere dal Carcere de Antonio Gramsci. Há algo profundamente humano ali (...) frágil e ao mesmo tempo imenso.
No meio das análises políticas e das reflexões estratégicas, o que mais me atravessou foi a presença constante de Tatiana Schucht. Tatiana não foi apenas interlocutora; foi sustentação. Enquanto Gramsci estava preso pelo fascismo, doente e isolado, ela foi o fio que o ligava ao mundo. Cuidava, organizava, insistia. Lia e relia. Enviava livros. Protegia.
Existe uma melancolia nesse vínculo que me desarma. Ela o amava com uma dedicação quase absoluta. Ele respondia com ternura, gratidão e uma forma de amor possível dentro daquilo que lhe restava. As cartas revelam algo que me parece essencial: o pensamento não se sustenta sozinho. O intelecto precisa de cuidado. A crítica precisa de afeto para não se tornar apenas dureza.
Ao fechar as cartas, fiquei me perguntando: quem sustenta hoje o pensamento crítico? O que mantém viva a capacidade de questionar em um mundo tão saturado de estímulos?
Gramsci nos ensinou que o poder não se mantém apenas pela força. Ele se mantém quando se torna senso comum. Seu conceito de hegemonia mostra que uma classe domina de forma estável quando sua visão de mundo passa a parecer natural, neutra, inevitável. A dominação mais eficaz é aquela que não parece dominação.
Décadas depois, Louis Althusser aprofundaria essa percepção ao falar dos aparelhos ideológicos de Estado: escola, igreja, mídia, família. Não se trata apenas de repressão, mas de formação. Somos educados a ver o mundo de determinado modo, a reconhecer certas estruturas como legítimas, a desejar dentro de limites que nem sempre percebemos.
E no presente?
Penso nas redes sociais, nos algoritmos que organizam aquilo que vemos, nos mecanismos invisíveis que modulam nossa atenção. Penso em como a indignação é amplificada, como o desejo é direcionado, como o debate é frequentemente reduzido à reação instantânea.
Se Gramsci disputava consciências nas praças, nos jornais, nos sindicatos, hoje a arena é outra. A disputa passa pelo feed. O consenso é produzido por curadorias automatizadas. A lógica da visibilidade muitas vezes substitui a lógica do argumento.
Pensadores contemporâneos como Alysson Mascaro ajudam a perceber como o capitalismo atual reorganiza essas formas de poder. Estado, mercado e tecnologia se entrelaçam na produção de subjetividades ajustadas à dinâmica da mercadoria. Não somos apenas consumidores de produtos; somos produtores de dados, de atenção, de engajamento. Nossa própria presença vira matéria-prima.
E aqui me vem uma inquietação que divido (...)
Se a praça era o espaço do encontro imprevisível, do debate corpo a corpo, do olhar que confronta e reconhece, o que acontece quando a política se desloca quase inteiramente para ambientes mediados por plataformas privadas?
Ainda há espaço para a humanidade do encontro?
Não idealizo o passado. As praças também eram atravessadas por conflitos e exclusões. Mas havia algo ali que me parece difícil de reproduzir na lógica algorítmica: a experiência da presença. O tempo da escuta. O risco real do dissenso. O corpo diante do outro.
Talvez o desafio contemporâneo não seja abandonar as redes ... seria ingênuo pensar assim ... tenho consciência ... mas não permitir que elas se tornem o único espaço da política. Recuperar o encontro físico pode ser um gesto radical. Reconstruir espaços públicos onde a palavra não seja medida por curtidas, mas por sua potência transformadora.
Gramsci acreditava que todo ser humano é um intelectual em potência. Essa ideia me comove porque supõe diálogo, formação, troca. Supõe que ninguém está condenado à passividade.
Entre o coração de Tatiana e a estratégia de Gramsci, entre o cárcere do século XX e os algoritmos do século XXI, continuo me perguntando como preservar a capacidade de pensar junto. Como resistir à naturalização do que nos é apresentado como inevitável.
E há ainda outra camada que me inquieta: se a ideologia hoje opera de maneira tão íntima, atravessando desejo, identificação e gozo, talvez seja preciso ir além da crítica econômica e institucional. Talvez seja necessário compreender como o sujeito contemporâneo é produzido ... e por que ele se apega às próprias formas de dominação.
Mas isso já nos levaria a outra conversa. E eu nem sei se dou conta ... mas prometo que vou tentar ...
Quem sabe em nossa próxima conversa possamos sentar em uma praça e chamar para o debate Slavoj Zizek e Jacques Lacan.
Porque, se a hegemonia organiza o mundo, é o desejo que organiza o sujeito.
E talvez seja justamente aí que a disputa mais profunda esteja acontecendo.
Isabel Perides
São Paulo, 15 de fevereiro de 2026 (madrugada de carnaval)
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