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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Fumaça, Rum e Teoria: Um Encontro Inesperado em Havana

Fumaça, Rum e Teoria: Um Encontro Inesperado em Havana

Por Isabel Perides 

O ar é denso, carregado com o aroma de tabaco envelhecido e o dulçor do melaço. As paredes, descascadas pelo tempo e pela maresia, parecem guardar não apenas ecos de revoluções passadas, mas respirações suspensas.

Ao fundo, o dedilhado de um violão sustenta uma cadência que balança entre a melancolia e a celebração:

“De Alto Cedro voy para Marcané…”

À mesa de madeira pesada, entre garrafas de rum e cinzeiros cheios, dois homens discutem com intensidade suficiente para ignorar o calor tropical.

Slavoj Žižek ajeita a gola da camiseta com seu tique nervoso.
Jacques Lacan, impecável em linho claro, sustenta o charuto como quem sustenta uma tese.

Žižek inclina o tablet na direção de Lacan.

“Ela escreve que a ideologia não é apenas ilusão, mas prática. Está correta. Mas quando fala em ‘conscientização pura’ como saída… não. A ideologia não é uma máscara que se retira. É a própria lente. Sabemos que a democracia falha ...  e ainda assim agimos como se acreditássemos. O cinismo é a forma suprema da crença.”

Lacan solta uma nuvem azulada que parece demorar mais que o necessário para se dissipar.

“O que me intriga é a confiança na identidade política. ‘Refúgio’, diz. Mas o sujeito não encontra refúgio. Ele encontra sua divisão. O desejo é sempre o desejo do Outro. O sonho não pertence ao sonhador ... ele é sonhado pela estrutura.”

O violão vacila por um instante.

A porta de madeira range.

Isabel entra sem hesitação. Puxa a cadeira. O som ecoa no ladrilho.

“Vocês tratam a estrutura como destino,” diz, apoiando os cotovelos na mesa. “Eu não escrevi um tratado sobre o sujeito. Escrevi um chamado. O algoritmo organiza o olhar, administra o desejo, distribui indignações sob medida. A praça não dissolve a estrutura ... ela a expõe ao ruído.”

Žižek ergue as sobrancelhas.

“Você quer a passagem ao ato.”

“Quero o encontro,” ela responde. “O corpo diante do outro. A política acontece quando o script falha. Quando não há mediação suficiente para amortecer o conflito.”

Lacan a observa, agora atento.

“E se a praça for apenas mais um espelho imaginário?”

Isabel sorri, mas há gravidade no gesto.

“Então que quebre.”

O som de botas no piso interrompe o momento.

Žižek abre um sorriso largo.

“Ora, vejam só! Alysson Mascaro e o velho Sócrates caminhando juntos por Havana! Isso sim é um cruzamento improvável!”

Mascaro cumprimenta com firmeza. Sócrates observa tudo como quem já desconfia do desfecho.

Lacan sintetiza:

“Discutimos se o convite à praça é fuga da estrutura ou confronto com ela.”

Sócrates volta-se para Isabel.

“Diga-me: deve-se ir à praça com certezas ou apenas com perguntas? Se ninguém sabe o que é justiça, como evitar que a multidão apenas substitua um algoritmo digital por um algoritmo de paixões?”

Isabel sustenta o olhar.

“Talvez a justiça não seja um conceito a carregar, mas algo que só aparece quando o corpo coletivo se move.”

Mascaro, até então em silêncio, ergue o rosto lentamente.

“Estamos falando da praça como hipótese. Mas há alguém aqui que sempre tratou a praça como força histórica concreta.”

Ele aponta discretamente para o fundo do bar.

Entre fumaça espessa e um copo intocado, Rosa Luxemburgo observa. Não como espectadora ... como quem mede o pulso de um tempo.

“Sem a espontaneidade das massas,” murmura Mascaro, “a praça vira apenas metáfora.”

A música no bar muda, como se pressentisse outra presença. O ritmo ganha malícia. Alguém, ao fundo, começa:

“Se quemó Tula, se quemó
Se quemó Tula, se quemó
Ay, mamá, ¿qué pasó?
Se quemó el cuarto de Tula…”

A porta se abre novamente.

Um homem de boné entra cantarolando junto, com um meio sorriso que não se sabe se é charme ou cálculo. A melodia sai baixa, quase íntima ... mas há algo de provocação nela, como se cada verso fosse também um teste de disposição.

Ele não olha imediatamente para a mesa. Primeiro observa o salão. Mede o espaço. Avalia as forças invisíveis.

É Lenin.

Aproxima-se devagar, ainda murmurando o refrão, como se a revolução pudesse começar com um bolero malicioso.

Quando chega à mesa, a música cessa por um segundo ... não por respeito, mas por tensão.

O bar parece pequeno demais para tanta história acumulada.

O rum ainda não acabou.

E lá fora, a praça não espera ... ela pulsa.

Isabel Perides 

São Paulo, 19 de fevereiro de 2026 (madrugada) 

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