Paris, Porta Entreaberta
Por Isabel Perides
Depois de Havana, Paris parecia inevitável.
Se em Havana falávamos alto, com rum e fumaça atravessando as ideias, agora o ar é outro. É inverno. A cidade está cinza. A conversa é sussurrada.
Estamos na Rue de Lille.
Na sala de espera, eles estão ali.
Marx, Lenin, Rosa, Gramsci, Lukács, Althusser, Marcuse, Fanon.
E hoje, no divã, não está nenhum deles.
Está Mascaro.
A porta permanece aberta.
E, da sala de espera, todos escutam fragmentos.
Lenin é o primeiro a reagir.
Cancelamento… diz, com desdém. No meu tempo, chamava-se repressão.
Rosa ergue os olhos:
Não é tão simples. A violência pode ser difusa. Não precisa de fuzil.
Fanon fala baixo:
O linchamento simbólico também deixa marcas no corpo.
Marx cruza as mãos.
A superestrutura está em crise quando a moral se transforma em espetáculo. O capital adora essas distrações.
Gramsci observa:
O cancelamento é disputa de hegemonia. Quem define o aceitável controla o senso comum.
Althusser inclina-se:
Mas o sujeito acredita estar falando livremente. Não percebe que já está interpelado.
Marcuse suspira:
A sociedade administrada encontrou um novo método. Integra até a indignação.
Lukács murmura:
A reificação agora é moral. Pessoas transformadas em casos. Em rótulos.
Silêncio.
Da sala, ouve-se a voz de Mascaro ... não inteira, mas suficiente:
“…o cancelamento não é apenas moralismo, é forma política…”
Os olhos na sala de espera se cruzam.
Marx comenta:
Ele tenta mostrar que o cancelamento não é acidente. É expressão da forma social.
Gramsci concorda:
É pedagogia às avessas. Ensina pelo medo.
Lenin franze o rosto:
Mas há erro tático em expor-se ao inimigo sem preparo.
Rosa intervém:
Ou talvez o erro seja supor que o pensamento deva pedir permissão.
Fanon olha fixamente para a porta aberta:
O cancelamento marca o sujeito como excesso. Como algo que deve ser expulso para que a ordem continue limpa.
Althusser sorri discretamente:
Todo aparelho ideológico precisa de exemplos.
Marcuse fecha o livro:
É a sociedade que precisa cancelar para funcionar.
A conversa muda de tom.
Marx fala quase para si:
Todos fomos, em algum momento, interditados.
Lukács completa:
A diferença é que nosso tempo não tinha redes. Tinha fuzis.
Rosa corrige:
Mas a exclusão dói em qualquer século.
Da sala, um silêncio mais longo.
A porta continua aberta.
E talvez essa abertura seja a verdadeira cena.
É quando o sujeito descobre que o Outro não o garante.
Mascaro sai.
... o debate público não é arena neutra ... é campo estruturado.
Ninguém pergunta o que Lacan disse.
Porque talvez não tenha dito quase nada.
Talvez apenas tenha deixado o silêncio operar.
Na sala de espera, todos entendem algo desconfortável:
E Paris segue.
E como cada época inventa seu próprio tribunal.
Nenhum deles escreveu antes do corte; foi o atravessamento que os fez teoria. Se o real os rasgou, também os fundou. Grandes ideias não nascem intactas: nascem do corte. E quem atravessa o corte, se não se dobra, escreve.
São Paulo, 21 de fevereiro de 2026.
Isabel Perides
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