Diálogo: Da Bolha à Totalidade
Por Isabel Perides
Isabel encontra Alysson.
Desta vez…
não para falar do amor.
Mas da arte.
Da palavra.
Do mundo que arde…
e não é dito.
…
Alysson… começa ela
por que a literatura de hoje parece falar apenas de si mesma…
enquanto o mundo lá fora grita?
…
Alysson a observa.
Porque o mundo mudou…
e com ele, a forma de viver.
…
Explica-me.
…
Houve um tempo diz ele
em que os homens trabalhavam juntos.
Na fábrica.
Na rua.
Na luta.
Olhavam-se.
Reconheciam-se.
Existia um “nós”.
…
E hoje?
…
Hoje… o homem está só.
Diante de uma tela.
Diante de um aplicativo.
Diante de si mesmo.
…
Silêncio.
…
E isso muda a arte?
…
Não apenas muda…
determina.
…
A literatura tornou-se um espelho desse isolamento.
Um espaço onde o indivíduo escreve…
para ser reconhecido.
…
Reconhecido por quem?
Por outros iguais a ele.
…
Então… ninguém mais lê?
…
Alysson responde:
Leem.
Mas, em grande parte,
os que produzem.
…
É uma bolha.
…
Isabel permanece em silêncio.
…
E dentro dessa bolha… o que se escreve?
…
Dor diz Alysson.
Mas uma dor isolada.
Uma dor que não nomeia o mundo.
…
E isso não é político?
…
É aqui que está a armadilha responde ele.
…
O liberalismo ensinou que toda dor é individual.
E que basta reconhecê-la…
para resolvê-la.
…
Mas isso não muda nada.
…
Então o que falta?
…
Totalidade.
…
O quê?
…
Ver que a dor de um…
não é apenas dele.
…
É produzida.
Organizada.
Sustentada por uma estrutura.
…
E a literatura… não mostra isso?
…
Raramente.
Porque ela se tornou dramática.
…
Dramática?
…
O drama diz Alysson
é o sofrimento individual.
Ele quer resolver uma vida…
sem tocar o mundo que a produz.
…
Isabel pensa.
…
E existe outra forma?
…
Sim.
A Tragédia.
…
Silêncio.
…
Mas tragédia não é tristeza?
…
Não responde ele
É consciência.
…
A tragédia mostra que o problema
não é um erro individual…
mas um destino social.
…
Um sistema.
…
E o herói?
…
O herói trágico sabe…
que não luta contra um homem.
…
Mas contra uma estrutura.
…
Isabel respira fundo.
…
E isso não tira a esperança?
…
Alysson responde com calma:
Tira a ilusão.
…
A esperança liberal diz:
“um pode vencer”.
…
A tragédia diz:
“ou todos mudam… ou ninguém se salva”.
…
Silêncio.
…
Então a literatura deveria mudar?
…
Não apenas o conteúdo diz Alysson.
Mas a forma.
…
Hoje ela ainda escreve como antes…
mas vive em outro mundo.
…
E isso a torna… conservadora.
…
Isabel observa.
…
Então a arte deixou de ser perigosa?
…
Tornou-se segura.
Aceitável.
Publicável.
…
E o que deveria ser?
…
Alysson olha ao longe.
…
Fogo.
…
Silêncio.
…
Não um refúgio…
mas um desvelar.
…
Não um espelho do “eu”…
mas um mapa do mundo.
…
Não um pedido de lugar…
mas uma ruptura.
…
Isabel fecha os olhos por um instante.
…
E compreende:
Talvez a literatura
não tenha se afastado do povo…
…
mas tenha esquecido
como falar dele.
…
E talvez…
o verdadeiro escritor
não seja aquele que descreve sua dor…
…
mas aquele que revela
quem a produz.
…
E no silêncio que fica…
uma última pergunta ecoa:
…
a arte ainda é palavra…
…
ou já esqueceu
como incendiar o mundo?
Carta de Gramsci a Alysson
Caro Alysson,
escrevo-te após ouvir atentamente Isabel.
Ela me relatou tua aula ... com cuidado,
como quem carrega algo que ainda ressoa.
E devo dizer: reconheci em tuas palavras
um pensamento que caminha na direção daquilo
que sempre considerei essencial.
…
Dizes que a literatura se tornou uma bolha,
um espaço onde muitos escrevem…
mas poucos realmente alcançam o povo.
Sim.
Esse afastamento não é acaso.
É resultado de um tempo
em que a cultura foi sendo separada da vida concreta.
…
Aquilo que nomeias como isolamento,
eu compreendo como efeito da hegemonia.
…
Uma hegemonia que organiza não apenas o poder,
mas o modo como se pensa,
o modo como se sente,
o modo como se expressa.
…
Quando a literatura fala apenas de si mesma,
não é porque perdeu sua capacidade…
mas porque foi conduzida
a um lugar onde sua força se dilui.
…
Isabel contou-me também
que distinguiste o drama da tragédia.
E nisso vejo grande lucidez.
…
O drama permanece no indivíduo.
Ele narra a dor…
mas não a ultrapassa.
…
A tragédia, como bem disseste,
revela algo maior:
a relação entre o sujeito
e a estrutura que o forma.
…
É exatamente aí que a arte reencontra
sua potência histórica.
…
Porque, quando a dor deixa de ser apenas individual,
ela se torna inteligível.
E quando se torna inteligível…
pode ser transformada.
…
Concordo contigo:
não basta narrar a experiência isolada.
É preciso situá-la.
…
Dar-lhe forma dentro de uma totalidade.
…
Esse é o trabalho do que chamei, em meus escritos,
de intelectual orgânico.
…
Não aquele que fala de fora,
mas aquele que emerge de dentro da vida social
e a reorganiza em pensamento.
…
A literatura, quando cumpre esse papel,
deixa de ser um espaço restrito
e torna-se parte ativa da construção de uma nova consciência.
…
E é justamente isso que percebo em tua reflexão:
um chamado para que a arte
retome seu vínculo com o mundo.
…
Não como reflexo passivo,
mas como força que revela, articula
e transforma.
…
Isabel parece ter sentido isso.
E talvez por isso tenha vindo até mim.
…
Porque há momentos
em que o pensamento precisa circular
para se tornar mais claro.
…
Termino dizendo-te:
persistir nesse caminho
é insistir na própria possibilidade
de uma cultura viva.
…
Uma cultura que não se fecha,
mas que participa da história.
…
Aguardo tua resposta,
quando te for possível.
Com estima,
Gramsci
São Paulo, 17 de março de 2026.
Isabel Perides
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