Diálogo: Entre a Ciência e a Vocação
Por Isabel Perides
Isabel caminhava em silêncio…
As vozes que já ouvira ainda ecoavam dentro dela.
Amor.
Falta.
Entrega.
Escolha.
Mas agora… outra inquietação surgia.
Nem tudo é amor… pensou
há também o saber… o fazer… o agir no mundo.
…
À sua frente, um homem observava como quem pesa palavras antes de dizê-las.
Você parece carregada de perguntas disse ele.
Estou respondeu Isabel.
E me disseram que você fala sobre ciência… e vocação.
Ele assentiu.
Max Weber.
…
Diga-me começou Isabel
o que é a ciência?
…
Weber respondeu sem pressa:
A ciência… não é um caminho para respostas finais.
É um caminho de perguntas.
…
— Mas ela não busca a verdade? — perguntou Isabel.
Busca… disse ele
mas uma verdade sempre provisória.
…
Toda descoberta continuou
está destinada a ser superada.
O destino da ciência… é ser ultrapassada.
…
Isabel franziu o olhar.
Então por que dedicar a vida a algo que nunca se completa?
…
Weber a observou com firmeza.
Porque a ciência tem uma vocação.
E quem a segue… aceita esse destino.
…
Qual destino?
Trabalhar sabendo…
que outro irá além.
…
Silêncio.
…
Então a ciência não dá sentido à vida? perguntou Isabel.
Weber respondeu diretamente:
Não.
…
A ciência não responde às perguntas mais profundas.
Não diz como devemos viver.
Não diz o que devemos amar.
…
Isabel abaixou o olhar.
Então… para que serve?
…
Para esclarecer disse ele.
Para mostrar os meios…
não os fins.
…
Ela nos diz como fazer algo…
mas não se devemos fazê-lo.
…
Isabel permanece em silêncio.
…
E a política? pergunta ela.
…
Weber respira fundo.
A política… é outra vocação.
…
Diferente da ciência?
Sim.
Enquanto a ciência busca compreender…
a política exige agir.
…
E agir… implica escolhas.
E escolhas… implicam valores.
…
Isabel o encara.
Então a política tem a ver com o que acreditamos?
Exatamente.
…
Mas a ciência não deveria orientar a política?
…
Weber balança a cabeça.
Não.
Porque a ciência não pode decidir valores.
Ela pode mostrar consequências…
mas não pode dizer o que é certo.
…
Então o político decide sozinho?
Decide… e assume a responsabilidade.
…
Silêncio.
…
E o professor? pergunta Isabel.
Ele deve ensinar o que é certo?
…
Weber responde com firmeza:
Não.
…
O verdadeiro professor… não impõe suas opiniões.
Ele mostra…
expõe…
esclarece.
…
Ele permite que o aluno veja por si.
…
Isabel lembra das palavras:
“deixar os fatos falarem…”
…
Então ensinar… não é convencer?
Não.
É formar consciência.
…
O vento passa leve.
…
E quem segue a ciência? pergunta Isabel
o que deve fazer?
…
Deve ter disciplina responde Weber.
E humildade.
Saber que seu trabalho…
não é definitivo.
…
E quem segue a política?
…
Deve ter coragem.
Porque suas escolhas…
afetam o mundo.
…
E também deve assumir as consequências.
…
Isabel permanece em silêncio.
…
Então são dois caminhos? pergunta.
…
Duas vocações responde Weber.
E cada uma exige algo diferente da alma.
…
A ciência pede renúncia ao absoluto.
A política pede compromisso com o mundo.
…
Isabel respira fundo.
…
E é possível viver as duas?
…
Weber a observa profundamente.
É possível…
mas não sem conflito.
…
Silêncio.
…
Porque uma busca compreender…
E a outra… transformar.
…
Isabel fecha os olhos por um instante.
…
E percebe:
Nem tudo pode ser resolvido pelo saber.
Nem tudo pode ser guiado pela ação.
…
Há caminhos diferentes…
e cada um exige escolha.
…
E, talvez…
assim como no amor,
também na vida
não se trata de encontrar uma única resposta…
…
mas de sustentar
as perguntas.
São Paulo, 20 de março de 2026. (Madrugada)
Isabel Perides
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