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sexta-feira, 20 de março de 2026

Diálogo: Entre a Ciência e a Vocação

Diálogo: Entre a Ciência e a Vocação

Por Isabel Perides 

Isabel caminhava em silêncio…

As vozes que já ouvira ainda ecoavam dentro dela.

Amor.
Falta.
Entrega.
Escolha.

Mas agora… outra inquietação surgia.

Nem tudo é amor… pensou
há também o saber… o fazer… o agir no mundo.

À sua frente, um homem observava como quem pesa palavras antes de dizê-las.

Você parece carregada de perguntas disse ele.

Estou  respondeu Isabel.
E me disseram que você fala sobre ciência… e vocação.

Ele assentiu.

Max Weber.

Diga-me  começou Isabel 
o que é a ciência?

Weber respondeu sem pressa:

A ciência… não é um caminho para respostas finais.

 É um caminho de perguntas.

— Mas ela não busca a verdade? — perguntou Isabel.

Busca…  disse ele 
mas uma verdade sempre provisória.

Toda descoberta continuou
está destinada a ser superada. 

O destino da ciência… é ser ultrapassada.

Isabel franziu o olhar.

Então por que dedicar a vida a algo que nunca se completa?

Weber a observou com firmeza.

Porque a ciência tem uma vocação.

 E quem a segue… aceita esse destino.

Qual destino?

Trabalhar sabendo…
que outro irá além.

Silêncio.

Então a ciência não dá sentido à vida? perguntou Isabel.

Weber respondeu diretamente:

Não.

 A ciência não responde às perguntas mais profundas.

Não diz como devemos viver.

Não diz o que devemos amar.

Isabel abaixou o olhar.

Então… para que serve?

Para esclarecer disse ele.

Para mostrar os meios…
não os fins.

Ela nos diz como fazer algo…
mas não se devemos fazê-lo.

Isabel permanece em silêncio.

E a política? pergunta ela.

Weber respira fundo.

A política… é outra vocação.

 Diferente da ciência?

Sim.

Enquanto a ciência busca compreender…
a política exige agir.

E agir… implica escolhas.

E escolhas… implicam valores.

Isabel o encara.

 Então a política tem a ver com o que acreditamos?

Exatamente.

 Mas a ciência não deveria orientar a política?

Weber balança a cabeça.

Não.

Porque a ciência não pode decidir valores.

Ela pode mostrar consequências…
mas não pode dizer o que é certo.

Então o político decide sozinho?

Decide… e assume a responsabilidade.

Silêncio.

E o professor? pergunta Isabel.

Ele deve ensinar o que é certo?

Weber responde com firmeza:

Não.

 O verdadeiro professor… não impõe suas opiniões.

Ele mostra…
expõe…
esclarece.

Ele permite que o aluno veja por si.

Isabel lembra das palavras:

“deixar os fatos falarem…”

Então ensinar… não é convencer?

Não.

 É formar consciência.

O vento passa leve.

 E quem segue a ciência?  pergunta Isabel 
o que deve fazer?

Deve ter disciplina  responde Weber.

 E humildade.

 Saber que seu trabalho…
não é definitivo.

E quem segue a política?

 Deve ter coragem.

 Porque suas escolhas…
afetam o mundo.

E também deve assumir as consequências.

Isabel permanece em silêncio.

 Então são dois caminhos? pergunta.

Duas vocações  responde Weber.

 E cada uma exige algo diferente da alma.

 A ciência pede renúncia ao absoluto.

A política pede compromisso com o mundo.

Isabel respira fundo.

E é possível viver as duas?

Weber a observa profundamente.

 É possível…

mas não sem conflito.

Silêncio.

Porque uma busca compreender…

 E a outra… transformar.

Isabel fecha os olhos por um instante.

E percebe:

Nem tudo pode ser resolvido pelo saber.

Nem tudo pode ser guiado pela ação.

Há caminhos diferentes…

e cada um exige escolha.

E, talvez…

assim como no amor,

também na vida

não se trata de encontrar uma única resposta…

mas de sustentar

as perguntas.


São Paulo, 20 de março de 2026. (Madrugada) 

Isabel Perides 





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