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quinta-feira, 19 de março de 2026

Diálogo: O amor

 Diálogo: O amor 

Por Isabel Perides 

Isabel caminhava ao lado de seu mestre, Tales de Mileto.

O dia parecia simples…
mas dentro dela havia perguntas.

Mestre…
o que é o amor?

Tales seguiu em silêncio.

E mais…  continuou ela 
como saber se o que alguém diz sentir por nós…
é realmente amor?

Tales parou.

Há perguntas…
que precisam de mais de uma voz.

E indicou o caminho.

Não muito adiante, dois homens conversavam.

Um perguntava.
O outro organizava.

 Sócrates… Platão…  disse Tales 
ela busca compreender o amor.

Sócrates aproximou-se.

 Então diga-me, Isabel…
o que você pensa que é o amor?

Talvez… um sentimento verdadeiro entre duas pessoas.

E o verdadeiro… como reconheces?

Silêncio.

Platão então disse:

Em um banquete, discutimos isso.

Muitos pensaram saber o que era o amor…
mas poucos compreenderam.

Alguns disseram continuou Platão 
que o amor é encontrar a outra metade.

 Outros disse Sócrates 
que é o desejo pelo belo.

Mas pensa  continuou ele 
desejamos aquilo que já temos?

Não…

Então o amor é desejo daquilo que falta.

 O amor nasce da falta  disse Sócrates 
mas não é apenas carência.

É um caminho completou Platão.

Começa no corpo…
mas pode subir.

De um corpo… para muitos…
da beleza visível… à alma…
da alma… ao saber…
até alcançar o Belo em si.

 Mas… e quando alguém diz que me ama?  perguntou Isabel.

Observe disse Sócrates 
essa pessoa quer apenas te possuir…
ou crescer com esse sentimento?

O amor verdadeiro não prende disse Platão 
ele eleva.

O silêncio se instalou.

E então…

uma nova voz.

Falais do amor como elevação…

mas esqueceis…

que ele nasce da falta que nunca se preenche.

Quem está aí?  perguntou Isabel.

Alguém que escutou o desejo…

Tales murmurou:

Lacan…

O amor disse a voz 
é dar aquilo que não se tem…
a alguém que não o quer.

Como dar o que não tenho? perguntou Isabel.

Porque o amor não é posse.

Ofereces… justamente o que te falta.

E a quem não quer?

Porque o outro nunca corresponde exatamente ao que imaginas.

Nunca preenche o lugar que criaste.

E ainda assim…
é a ele que diriges teu amor.

Então o amor é desencontro?

Não… é verdade.

O amor aproxima duas faltas.

Sócrates falou:

Para nós… era a busca do belo.

Platão:

Um movimento de elevação.

Lacan:

E também… o reconhecimento da falta.

Isabel permaneceu em silêncio.

E então, mais adiante, outras vozes.

Dizes que amas? perguntou Sartre.

Digo…  respondeu Simone de Beauvoir 
mas sei que essa palavra nunca é simples.

 O amor é um projeto  disse Sartre.
Algo que se constrói.

E muitos o vivem como prisão  disse Simone.

Porque querem possuir disse ele.

 E amar é reconhecer a liberdade do outro respondeu ela.

Eis o paradoxo  disse Sartre 
queremos que o outro nos escolha…
mas nunca deixe de escolher.

 Queremos liberdade… com garantia disse Simone.

Isabel se aproxima.

 Posso perguntar?

O amor é reciprocidade?
É escolha?
Quem ama… deve estar perto quando o outro precisa?

Sartre respondeu:

O amor não é garantia de presença.

É escolha.

Simone disse:

 Mas se nunca há presença…
podemos chamar de amor?

Amar não é obrigação  disse ela 
mas também não é indiferença.

Então deve ficar? perguntou Isabel.

Não “deve” — disse Sartre.
Porque o dever prende.

Mas há algo essencial disse Simone 
a liberdade não exclui o compromisso.

 Amar  continuou ela 
é escolher.

E continuar escolhendo…

inclusive quando o outro precisa.

Se nunca estou  disse Sartre 
talvez nunca escolhi.

 Então o amor é equilíbrio?  perguntou Isabel.

 Não  disse Sartre 
é tensão.

 Entre ser livre…
e ainda assim não abandonar  disse Simone.

O vento passou.

E Isabel compreendeu:

O amor não é prova.

Não é certeza.

Não é posse.

É falta que se oferece.
É busca que se eleva.
É liberdade que escolhe.

E talvez…

amar seja isso:

poder partir…

e ainda assim,

ficar.


Continua…


Porque algumas perguntas
não se encerram em um único encontro.

Elas permanecem.

Respiram.
Crescem.
Insistem.

O amor…
a falta…
a escolha…
a liberdade…

Tudo isso ainda ecoa.

E Isabel sabe:

há mais a escutar.
mais a atravessar.
mais a compreender.

Outras vozes ainda virão.
Outros pensamentos se entrelaçarão.

E o diálogo…
não termina aqui.

Ele continua.

Na próxima reflexão,
seguiremos esse caminho 
aprofundando as ideias,
retomando as vozes de Sócrates, Platão, Lacan, Sartre e Simone, trazendo outros como Nietsche, amor como ilusão e criação e Aristóteles, amor como amizade e virtude 
e deixando que o amor, em suas múltiplas formas,
ainda nos interrogue.

Porque há perguntas
que não pedem respostas finais…

apenas continuidade ! 


São Paulo, 18 de março de 2026. 

Isabel Perides 

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