Diálogo: O amor
Por Isabel Perides
Isabel caminhava ao lado de seu mestre, Tales de Mileto.
O dia parecia simples…
mas dentro dela havia perguntas.
Mestre…
o que é o amor?
Tales seguiu em silêncio.
E mais… continuou ela
como saber se o que alguém diz sentir por nós…
é realmente amor?
Tales parou.
Há perguntas…
que precisam de mais de uma voz.
E indicou o caminho.
…
Não muito adiante, dois homens conversavam.
Um perguntava.
O outro organizava.
Sócrates… Platão… disse Tales
ela busca compreender o amor.
Sócrates aproximou-se.
Então diga-me, Isabel…
o que você pensa que é o amor?
Talvez… um sentimento verdadeiro entre duas pessoas.
E o verdadeiro… como reconheces?
Silêncio.
Platão então disse:
Em um banquete, discutimos isso.
Muitos pensaram saber o que era o amor…
mas poucos compreenderam.
…
Alguns disseram continuou Platão
que o amor é encontrar a outra metade.
Outros disse Sócrates
que é o desejo pelo belo.
Mas pensa continuou ele
desejamos aquilo que já temos?
Não…
Então o amor é desejo daquilo que falta.
…
O amor nasce da falta disse Sócrates
mas não é apenas carência.
É um caminho completou Platão.
Começa no corpo…
mas pode subir.
De um corpo… para muitos…
da beleza visível… à alma…
da alma… ao saber…
até alcançar o Belo em si.
…
Mas… e quando alguém diz que me ama? perguntou Isabel.
Observe disse Sócrates
essa pessoa quer apenas te possuir…
ou crescer com esse sentimento?
O amor verdadeiro não prende disse Platão
ele eleva.
…
O silêncio se instalou.
E então…
uma nova voz.
Falais do amor como elevação…
mas esqueceis…
que ele nasce da falta que nunca se preenche.
…
Quem está aí? perguntou Isabel.
Alguém que escutou o desejo…
Tales murmurou:
Lacan…
…
O amor disse a voz
é dar aquilo que não se tem…
a alguém que não o quer.
…
Como dar o que não tenho? perguntou Isabel.
Porque o amor não é posse.
Ofereces… justamente o que te falta.
…
E a quem não quer?
Porque o outro nunca corresponde exatamente ao que imaginas.
Nunca preenche o lugar que criaste.
E ainda assim…
é a ele que diriges teu amor.
…
Então o amor é desencontro?
Não… é verdade.
O amor aproxima duas faltas.
…
Sócrates falou:
Para nós… era a busca do belo.
Platão:
Um movimento de elevação.
Lacan:
E também… o reconhecimento da falta.
…
Isabel permaneceu em silêncio.
E então, mais adiante, outras vozes.
…
Dizes que amas? perguntou Sartre.
Digo… respondeu Simone de Beauvoir
mas sei que essa palavra nunca é simples.
O amor é um projeto disse Sartre.
Algo que se constrói.
E muitos o vivem como prisão disse Simone.
Porque querem possuir disse ele.
E amar é reconhecer a liberdade do outro respondeu ela.
…
Eis o paradoxo disse Sartre
queremos que o outro nos escolha…
mas nunca deixe de escolher.
Queremos liberdade… com garantia disse Simone.
…
Isabel se aproxima.
Posso perguntar?
O amor é reciprocidade?
É escolha?
Quem ama… deve estar perto quando o outro precisa?
…
Sartre respondeu:
O amor não é garantia de presença.
É escolha.
…
Simone disse:
Mas se nunca há presença…
podemos chamar de amor?
…
Amar não é obrigação disse ela
mas também não é indiferença.
…
Então deve ficar? perguntou Isabel.
Não “deve” — disse Sartre.
Porque o dever prende.
…
Mas há algo essencial disse Simone
a liberdade não exclui o compromisso.
…
Amar continuou ela
é escolher.
E continuar escolhendo…
inclusive quando o outro precisa.
…
Se nunca estou disse Sartre
talvez nunca escolhi.
…
Então o amor é equilíbrio? perguntou Isabel.
Não disse Sartre
é tensão.
…
Entre ser livre…
e ainda assim não abandonar disse Simone.
…
O vento passou.
E Isabel compreendeu:
O amor não é prova.
Não é certeza.
Não é posse.
…
É falta que se oferece.
É busca que se eleva.
É liberdade que escolhe.
…
E talvez…
amar seja isso:
poder partir…
e ainda assim,
ficar.
Continua…
Porque algumas perguntas
não se encerram em um único encontro.
Elas permanecem.
Respiram.
Crescem.
Insistem.
O amor…
a falta…
a escolha…
a liberdade…
Tudo isso ainda ecoa.
E Isabel sabe:
há mais a escutar.
mais a atravessar.
mais a compreender.
Outras vozes ainda virão.
Outros pensamentos se entrelaçarão.
E o diálogo…
não termina aqui.
Ele continua.
Na próxima reflexão,
seguiremos esse caminho
aprofundando as ideias,
retomando as vozes de Sócrates, Platão, Lacan, Sartre e Simone, trazendo outros como Nietsche, amor como ilusão e criação e Aristóteles, amor como amizade e virtude
e deixando que o amor, em suas múltiplas formas,
ainda nos interrogue.
Porque há perguntas
que não pedem respostas finais…
apenas continuidade !
São Paulo, 18 de março de 2026.
Isabel Perides
Nenhum comentário:
Postar um comentário