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terça-feira, 24 de março de 2026

Diálogo: A Ruptura

Diálogo: A Ruptura 

Por Isabel Perides 

Isabel resmunga

“Totalidade.”
“Estrutura.”
“Ilusão do sujeito.”

Nada disso havia desaparecido.

Então é isso?  pergunta.

— Não há saída pelo pensamento?

Há saída  responde uma nova voz.

Isabel levanta os olhos.

Jacob Gorender.

Mas não como você imagina.

Então me diga  insiste Isabel.

— O que é ruptura?

Gorender 

Ruptura não é consciência.

Não é linguagem.

Não é elaboração.

 Ruptura é prática histórica.

Silêncio.

Você escreve sobre transformação…

mas ainda trata a transformação como experiência interna.

 E não é?

 Não.

Transformação social não acontece dentro do sujeito.

 Acontece nas relações materiais.

Produção.

 Poder.

Propriedade.

Isabel hesita.

 Mas compreender não é o primeiro passo?

 É um passo.

 Mas não o decisivo.

A história não muda porque alguém compreendeu.

 Muda porque alguém organizou.

Porque alguém rompeu.

Silêncio mais denso.

E o que significa romper?

 Significa enfrentar a estrutura.

Não simbolicamente.

Concretamente.

 Significa conflito.

Isabel sente o peso da palavra.

 Conflito…

 Sim.

 Classe contra classe.

Você pode escrever mil textos…

 e ainda assim não tocar nisso.

 E então tudo permanece.

 Você está dizendo que meus textos são insuficientes.

Estou dizendo que eles ainda não atravessaram a realidade.

Eles circulam ao redor dela.

Silêncio.

 Mas eu falo de sociedade…

Fala.

Mas não fala de luta.

 E sem luta…

não há transformação.

Isabel aperta as mãos.

Então o que falta?

Mediação histórica.

Organização coletiva.

E principalmente:

assumir que a transformação não é harmônica.

É ruptura.

 E ruptura tem custo.

Sempre teve.

Silêncio longo.

 E o sujeito?

 pergunta Isabel, mais baixo.

 O sujeito não desaparece.

 Ele se forma na luta.

 Não na introspecção isolada.

 Mas no enfrentamento.

 Na prática coletiva.

Na história em movimento.

Isabel fecha os olhos por um instante.

Então…

 pensar não basta.

Nunca bastou.

 Pensar sem agir…

é apenas adaptação sofisticada.

Silêncio.

 E escrever?

Escrever pode ser arma.

 Ou pode ser ornamento.

Depende de onde você coloca sua palavra.

 E do que você está disposta a enfrentar.

Isabel não responde.

Não há reconciliação.

Apenas uma constatação incômoda:

que sair da bolha

não é um movimento de consciência

mas de ruptura.


São Paulo, 24 de março de 2026. (3:30 da madrugada) 

Isabel Perides

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