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segunda-feira, 23 de março de 2026

Diálogo: O confronto

Diálogo: O confronto 

Por Isabel Perides 

Isabel estava diante do próprio blog.

Leu seus textos.

Amor.
Consciência.
Escolha.
Sombra.

Havia coerência.

Mas algo a incomodava.

Eu estou tentando compreender disse.

Não.

A resposta veio direta.

O interlocutor ( inspiração) 

Isabel não se surpreende.

Então o que estou fazendo?

Você está organizando a sua experiência.

Mas isso não é o mesmo que compreender a realidade.

Qual a diferença?

A sua escrita parte do indivíduo.

Mesmo quando você fala de sociedade.

Silêncio.

 Eu falo de estrutura responde Isabel.

Não o suficiente.

Você reconhece a estrutura…

 mas ainda centraliza o sujeito.

E isso é um problema?

É o problema central.

 Porque mantém a ilusão de que a transformação começa no indivíduo.

Isabel franze o olhar.

Mas toda mudança não passa pelo sujeito?

 Não no sentido que você está colocando.

 O sujeito é formado pela estrutura.

Não é ele quem a determina.

Então não há escolha?

 Há escolha…

mas dentro de limites materiais.

 E seus textos  continua 
tratam a consciência como se ela fosse capaz de reorganizar o mundo por si.

E não é?

 Não.

 A consciência, isoladamente, não altera o modo de produção.

Silêncio.

Então pensar não muda nada?

 Muda.

Mas não como você está supondo.

 Pensar sem ação estrutural…

 se torna apenas elaboração.

 E elaboração pode ser…

acomodação.

Isabel permanece em silêncio.

Você escreve sobre amor…

como se ele fosse um caminho de elevação.

E não pode ser?

 Pode.

 Mas isso não altera as condições que produzem sofrimento em larga escala.

 O problema é quando o particular é tratado como universal.

E quando o individual substitui o coletivo.

Você está dizendo que meus textos são individualistas?

Estou dizendo que eles ainda operam dentro de uma lógica liberal.

Silêncio mais denso.

Mesmo falando de crítica?

Sim.

Porque a crítica que não atinge a estrutura…

é absorvida por ela.

Torna-se inofensiva.

Isabel respira fundo.

Então o que falta?

 Você usa o conceito…

mas ainda não o sustenta completamente.

Sustentar como?

 Não tratar o sofrimento como experiência isolada.

Nem como questão de consciência.

Mas como resultado necessário de uma forma social.

E isso exige mais do que reflexão.

 Exige ruptura.

Silêncio.

 Então o que eu deveria fazer?

O interlocutor responde sem hesitar:

Parar de tratar o pensamento como fim.

 E começar a tratá-lo como mediação.

 Entre estrutura e transformação.

Isabel olha para seus próprios textos.

Então… eu ainda estou dentro do que critico?

 Em parte.

 E isso não é exceção.

 É regra.

Silêncio.

 E há saída?

— Há.

Mas não pela via confortável da autorreflexão.

E sim pela compreensão radical da realidade social.

E da posição que você ocupa nela.

O silêncio se mantém.

Sem conclusão.

Sem reconciliação.

Apenas com algo mais difícil que antes:

a suspeita

de que compreender a si mesma

não era suficiente e não basta ... 

é preciso ir além ... 

mas como ?

São Paulo, 23 de março de 2026. (madrugada)

Isabel Perides 

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