Diálogo: O confronto
Por Isabel Perides
Isabel estava diante do próprio blog.
Leu seus textos.
Amor.
Consciência.
Escolha.
Sombra.
Havia coerência.
Mas algo a incomodava.
…
Eu estou tentando compreender disse.
…
Não.
A resposta veio direta.
…
O interlocutor ( inspiração)
…
Isabel não se surpreende.
Então o que estou fazendo?
…
Você está organizando a sua experiência.
Mas isso não é o mesmo que compreender a realidade.
…
Qual a diferença?
…
A sua escrita parte do indivíduo.
Mesmo quando você fala de sociedade.
…
Silêncio.
…
Eu falo de estrutura responde Isabel.
…
Não o suficiente.
…
Você reconhece a estrutura…
mas ainda centraliza o sujeito.
…
E isso é um problema?
…
É o problema central.
…
Porque mantém a ilusão de que a transformação começa no indivíduo.
…
Isabel franze o olhar.
Mas toda mudança não passa pelo sujeito?
…
Não no sentido que você está colocando.
…
O sujeito é formado pela estrutura.
Não é ele quem a determina.
…
Então não há escolha?
…
Há escolha…
mas dentro de limites materiais.
…
E seus textos continua
tratam a consciência como se ela fosse capaz de reorganizar o mundo por si.
…
E não é?
…
Não.
A consciência, isoladamente, não altera o modo de produção.
…
Silêncio.
…
Então pensar não muda nada?
…
Muda.
Mas não como você está supondo.
…
Pensar sem ação estrutural…
se torna apenas elaboração.
…
E elaboração pode ser…
acomodação.
…
Isabel permanece em silêncio.
…
Você escreve sobre amor…
como se ele fosse um caminho de elevação.
…
E não pode ser?
…
Pode.
Mas isso não altera as condições que produzem sofrimento em larga escala.
…
O problema é quando o particular é tratado como universal.
…
E quando o individual substitui o coletivo.
…
Você está dizendo que meus textos são individualistas?
…
Estou dizendo que eles ainda operam dentro de uma lógica liberal.
…
Silêncio mais denso.
…
Mesmo falando de crítica?
…
Sim.
Porque a crítica que não atinge a estrutura…
é absorvida por ela.
…
Torna-se inofensiva.
…
Isabel respira fundo.
…
Então o que falta?
…
Você usa o conceito…
mas ainda não o sustenta completamente.
…
Sustentar como?
…
Não tratar o sofrimento como experiência isolada.
Nem como questão de consciência.
…
Mas como resultado necessário de uma forma social.
…
E isso exige mais do que reflexão.
…
Exige ruptura.
…
Silêncio.
…
Então o que eu deveria fazer?
…
O interlocutor responde sem hesitar:
Parar de tratar o pensamento como fim.
…
E começar a tratá-lo como mediação.
…
Entre estrutura e transformação.
…
Isabel olha para seus próprios textos.
…
Então… eu ainda estou dentro do que critico?
…
Em parte.
…
E isso não é exceção.
É regra.
…
Silêncio.
…
E há saída?
…
— Há.
…
Mas não pela via confortável da autorreflexão.
…
E sim pela compreensão radical da realidade social.
…
E da posição que você ocupa nela.
…
O silêncio se mantém.
Sem conclusão.
Sem reconciliação.
…
Apenas com algo mais difícil que antes:
…
a suspeita
de que compreender a si mesma
não era suficiente e não basta ...
é preciso ir além ...
mas como ?
São Paulo, 23 de março de 2026. (madrugada)
Isabel Perides
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