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segunda-feira, 23 de março de 2026

Diálogo: A Noite e a Sombra

Por Isabel Perides 

Isabel encontra Castro Alves.

Há intensidade em seu olhar.
Como se cada palavra carregasse mundos.

Castro… diz ela
preciso te contar algo.

 Quando eu estava no ensino médio…
li Noite na Taverna.

Ele a observa em silêncio.

E aquilo me atravessou.

Depois li tudo o que pude…
mas essa obra…

 ela nunca me deixou.

Isabel respira fundo.

 Até hoje… ela me povoa.

Castro Alves sorri levemente.

Então a noite ficou em ti.

 Não sei se foi a noite…
ou algo mais profundo.

Vem diz ele 
vamos caminhar por ela.

O cenário muda.

Sombras.
Velas.
Vozes que se entrelaçam.

Uma mesa.
Relatos que se derramam.

Aqui  diz Castro 
não há máscaras.

 Só excessos.

 Só verdades que não querem ser ditas à luz do dia.

Isabel fecha os olhos por um instante.

 Essas histórias… diz ela 
me inquietam.

 Há algo nelas que não é só literatura.

Não é responde Castro.

É revelação.

 Mas revelação de quê?

Daquilo que o homem esconde de si mesmo.

Silêncio.

Isabel o olha com atenção.

Isso que você diz…
me lembra Jung.

Castro ergue levemente o olhar.

A sombra  continua ela 
aquilo que não queremos ver…

 mas que continua existindo dentro de nós.

 Sim responde ele 
e quanto mais negada…

mais forte ela se torna.

Então esses personagens…
essas histórias…

São a sombra diz Castro.

Não de um homem apenas…

mas de todos.

Isabel observa a cena.

Amor distorcido.
Desejo sem limite.
Vida e morte entrelaçadas.

Mas por que isso me marcou tanto?  pergunta.

Castro a encara com profundidade.

 Porque reconheceste.

Mesmo sem saber.

 A noite da taverna continua ele 
não está apenas nos livros.

Ela vive naquilo que evitamos nomear.

E Jung diria…  murmura Isabel 
que integrar a sombra é necessário.

Porque negar não liberta.

Apenas aprisiona.

Silêncio.

Então essa obra… não é só excesso?

Não.

 É espelho.

Um espelho do que o homem é…
quando deixa de fingir.

Isabel respira fundo.

 E o que faço com essa sombra?

Castro responde com calma:

Não te percas nela.

Mas também não a negues.

Aprende a reconhecê-la…

para que ela não te governe.

O ambiente se dissolve lentamente.

As vozes se afastam.

Mas algo permanece.

Isabel compreende:

A noite não é apenas escuridão.

É também revelação.

E talvez…

o que mais nos assusta
não seja o que está fora…

mas aquilo que,

em silêncio,

vive dentro de nós.



Dialogo: A Noite e a Sombra (continuação)

Castro Alves permanece em silêncio por um instante.

Como se escutasse não apenas as palavras…
mas o que nelas se escondia.

 Dizes que o que vês aqui…
te lembra Jung.

Ele a observa com curiosidade.

Por quê?

Isabel respira fundo.

Como quem tenta organizar algo que ainda está sendo compreendido.

 Porque Jung dizia…
que o homem não é apenas aquilo que mostra ao mundo.

Há uma parte oculta…

 uma sombra.

Castro inclina levemente a cabeça.

Sombra? repete.

 Sim  continua Isabel 
tudo aquilo que negamos…

desejos que reprimimos…
impulsos que não aceitamos…
partes de nós que não cabem na imagem que queremos sustentar.

O vento passa entre as vozes.

 E o que acontece com isso? pergunta Castro.

Não desaparece.

 Permanece.

E quanto mais é negado…
mais se intensifica.

Então essa noite… diz ele, olhando ao redor 
seria esse lugar onde a sombra aparece?

 Exatamente.

Aqui, ninguém finge.

A sombra fala.

Silêncio.

 Mas Jung também falava de algo mais continua Isabel.

Arquétipos.

O que são?

 Formas universais…

imagens que existem em todos nós.

 Como personagens internos.

O herói…
 a vítima…
 o amante…
 o destruidor…

Castro observa atentamente.

 E esses homens na taverna?

 São expressões disso.

Não apenas indivíduos…

mas figuras que representam algo maior.

 Como se cada história…
fosse mais do que uma história.

 Sim diz Isabel.

Como se fosse um eco daquilo que todos carregamos.

Castro permanece em silêncio.

Então o que vejo aqui…
não é apenas decadência?

 Não.

É revelação do humano.

Em sua totalidade.

 Luz e sombra.

Isabel continua, agora mais segura:

Jung dizia que o caminho não é negar a sombra…

 mas integrá-la.

Torná-la consciente.

Porque só assim o homem deixa de ser governado por aquilo que não conhece.

Silêncio.

Castro sorri, com intensidade.

 Então a noite da taverna…

não é apenas queda.

 É também possibilidade de consciência.

Isabel assente.

Sim.

Mas é um caminho perigoso.

Porque olhar para a sombra…
exige coragem.

O ambiente parece mais denso.

Mas também mais claro.

 Agora entendo diz Castro 
por que essa obra te marcou.

Porque não fala apenas de histórias…

fala de ti.

Isabel abaixa o olhar.

 De mim… e de todos.

Silêncio.

E naquele instante,

a noite já não era apenas escuridão.

Era espelho.

E, talvez…

o primeiro passo
para se tornar inteiro.

São Paulo, 23 de março de 2026. (madrugada)

Isabel Perides 

Notas e inspirações
Este texto foi inspirado na poética de Castro Alves, especialmente em Noite na Taverna,
e nas reflexões de Carl Jung sobre a sombra e os arquétipos.






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