Diálogo: A Noite e a Sombra
Por Isabel Perides
Isabel encontra Castro Alves.
Há intensidade em seu olhar.
Como se cada palavra carregasse mundos.
…
Castro… diz ela
preciso te contar algo.
…
Quando eu estava no ensino médio…
li Noite na Taverna.
…
Ele a observa em silêncio.
…
E aquilo me atravessou.
Depois li tudo o que pude…
mas essa obra…
ela nunca me deixou.
…
Isabel respira fundo.
Até hoje… ela me povoa.
…
Castro Alves sorri levemente.
Então a noite ficou em ti.
…
Não sei se foi a noite…
ou algo mais profundo.
…
Vem diz ele
vamos caminhar por ela.
…
O cenário muda.
Sombras.
Velas.
Vozes que se entrelaçam.
Uma mesa.
Relatos que se derramam.
…
Aqui diz Castro
não há máscaras.
…
Só excessos.
Só verdades que não querem ser ditas à luz do dia.
…
…
Isabel fecha os olhos por um instante.
…
Essas histórias… diz ela
me inquietam.
Há algo nelas que não é só literatura.
…
Não é responde Castro.
É revelação.
…
Mas revelação de quê?
…
Daquilo que o homem esconde de si mesmo.
…
Silêncio.
…
Isabel o olha com atenção.
Isso que você diz…
me lembra Jung.
…
Castro ergue levemente o olhar.
…
A sombra continua ela
aquilo que não queremos ver…
mas que continua existindo dentro de nós.
…
Sim responde ele
e quanto mais negada…
mais forte ela se torna.
…
Então esses personagens…
essas histórias…
…
São a sombra diz Castro.
Não de um homem apenas…
mas de todos.
…
Isabel observa a cena.
Amor distorcido.
Desejo sem limite.
Vida e morte entrelaçadas.
…
Mas por que isso me marcou tanto? pergunta.
…
Castro a encara com profundidade.
Porque reconheceste.
…
Mesmo sem saber.
…
A noite da taverna continua ele
não está apenas nos livros.
…
Ela vive naquilo que evitamos nomear.
…
E Jung diria… murmura Isabel
que integrar a sombra é necessário.
…
Porque negar não liberta.
Apenas aprisiona.
…
Silêncio.
…
Então essa obra… não é só excesso?
…
Não.
É espelho.
…
Um espelho do que o homem é…
quando deixa de fingir.
…
Isabel respira fundo.
…
E o que faço com essa sombra?
…
Castro responde com calma:
Não te percas nela.
…
Mas também não a negues.
…
Aprende a reconhecê-la…
para que ela não te governe.
…
O ambiente se dissolve lentamente.
…
As vozes se afastam.
…
Mas algo permanece.
…
Isabel compreende:
A noite não é apenas escuridão.
…
É também revelação.
…
E talvez…
o que mais nos assusta
não seja o que está fora…
…
mas aquilo que,
em silêncio,
vive dentro de nós.
Dialogo: A Noite e a Sombra (continuação)
Castro Alves permanece em silêncio por um instante.
Como se escutasse não apenas as palavras…
mas o que nelas se escondia.
…
Dizes que o que vês aqui…
te lembra Jung.
…
Ele a observa com curiosidade.
Por quê?
…
Isabel respira fundo.
Como quem tenta organizar algo que ainda está sendo compreendido.
…
Porque Jung dizia…
que o homem não é apenas aquilo que mostra ao mundo.
…
Há uma parte oculta…
uma sombra.
…
Castro inclina levemente a cabeça.
…
Sombra? repete.
…
Sim continua Isabel
tudo aquilo que negamos…
desejos que reprimimos…
impulsos que não aceitamos…
partes de nós que não cabem na imagem que queremos sustentar.
…
O vento passa entre as vozes.
…
E o que acontece com isso? pergunta Castro.
…
Não desaparece.
…
Permanece.
E quanto mais é negado…
mais se intensifica.
…
Então essa noite… diz ele, olhando ao redor
seria esse lugar onde a sombra aparece?
…
Exatamente.
…
Aqui, ninguém finge.
A sombra fala.
…
Silêncio.
…
Mas Jung também falava de algo mais continua Isabel.
…
Arquétipos.
…
O que são?
…
Formas universais…
imagens que existem em todos nós.
…
Como personagens internos.
…
O herói…
a vítima…
o amante…
o destruidor…
…
Castro observa atentamente.
…
E esses homens na taverna?
…
São expressões disso.
…
Não apenas indivíduos…
mas figuras que representam algo maior.
…
Como se cada história…
fosse mais do que uma história.
…
Sim diz Isabel.
Como se fosse um eco daquilo que todos carregamos.
…
Castro permanece em silêncio.
…
Então o que vejo aqui…
não é apenas decadência?
…
Não.
É revelação do humano.
…
Em sua totalidade.
…
Luz e sombra.
…
Isabel continua, agora mais segura:
Jung dizia que o caminho não é negar a sombra…
…
mas integrá-la.
…
Torná-la consciente.
…
Porque só assim o homem deixa de ser governado por aquilo que não conhece.
…
Silêncio.
…
Castro sorri, com intensidade.
…
Então a noite da taverna…
…
não é apenas queda.
…
É também possibilidade de consciência.
…
Isabel assente.
…
Sim.
Mas é um caminho perigoso.
…
Porque olhar para a sombra…
exige coragem.
…
O ambiente parece mais denso.
…
Mas também mais claro.
…
Agora entendo diz Castro
por que essa obra te marcou.
…
Porque não fala apenas de histórias…
…
fala de ti.
…
Isabel abaixa o olhar.
…
De mim… e de todos.
…
Silêncio.
…
E naquele instante,
a noite já não era apenas escuridão.
…
Era espelho.
…
E, talvez…
o primeiro passo
para se tornar inteiro.
São Paulo, 23 de março de 2026. (madrugada)
Isabel Perides
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