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sábado, 20 de junho de 2026

A Casa à Beira-Mar

 

Dizem que a casa estava ali antes mesmo da estrada que levava até a praia.

Era uma construção antiga, voltada para o oceano, com paredes gastas pelo sal e janelas que pareciam observar o horizonte há séculos.

Quando herdou a casa, a nova proprietária acreditou que encontraria apenas silêncio.

Estava enganada.

Logo descobriu que não morava sozinha.

Na biblioteca vivia uma mulher cercada por livros. Lia sem descanso. Fazia anotações, construía perguntas e parecia acreditar que todas as respostas do mundo poderiam ser encontradas em uma página ainda não lida.

Em outro cômodo morava uma senhora de roupas escuras e olhar severo. Passava os dias organizando documentos, classificando argumentos e verificando se as paredes continuavam firmes.

No andar superior vivia uma mulher silenciosa. Recebia visitantes cansados, escutava histórias e parecia compreender dores que ninguém mais conseguia enxergar.

No sótão morava uma escritora. Era a única que parecia verdadeiramente feliz. Escrevia cartas, histórias e memórias para pessoas que talvez jamais encontrasse.

Durante algum tempo, a proprietária acreditou que aquelas mulheres apenas dividiam a mesma casa.

Mas estava errada.

Cada uma desejava governá-la.

A mulher dos livros acreditava que a casa deveria ser conduzida pelo conhecimento.

A senhora dos documentos defendia a ordem, as regras e a segurança.

A mulher silenciosa sustentava que nada era mais importante do que compreender o sofrimento humano.

A escritora insistia que uma vida sem imaginação transformava qualquer casa em prisão.

As discussões tornaram-se frequentes.

Quem ocuparia o salão principal?

Quem tomaria as decisões?

Quem teria a última palavra?

A proprietária observava tudo em silêncio.

Quanto mais tentava escolher uma delas, mais a casa parecia dividir-se.

Corredores tornavam-se escuros.

Portas permaneciam fechadas.

O mar parecia distante.

Foi então que a tempestade chegou.

O vento atravessou as janelas.

Os retratos caíram das paredes.

Velhas portas se abriram.

E, no fundo de um corredor esquecido, surgiu um quarto que ninguém visitava havia muito tempo.

Sentada diante de uma janela voltada para o mar, havia uma jovem.

Nenhuma das outras moradoras falava dela.

Nenhuma parecia notar sua existência.

— Quem é você? — perguntou a proprietária.

A jovem demorou a responder.

— Eu também moro aqui.

— Por que nunca saiu deste quarto?

Ela sorriu.

— Porque sempre havia alguém disposto a viver por mim.

A mulher dos livros explicava.

A dos documentos decidia.

A escritora transformava tudo em histórias.

A mulher silenciosa compreendia tudo.

Ela voltou o olhar para o oceano.

— Mas ninguém queria apenas sentir.

A proprietária permaneceu ao seu lado.

Nenhuma das duas falou por muito tempo.

Ouviam apenas o som das ondas.

Quando retornaram ao salão principal, encontraram as outras moradoras em silêncio.

Pela primeira vez ninguém discutia.

Pela primeira vez ninguém tentava ocupar o lugar das demais.

A mulher dos livros continuava estudando.

A senhora dos documentos continuava cuidando da estrutura da casa.

A mulher silenciosa continuava escutando.

A escritora continuava escrevendo.

Mas algo havia mudado.

Nenhuma delas desejava mais governar sozinha.

Foi então que a proprietária compreendeu o segredo da casa.

Durante muito tempo acreditara que a paz chegaria quando uma das moradoras finalmente vencesse as outras.

Agora entendia o contrário.

A casa adoecia sempre que uma delas tentava ocupar todos os cômodos.

A casa florescia quando cada uma encontrava o seu lugar.

Naquele instante lembrou-se de uma antiga história sobre uma cidade governada por homens que discutiam quem deveria ocupar o poder. Durante anos acreditara que aquela história falava apenas de política. Só agora percebia que talvez falasse também da alma.

Talvez cada moradora carregasse dentro de si o desejo de governar a casa inteira.

Talvez a verdadeira justiça não estivesse na vitória de uma delas, mas na harmonia do conjunto.

Enquanto observava as mulheres caminharem pelos corredores, teve a estranha sensação de que a casa lhe ensinava uma lição muito antiga: uma parte não se torna mais forte quando domina todas as outras. Torna-se apenas mais solitária.

Então voltou os olhos para o quarto do fundo.

A jovem continuava sentada diante da janela voltada para o mar.

Durante anos permanecera esquecida.

Não porque estivesse ausente.

Mas porque ninguém havia aprendido a escutá-la.

A proprietária sorriu.

Talvez as portas fechadas nunca tivessem sido o verdadeiro problema.

Talvez o problema fosse acreditar que aquilo que permanecia escondido deixava de existir.

O vento atravessou a casa.

As ondas quebraram contra as pedras.

Pela primeira vez ela compreendeu que algumas vozes não desaparecem quando são silenciadas. Apenas encontram outros caminhos para retornar.

Sorriu novamente.

Lá fora o oceano permanecia imenso.

Dentro da casa também.

E, pela primeira vez, nenhum dos dois parecia dividido.


Nota ao leitor

Este conto dialoga livremente com duas tradições filosóficas e psicanalíticas.

A primeira encontra-se nos Livros IX e X da República, de Platão. Neles, a questão central deixa de ser apenas quem governa a cidade e passa a ser quem governa a alma. A casa e suas moradoras representam simbolicamente essa disputa e sua possível reconciliação.

A segunda encontra-se nas Cinco Lições de Psicanálise, de Sigmund Freud. A jovem esquecida no quarto voltado para o mar, assim como as portas fechadas da casa, remete à ideia de que aquilo que é afastado da consciência não desaparece, mas continua a habitar a vida psíquica e busca formas de retornar.

A mulher dos livros, a guardiã dos documentos, a mulher silenciosa, a escritora e a jovem diante do mar não representam pessoas específicas. São imagens literárias inspiradas nas múltiplas vozes que habitam uma mesma existência.

A casa à beira-mar pode ser lida simultaneamente como uma alegoria da alma platônica e como uma metáfora do inconsciente freudiano.

A disputa pelo governo da casa ecoa a disputa das partes da alma descrita por Platão. Já o quarto esquecido recorda a descoberta freudiana de que aquilo que é silenciado não desaparece: permanece vivo, aguardando o momento de ser escutado.

Talvez por isso a história não termine com a vitória de uma moradora sobre as outras.

Ela termina com algo mais difícil.

A convivência.


Isabel Perides 

São Paulo, 19 de junho de 2026. 



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