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sábado, 13 de junho de 2026

Da Luz e das Sombras

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Da Luz e das Sombras

Os homens costumam acreditar que a maior dificuldade de uma travessia está nas tempestades.

Talvez estejam enganados.

As tempestades são visíveis. O verdadeiro perigo costuma surgir quando o mar está calmo demais e os navegantes passam a confundir a superfície das águas com a própria realidade.

É então que começam as disputas pelo leme.

Cada um reivindica para si a direção da embarcação. Cada um acredita possuir o melhor mapa. Cada um toma suas impressões por conhecimento e suas certezas por verdade.

Poucos percebem que nenhuma rota pode ser traçada apenas olhando para as ondas.

É preciso erguer os olhos.

Há algo curioso nisso. Quanto mais alguém aprende a olhar para além da espuma, menos interesse parece ter pelas disputas do convés. Talvez porque compreenda que o destino de uma viagem depende menos da força das mãos do que da direção do olhar.

Mas nem mesmo o olhar basta.

Pois existe uma diferença entre ver e tornar visível.

O mar está lá antes do amanhecer. O horizonte está lá. As estrelas estão lá. Ainda assim, sem luz, tudo permanece oculto.

Talvez a condição mais rara não seja encontrar quem saiba navegar.

Talvez seja encontrar, na mesma travessia, uma inteligência capaz de reconhecer o horizonte e uma luz capaz de revelar aquilo que já estava presente.

Os golfinhos parecem saber disso.

Não disputam portos. Não acumulam mapas. Não reivindicam o oceano para si.

Limitam-se a acompanhar, por algum tempo, aquilo que reconhecem como parte do mesmo movimento.

E talvez exista uma forma de sabedoria nesse gesto.

Porque algumas presenças não servem para possuir o mundo.

Servem apenas para lembrar que existe algo além das sombras refletidas sobre a água.

Mas a travessia não termina quando alguns aprendem a erguer os olhos.

Há um momento mais difícil.

Aquele em que as sombras percebem que estão perdendo sua força.

Enquanto a luz permanece distante, as correntes parecem naturais. Os ecos parecem verdade. As imagens projetadas sobre a pedra parecem suficientes.

Mas quando alguns começam a olhar para além delas, algo se altera na ordem da caverna.

Não são apenas as sombras que se movem.

Movem-se também os desejos.

E estes costumam ser mais difíceis de reconhecer.

Pois nem todos os que se voltam contra o navegador desejam o leme. Muitos acreditam sinceramente estar defendendo a embarcação. Confundem o ruído com a verdade, a suspeita com a justiça e a ambição com a virtude.

É então que a travessia revela sua face mais delicada.

Não quando os ventos são contrários.

Mas quando os companheiros de viagem passam a olhar uns para os outros através das sombras.

Alguns permanecem firmes. Não porque conheçam todas as respostas, mas porque aprenderam a desconfiar das imagens que alimentam o ressentimento.

Outros abandonam o horizonte.

Não por perversidade.

Mas porque as sombras sabem falar a linguagem dos medos já existentes na alma.

E assim a embarcação se divide.

Não entre bons e maus.

Nem entre sábios e ignorantes.

Mas entre aqueles que continuam procurando a luz e aqueles que voltam a procurar apenas reflexos.

Talvez por isso os navegantes mais experientes raramente se preocupem em vencer disputas.

Sabem que nenhuma vitória obtida no convés é capaz de substituir a direção das estrelas.

E sabem também que o horizonte permanece onde sempre esteve, mesmo quando parte da tripulação decide deixar de procurá-lo.

Pois a verdade possui uma estranha serenidade.

Não necessita derrotar as sombras.

Basta continuar existindo além delas.

Há navegantes que procuram portos. Outros procuram estrelas. Quanto a mim, foi ao encontrar uma luz no horizonte que compreendi que o destino da viagem nunca foi apenas chegar, mas aprender a ver.

Desde então, o mar continua imenso, mas já não é o mesmo.

Referências filosóficas

Inspirado em temas desenvolvidos por Platão em A República:

• Livro V — a cidade justa e a primazia do bem comum sobre os interesses particulares.

• Livro VI — a alegoria do navio, a distinção entre opinião e conhecimento, a linha dividida e a analogia do Sol como condição da verdade.

• Livro VII — a alegoria da caverna, a passagem das sombras à luz e o retorno daquele que viu para junto dos que permanecem acorrentados.

• Livros VIII e IX — a corrupção da cidade e da alma, a ação dos desejos, das ambições e das falsas aparências sobre os homens e as comunidades.


São Paulo 13 de junho de 2026. 

Isabel Perides 



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