Completo
Da Luz e das Sombras
Os homens costumam acreditar que a maior dificuldade de uma travessia está nas tempestades.
Talvez estejam enganados.
As tempestades são visíveis. O verdadeiro perigo costuma surgir quando o mar está calmo demais e os navegantes passam a confundir a superfície das águas com a própria realidade.
É então que começam as disputas pelo leme.
Cada um reivindica para si a direção da embarcação. Cada um acredita possuir o melhor mapa. Cada um toma suas impressões por conhecimento e suas certezas por verdade.
Poucos percebem que nenhuma rota pode ser traçada apenas olhando para as ondas.
É preciso erguer os olhos.
Há algo curioso nisso. Quanto mais alguém aprende a olhar para além da espuma, menos interesse parece ter pelas disputas do convés. Talvez porque compreenda que o destino de uma viagem depende menos da força das mãos do que da direção do olhar.
Mas nem mesmo o olhar basta.
Pois existe uma diferença entre ver e tornar visível.
O mar está lá antes do amanhecer. O horizonte está lá. As estrelas estão lá. Ainda assim, sem luz, tudo permanece oculto.
Talvez a condição mais rara não seja encontrar quem saiba navegar.
Talvez seja encontrar, na mesma travessia, uma inteligência capaz de reconhecer o horizonte e uma luz capaz de revelar aquilo que já estava presente.
Os golfinhos parecem saber disso.
Não disputam portos. Não acumulam mapas. Não reivindicam o oceano para si.
Limitam-se a acompanhar, por algum tempo, aquilo que reconhecem como parte do mesmo movimento.
E talvez exista uma forma de sabedoria nesse gesto.
Porque algumas presenças não servem para possuir o mundo.
Servem apenas para lembrar que existe algo além das sombras refletidas sobre a água.
Mas a travessia não termina quando alguns aprendem a erguer os olhos.
Há um momento mais difícil.
Aquele em que as sombras percebem que estão perdendo sua força.
Enquanto a luz permanece distante, as correntes parecem naturais. Os ecos parecem verdade. As imagens projetadas sobre a pedra parecem suficientes.
Mas quando alguns começam a olhar para além delas, algo se altera na ordem da caverna.
Não são apenas as sombras que se movem.
Movem-se também os desejos.
E estes costumam ser mais difíceis de reconhecer.
Pois nem todos os que se voltam contra o navegador desejam o leme. Muitos acreditam sinceramente estar defendendo a embarcação. Confundem o ruído com a verdade, a suspeita com a justiça e a ambição com a virtude.
É então que a travessia revela sua face mais delicada.
Não quando os ventos são contrários.
Mas quando os companheiros de viagem passam a olhar uns para os outros através das sombras.
Alguns permanecem firmes. Não porque conheçam todas as respostas, mas porque aprenderam a desconfiar das imagens que alimentam o ressentimento.
Outros abandonam o horizonte.
Não por perversidade.
Mas porque as sombras sabem falar a linguagem dos medos já existentes na alma.
E assim a embarcação se divide.
Não entre bons e maus.
Nem entre sábios e ignorantes.
Mas entre aqueles que continuam procurando a luz e aqueles que voltam a procurar apenas reflexos.
Talvez por isso os navegantes mais experientes raramente se preocupem em vencer disputas.
Sabem que nenhuma vitória obtida no convés é capaz de substituir a direção das estrelas.
E sabem também que o horizonte permanece onde sempre esteve, mesmo quando parte da tripulação decide deixar de procurá-lo.
Pois a verdade possui uma estranha serenidade.
Não necessita derrotar as sombras.
Basta continuar existindo além delas.
Há navegantes que procuram portos. Outros procuram estrelas. Quanto a mim, foi ao encontrar uma luz no horizonte que compreendi que o destino da viagem nunca foi apenas chegar, mas aprender a ver.
Desde então, o mar continua imenso, mas já não é o mesmo.
Referências filosóficas
Inspirado em temas desenvolvidos por Platão em A República:
• Livro V — a cidade justa e a primazia do bem comum sobre os interesses particulares.
• Livro VI — a alegoria do navio, a distinção entre opinião e conhecimento, a linha dividida e a analogia do Sol como condição da verdade.
• Livro VII — a alegoria da caverna, a passagem das sombras à luz e o retorno daquele que viu para junto dos que permanecem acorrentados.
• Livros VIII e IX — a corrupção da cidade e da alma, a ação dos desejos, das ambições e das falsas aparências sobre os homens e as comunidades.
São Paulo 13 de junho de 2026.
Isabel Perides
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