A Geografia do Invisível
Há viagens que começam com um passo. Outras começam quando, inesperadamente, nos descobrimos em pleno voo.
Do alto, tudo parece harmonioso. Rios encontram o mar, montanhas sustentam o horizonte e a paisagem oferece a ilusão de que o mundo pode ser compreendido apenas por aquilo que se vê.
Até que a paisagem muda.
A água deixa de correr. A terra transforma-se em pântano. A luz perde intensidade. As árvores assumem formas retorcidas e, sob a superfície imóvel, criaturas gigantescas permanecem quase invisíveis, como se aguardassem, há muito tempo, a passagem de alguém. Não nasceram naquele instante. Sempre estiveram ali.
É então que o voo vacila.
Há uma diferença silenciosa entre cair e perder altitude. Quem cai deixa de contemplar a paisagem. Quem apenas perde altura ainda pode reencontrar o céu.
Talvez toda grande travessia dependa justamente disso.
Nem da fuga.
Nem do mergulho.
Mas da delicada distância que permite reconhecer a existência das profundezas sem desaparecer dentro delas.
Depois, quase sempre, existe um lugar de passagem.
Um lugar onde ninguém permanece.
Ali aprendemos que algumas perguntas são mais importantes do que as respostas.
E, quando tudo parece ter terminado, surge uma escada.
Ela não conduz ao futuro.
Conduz ao lugar onde, um dia, aprendemos a olhar o mundo pela primeira vez.
Talvez esse seja o paradoxo das grandes viagens.
Partimos acreditando que iremos descobrir territórios desconhecidos.
No fim, encontramos antigas paisagens esperando, pacientemente, que retornemos a elas com olhos novos.
Porque há lugares que só revelam seu verdadeiro significado muitos anos depois da primeira visita.
Talvez o invisível possua sua própria geografia.
Uma geografia sem mapas, sem fronteiras e sem coordenadas, onde as paisagens não se organizam pelo espaço, mas pela memória, pelos afetos e pelo tempo. Quanto mais acreditamos conhecê-la, mais ela se expande diante de nós. E talvez sua maior beleza resida justamente nisso: não nos oferece um destino final, mas a possibilidade de retornar inúmeras vezes ao mesmo lugar e, ainda assim, encontrar uma paisagem completamente diferente.
Talvez seja por isso que algumas viagens nunca terminem.
Elas apenas continuam em silêncio, dentro de nós.
Talvez ...
Nota ao leitor
Este ensaio nasceu de um sonho que tive. Não é a narrativa literal desse sonho, mas uma elaboração literária inspirada pelas reflexões que ele despertou em mim durante meus estudos de psicanálise.
A inspiração para este texto encontra-se em A Interpretação dos Sonhos, de Sigmund Freud, obra em que o autor propõe que os sonhos constituem uma das principais vias de acesso ao inconsciente. Contudo, Freud também nos ensina que não existem interpretações universais nem símbolos com significados fixos. Cada sonho deve ser compreendido à luz da história singular de quem sonha e das associações que esse próprio sujeito constrói.
Assim, este texto não pretende interpretar sonhos, mas refletir, por meio da linguagem literária, sobre as paisagens invisíveis que habitam a experiência humana. Nasceu de uma viagem interior e termina exatamente como começou: como um convite. Afinal, como escreveu Fernando Pessoa, "Tudo vale a pena quando a alma não é pequena".
FREUD, Sigmund. A Interpretação dos Sonhos.
São Paulo, 05 de julho de 2026.
Isabel Perides
Quanto a mim, esta viagem já valeu a pena. Toda viagem transforma, ainda que o viajante seja o único a conhecer o caminho percorrido.
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