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quarta-feira, 24 de junho de 2026

Quando o pensar tem um preço

 

Quando o pensar tem um preço 

Há uma pergunta que atravessa a história da filosofia como um rio subterrâneo.

Por que aqueles que dedicam a vida ao pensamento tantas vezes encontram a incompreensão?

Não me refiro apenas ao erro ou à discordância. O pensamento vive delas. Refiro-me à hostilidade que surge quando alguém ousa questionar aquilo que sua época considera evidente.

Foi assim com Sócrates.

Foi assim com Boécio.

E continua sendo assim, sob novas formas, com muitos intelectuais do presente.

Imaginemos uma cena.

Não uma sala de aula, nem um tribunal, nem uma universidade.

Uma praça fora do tempo.

Ali estão Sócrates, Platão e Boécio.

Ao lado deles, senta-se um pensador contemporâneo. Seu rosto traz as marcas do cansaço. Não do cansaço físico, mas daquele que nasce quando uma pessoa percebe que suas ideias deixaram de ser discutidas para serem apenas julgadas.

Sócrates é o primeiro a falar.

— Dize-me, amigo, por que estás abatido?

O homem responde:

— Porque transformaram minhas ideias em caricaturas. Porque muitos falam sobre mim sem terem me lido. Porque aquilo que tentei construir com anos de estudo tornou-se motivo de suspeita.

Sócrates permanece em silêncio por alguns instantes.

Depois pergunta:

— E a verdade mudou por causa disso?

O homem hesita.

— Não.

— Então talvez tua dor não esteja na verdade, mas na expectativa de reconhecimento.

Platão observa a conversa.

Foi ele quem assistiu à condenação de seu mestre pela cidade que deveria tê-lo protegido.

Ele sabe que a injustiça nem sempre nasce da maldade. Muitas vezes nasce da incapacidade de compreender aquilo que desafia as crenças estabelecidas.

— As cidades — diz Platão — raramente perseguem aquilo que já compreendem. O conflito surge quando alguém obriga uma época a olhar para si mesma.

O homem abaixa a cabeça.

Talvez reconheça naquela frase algo de sua própria experiência.

Então uma terceira voz se faz ouvir.

É Boécio.

Entre os três, talvez seja quem melhor compreenda a dor da perda.

Foi respeitado.

Foi poderoso.

Foi ouvido.

Depois foi acusado, preso e condenado.

Foi justamente quando tudo lhe foi retirado que escreveu uma das obras mais belas da tradição filosófica: A Consolação da Filosofia.

Boécio olha para o homem e pergunta:

— O que exatamente te foi tirado?

— A tranquilidade.

— E onde ela estava?

— No meu trabalho. No reconhecimento. Na possibilidade de ser ouvido.

Boécio sorri com uma tristeza serena.

— Então tua tranquilidade estava apoiada na Fortuna.

A palavra paira no ar.

Fortuna.

A antiga senhora que distribui favores sem jamais prometer permanência.

Hoje oferece prestígio.

Amanhã oferece silêncio.

Hoje entrega aplausos.

Amanhã entrega esquecimento.

Boécio continua:

— O erro não está em receber os bens da Fortuna. O erro está em acreditar que eles pertencem a nós.

Sócrates concorda.

Platão também.

Porque os três sabem algo que cada geração precisa redescobrir.

O reconhecimento é valioso.

Mas não é o fundamento da verdade.

A reputação é importante.

Mas não é o fundamento da justiça.

Os aplausos podem confirmar uma ideia.

Mas jamais a tornam verdadeira.

O homem permanece em silêncio.

Talvez pela primeira vez perceba que sua dor não nasce apenas da injustiça sofrida.

Nasce também da descoberta de que o pensamento possui um preço.

Há épocas em que esse preço é a prisão.

Há épocas em que é o exílio.

Há épocas em que é a difamação.

Há épocas em que é a solidão.

Nenhuma delas é agradável.

Mas todas acompanham aqueles que insistem em fazer perguntas difíceis.

A praça torna-se silenciosa.

O sol começa a se pôr.

Então o homem faz a última pergunta.

— Vale a pena continuar?

Os três filósofos trocam um olhar.

Sócrates responde primeiro:

— Vale a pena viver de acordo com aquilo que reconheces como verdadeiro.

Platão completa:

— Vale a pena porque uma alma em paz consigo mesma possui mais valor do que qualquer triunfo passageiro.

Por fim, Boécio conclui:

— Vale a pena porque a Fortuna pode tirar muitas coisas. Mas não possui poder suficiente para arrancar de um homem aquilo que ele realmente é.

A noite chega.

A praça desaparece.

Os filósofos partem.

Mas suas palavras permanecem.

Talvez porque a história do pensamento nunca tenha sido a história daqueles que foram imediatamente compreendidos.

Talvez porque as ideias mais importantes quase sempre tenham começado como incômodos.

E talvez porque cada época, mais cedo ou mais tarde, seja obrigada a reencontrar aqueles que antes rejeitou.

Talvez ...

Nota ao leitor

Este texto foi inspirado pela leitura de A Consolação da Filosofia, de Boécio, e pelos diálogos platônicos que narram a vida e a condenação de Sócrates. Mais do que refletir sobre personagens históricos, procura pensar uma experiência recorrente da vida intelectual: a tensão entre a busca da verdade e o desejo humano de reconhecimento. Entre Atenas, a prisão de Boécio e os debates do presente, permanece a mesma questão: o valor de uma ideia depende da aprovação de seu tempo ou da fidelidade à verdade que procura expressar?



São Paulo, 23 de junho de 2026. 

Isabel Perides 

Alguns procuram um porto. Outros aprendem a amar o mar.

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