Sócrates e a Cidade Fragmentada
Quando pensamos em política, costumamos imaginar governos,
leis, eleições ou disputas pelo poder. Mas a política clássica nasceu de uma
pergunta mais profunda. Antes de perguntar quem deve governar, os gregos
perguntaram: como é possível viver juntos?
Essa pergunta atravessa toda a vida de Sócrates.
O jovem ateniense que caminhava pelas ruas da cidade não
começou investigando constituições ou formas de governo. Como muitos de sua
época, voltou os olhos para os grandes mistérios da natureza. Escutou os ecos
de Tales, que procurava na água o princípio de todas as coisas. Conheceu as
teses de Anaxímenes, que encontrava no ar a origem do mundo. Ouviu falar de
Heráclito e do eterno fluxo das coisas. E certamente tomou conhecimento de
Empédocles, que explicava o universo pelo combate permanente entre o Amor, que
une, e a Discórdia, que separa.
Sem saber, a política já estava ali.
Pois toda reflexão política nasce de uma questão anterior: o
mundo é unidade ou conflito?
Mas Sócrates operou uma mudança decisiva. Em vez de
continuar perguntando do que é feito o universo, voltou-se para os homens. A
questão deixou de ser cosmológica para tornar-se ética. O problema não era mais
compreender os astros, mas compreender a vida humana.
Contudo, a pergunta fundamental permaneceu a mesma.
O homem também é dividido.
A cidade também é dividida.
A alma também é dividida.
Talvez por isso Platão tenha colocado seu mestre no centro
de quase todos os seus diálogos. A vida de Sócrates tornou-se a própria
encenação dessa busca por unidade em um mundo fragmentado.
No Banquete, encontramos uma das expressões mais belas dessa
questão. Aristófanes narra o famoso mito dos andróginos. Segundo a lenda, os
seres humanos eram originalmente completos. Possuíam uma unidade que foi
rompida pela intervenção dos deuses. Desde então, cada metade procura
reencontrar aquilo que perdeu.
Durante séculos, esse mito foi lido como uma explicação
poética do amor. Mas Platão sugere algo mais profundo. Pela voz de Diotima,
Sócrates mostra que Eros não é apenas o desejo de uma pessoa por outra. É o
desejo de algo ausente. É o movimento da alma em direção àquilo que lhe falta.
É a busca da totalidade.
Talvez seja por isso que Eros ocupe um lugar tão importante
na filosofia platônica. Antes de ser amor romântico, Eros é o impulso que leva
o fragmentado a procurar a unidade.
A República pode ser lida a partir dessa mesma perspectiva.
Atenas encontra-se dividida por interesses, paixões e
ambições. Os cidadãos disputam poder. Os grupos entram em conflito. A cidade
perde sua harmonia.
Mas Platão não vê a origem do problema apenas nas
instituições. A desordem política nasce de uma desordem mais profunda.
A cidade fragmentada é o reflexo da alma fragmentada.
Por isso a República não começa discutindo constituições.
Começa investigando a justiça. E logo descobrimos que a cidade justa e a alma
justa obedecem ao mesmo princípio: cada parte deve ocupar seu lugar sem tentar
dominar as demais.
Razão, coragem e desejo precisam encontrar equilíbrio.
Governantes, guardiões e produtores precisam encontrar
equilíbrio.
A política torna-se, assim, uma arte da reconciliação.
A cidade justa é aquela em que a multiplicidade não destrói
a unidade.
Mas a tragédia da história de Sócrates está justamente no
fato de que sua própria cidade foi incapaz de realizar esse ideal.
Quando Atenas o leva a julgamento, vemos a fragmentação
atingir seu ponto máximo. A multidão volta-se contra aquele que passou a vida
inteira tentando despertar seus concidadãos para a reflexão. O filósofo que
buscava unir a cidade à verdade é condenado pela própria cidade.
A morte de Sócrates representa muito mais do que a execução
de um homem.
Ela simboliza o fracasso da pólis em reconciliar
conhecimento e poder, sabedoria e opinião, filosofia e política.
Atenas escolhe a divisão.
Sócrates bebe a cicuta.
Mas sua derrota transforma-se em vitória histórica.
Pois sua morte dá origem a uma das maiores aventuras
intelectuais da humanidade.
Séculos mais tarde, um médico vienense encontraria novamente
o mito do Banquete. Freud percebeu algo que ultrapassava a simples narrativa
amorosa. Para ele, o mito dos andróginos expressava uma tendência mais ampla da
própria vida. Não apenas os amantes procuram reunir-se. Toda vida parece buscar
formas de ligação, união e integração.
Aquilo que Platão chamava de Eros reaparece na psicanálise
como uma força que tende a unir o que foi separado.
Nesse ponto, filosofia e psicanálise se aproximam de maneira
surpreendente.
Ambas interrogam o mesmo problema.
Por que aquilo que está dividido procura reunir-se?
Por que a fragmentação produz sofrimento?
Por que a unidade exerce tamanho fascínio sobre o espírito
humano?
Talvez a política clássica tenha nascido precisamente dessa
inquietação.
Não da busca pelo poder.
Não da administração do Estado.
Não da elaboração de leis.
Mas da tentativa de responder a uma pergunta mais antiga e
mais difícil:
Como reunir aquilo que foi separado?
A vida de Sócrates pode ser lida inteiramente como uma
resposta a essa questão.
Ele tentou reconciliar aparência e verdade.
Tentou reconciliar conhecimento e ação.
Tentou reconciliar indivíduo e comunidade.
Tentou reconciliar a alma consigo mesma.
E tentou reconciliar a cidade com a justiça.
Talvez tenha fracassado em seu próprio tempo.
Mas a permanência de sua voz ao longo dos séculos sugere que
certas derrotas pertencem apenas ao presente.
Pois toda vez que uma sociedade se fragmenta, toda vez que a
política se reduz à disputa entre interesses inconciliáveis, toda vez que a
verdade se afasta da vida pública, a figura de Sócrates retorna para nos
lembrar que a cidade não se sustenta apenas pela força das leis.
Ela depende também da difícil arte de reconstruir aquilo que
foi dividido.
E talvez seja essa a mais profunda herança da filosofia
política clássica.
A convicção de que a justiça não nasce da eliminação das
diferenças, mas da capacidade de transformá-las em uma unidade viva.
A mesma unidade que os gregos buscaram na cidade, que Platão
buscou no Bem, que Sócrates buscou no diálogo e que, séculos depois, Freud
reencontraria sob o nome de Eros.
Talvez ...
Referências
ASSOUN, Paul-Laurent. Freud et les philosophes. Paris:
Presses Universitaires de France (PUF), 1988. Cap. II: “Freud et Platon”, p.
187-205.
FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer (1920).
FREUD, Sigmund. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade
(1905).
PLATÃO. A República.
PLATÃO. O Banquete.
PLATÃO. Apologia de Sócrates.
PLATÃO. Fédon.
Referências Indiretas:
EMPÉDOCLES. Fragmentos.
SCHOPENHAUER, Arthur. O mundo como vontade e representação.
Upanishads (referidas indiretamente por Schopenhauer e
discutidas por Assoun).
Nota ao leitor
Este texto dá continuidade à série de reflexões sobre a
filosofia política clássica iniciada com a leitura da República de Platão. Se
os textos anteriores procuraram acompanhar a construção da cidade justa e a
formação do filósofo, este ensaio retorna ao personagem que habita o centro
dessa história: Sócrates.
Ao longo dessas páginas, procurei reunir diferentes fios da
tradição filosófica os pré-socráticos, o Banquete, a República e até mesmo o
diálogo posterior entre Platão e Freud para refletir sobre uma questão que
parece atravessar toda a história do pensamento político: a tensão entre
unidade e fragmentação.
Nos próximos textos, seguiremos acompanhando os
desdobramentos dessa questão na tradição clássica, avançando para Aristóteles e
sua concepção da pólis, antes de percorrer o longo caminho que conduz a
Maquiavel, Hobbes, Locke, Rousseau e aos grandes debates da modernidade.
Se a filosofia política começou perguntando como viver
juntos, talvez sua história inteira seja apenas uma sucessão de diferentes
respostas a essa mesma pergunta.
A reflexão apresentada neste ensaio foi inspirada
especialmente pela leitura do capítulo “Freud et Platon”, de Paul-Laurent
Assoun, cuja análise das relações entre Eros, o mito do andrógino e a teoria
freudiana das pulsões permitiu a interpretação política desenvolvida nesta
série sobre a obra de Platão.
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