Seguidores

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

 

Desigualdade, Direito e a Angústia na Forma Social

Por Isabel Perides 


Este texto é o resultado de uma leitura cuidadosa, fundamentada em sua totalidade nas obras e nos apontamentos de seminários e conferências de Alysson Mascaro


A compreensão do fenômeno jurídico exige um mergulho profundo nas raízes da realidade social, partindo do princípio fundamental de que o Direito, assim como a religião, não possui uma história própria. Como demonstram as lições de Marx e Engels em A Ideologia Alemã, as formas jurídicas não evoluem por um movimento autônomo de ideias, mas são reflexos das práticas sociais e das necessidades materiais de cada época. O Direito Marítimo, por exemplo, não surgiu de uma inspiração abstrata de justiça, mas da necessidade concreta de regular o comércio marítimo, provando que a normatividade vem da prática da realidade social e das relações de produção.

Essa perspectiva exige uma ruptura epistemológica com o idealismo hegeliano. Através das 11 Teses sobre Feuerbach, Marx estabelece que o conhecimento não deve apenas interpretar o mundo, mas transformá-lo, movendo o eixo da filosofia do "Espírito" para a materialidade. Autores como Galvano della Volpe e Louis Althusser aprofundam essa ruptura ao sugerir que Marx não é apenas um "Hegel invertido", mas alguém que instituiu um novo método científico baseado na força da abstração real. Esse método permite isolar as categorias econômicas e sociais para enxergar a essência do capital por trás das aparências da circulação mercantil.

No cerne dessa estrutura está o capital, que não deve ser compreendido como uma coisa, mas como um valor em processo de valorização constante. O movimento do capitalista, busca incessantemente o mais-valor, seja de forma absoluta, através do aumento da jornada de trabalho, ou de forma relativa, por meio da tecnologia e das máquinas que aumentam a produtividade e alteram a própria percepção do tempo. Essa dinâmica leva à subsunção real do trabalho ao capital, onde o ritmo da vida e da produção é ditado pela tecnologia, gerando uma exploração que vai além do contrato formal.

O Direito, nesse contexto, surge como uma "forma social" necessária, conforme teorizado por Evguiéni Pachukanis. O capitalismo exige a figura do "sujeito de direito": indivíduos juridicamente livres e iguais que podem vender sua força de trabalho como uma mercadoria. É nesse ponto que o fetichismo da mercadoria se encontra com o fetichismo jurídico, criando a ilusão de que somos agentes plenamente autônomos, enquanto somos, na verdade, peças funcionais da acumulação de capital. O Estado, por sua vez, não é burguês apenas por quem o ocupa, mas porque sua própria forma política é desenhada para garantir a equivalência das trocas e a reprodução da sociabilidade capitalista.

Essa estrutura jurídica e econômica impacta diretamente a subjetividade humana, ponto em que o marxismo contemporâneo de autores como Alysson Mascaro e Slavoj Žižek se encontra com a psicanálise lacaniana. A ideologia atua na constituição do sujeito, criando uma identificação com a forma "vazia" do sujeito de direito que tentamos preencher através do consumo. A angústia atual, portanto, é um sintoma social; ela nasce da contradição entre a promessa de liberdade jurídica e a realidade de uma exploração técnica e temporal exaustiva. Enquanto teorias como a de Gramsci focam na hegemonia e no convencimento, a análise crítica aponta que a angústia é inerente a um sistema que exige performance constante em um horizonte de equivalência e concorrência.

A superação desse estado de angústia e exploração projeta-se no horizonte de uma sociedade onde a lógica da equivalência jurídica seja substituída pelas necessidades humanas reais. O princípio marxista de que a cada qual deve ser dado segundo sua necessidade e exigido segundo sua capacidade propõe uma nova sociabilidade, onde o desejo não seja mais mediado pela forma mercadoria. No final, entender o capital e o Direito através dessa lente crítica é reconhecer que a emancipação política é indissociável de uma nova forma de existência, livre das amarras do valor e do fetichismo que moldam o sofrimento moderno.

Isabel Perides 

(São Paulo, 07 de jan. de 2026)

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Ideal do Eu e a Forma-Sujeito

 

Ideal do Eu e a Forma-Sujeito

Por Isabel Perides 

Ao reler meus apontamentos sobre a obra de Alysson Mascaro e as bases do marxismo, uma peça do quebra-cabeça da "dialética do like" finalmente se encaixou. No meu último texto, falei sobre o vazio que meu amor me ajudou a nomear. Hoje, entendo que esse vazio é o sintoma de um conflito profundo entre quem tentamos parecer nas redes e a estrutura que nos sustenta.

Para Freud, o Mal-estar na Civilização surge da renúncia pulsional: trocamos parte da nossa liberdade e satisfação por segurança e convivência. No entanto, na era digital, essa troca foi pervertida pela "indústria da felicidade". O Ideal do Eu ... aquela instância do Superego que representa o que deveríamos ser para sermos amados ... não é mais moldado pela ética ou pela comunidade, mas pelo algoritmo.

Aqui, a psicanálise encontra o marxismo de Mascaro. Como discuti em meu trabalho anterior, a Forma de Subjetividade Jurídica no capitalismo nos constitui como sujeitos para que possamos trocar mercadorias. Nas redes, nós nos tornamos a própria mercadoria. O Ideal do Eu digital exige que sejamos produtivos, felizes e militantes esteticamente perfeitos. Quando não alcançamos essa imagem idealizada (o Eu Ideal), o resultado não é apenas frustração, mas o afundamento depressivo que mencionei anteriormente.

O mal-estar contemporâneo nasce dessa "higiene do algoritmo". Se a infraestrutura do capital (a base do prédio que muitas vezes não vemos) exige a nossa exploração, a superestrutura (as redes sociais como Aparelho Ideológico) exige o sorriso enquanto somos explorados. O "like" é o anestésico desse mal-estar; é a tentativa de suturar a ferida da nossa própria castração.

Mas, como nos ensina a teoria das Formas Sociais, não basta mudar a consciência individual se a forma política estatal e a forma mercadoria permanecem intactas. A verdadeira "hegemonia de baixo" de Gramsci exige que ocupemos esses espaços não para alimentar nosso Ideal do Eu narcisista, mas para expor as contradições da base.

A tarefa política e analítica é a mesma: atravessar a fantasia. Admitir que o mal-estar é inerente à nossa condição e que a felicidade de vitrine é uma ferramenta de controle. Precisamos resgatar o direito ao conflito, à imperfeição e ao coletivo real. Só assim deixaremos de ser "sujeitos do like" para nos tornarmos sujeitos da história.


Isabel Perides 

(São Paulo, 06 de janeiro de 2026) 

domingo, 4 de janeiro de 2026

A Imagem e o Resgate do Real

 

A Imagem e o Resgate do Real 

Por Isabel Perides 

Seguindo o rastro da minha reflexão anterior, na qual admiti que o vazio que sentia era o eco de um desejo não nomeado, percebo que a "dialética do like" representa, acima de tudo, uma prisão da identidade. Como registrei em minhas notas de aula ... para transitar da performance à práxis, é essencial compreender como o estágio do espelho lacaniano ...

Lacan nos ensina que o "eu" surge do exterior: navegamos pelo mundo com base na representação que construímos de nós mesmos, mediada pelo olhar do Outro. Nas redes sociais, o rosto refletido no espelho digital não corresponde ao que somos de fato. Trata-se de uma busca desesperada pelo Eu Ideal ... aquela imagem de perfeição que nutre o narcisismo e nos distancia da aspereza do Real.

Vivemos uma ambivalência paradoxal: hiperconectados, mas profundamente isolados. Se no século XX a histeria marcava a subjetividade... no século XXI, a depressão emerge como o sintoma predominante, um verdadeiro afundamento do sujeito. Como observa o Prof. Pedro de Santi, a "indústria da felicidade" opera como uma fábrica de depressão: a promessa incessante de perfeição engendra um Superego de autoexigência implacável. "Morremos de "saudade de quem sente culpa", imersos em uma selva de prazer imediato (o Trieb freudiano) e indiferença pelo entorno." (Santi)

A verdadeira política demanda o que a clínica psicanalítica propõe: o autoconhecimento por meio da interlocução. "O olho não se vê a si próprio"; necessitamos do Outro para acessar nossos pontos cegos. O "like" encarna a recusa da castração simbólica; é a ilusão de completude via imagem. No entanto, aceitar nossa castração ... reconhecer nossa imperfeição inerente ... é o que nos liberta do narcisismo e nos projeta efetivamente no mundo.

A ocupação dos Aparelhos Ideológicos do Estado, que defendi anteriormente, só se tornará efetiva se acompanhada por essa revolução subjetiva. Precisamos cultivar uma saúde mental ancorada na "capacidade de estar só" (Winnicott), edificando um mundo interno independente da validação externa da vitrine digital.

A resistência inicia-se ao reconhecermos que a terapia não visa dissolver o sujeito, mas sim apropriar-se de sua própria história. Fora do "story performático" e dentro da história material.

Para uma próxima reflexão seguirei abordando o superego, o algoritmo e a depressão ... conectando o controle algorítmico das plataformas à internalização de padrões inatingíveis, exacerbando o ciclo de autoexigência e esgotamento.

Isabel Perides

(São Paulo, 04 de jan. de 2026.)

Sabotando o Espelho: A Dialética do Like e a Ruptura Fantasmática

Sabotando o Espelho: 

A Dialética do Like e a Ruptura Fantasmática 

Por Isabel Perides 


No texto anterior, diagnostiquei a política reduzida à poiésis: o "crítico" que fabrica uma identidade para consumo alheio. Mas a madrugada tem seus próprios métodos de cobrança. Em conversa com meu amor, no silêncio que sucede o barulho das notificações, ele me ensinou o que estava faltando: o enigma do vazio que eu sentia era apenas o eco de um desejo meu que eu ainda não tinha nomeado. Percebi que minha crítica ao narcisismo ainda era, em parte, um refúgio. Se o "narciso" é o sintoma, qual é a estrutura? Se a rede é um tribunal de conveniência, podemos simplesmente nos retirar dela?

A resposta passa por compreender, com Althusser, que as redes não são apenas palcos de vaidade, mas o Aparelho Ideológico de Estado central da nossa era. O ato de postar é a materialização de uma disciplina internalizada: o Estado não precisa nos vigiar quando nós mesmos nos submetemos à "disciplina da vitrine". Ignorar esse aparelho sob o pretexto de um purismo ético seria entregar o monopólio da consciência das massas ao capital.

Aqui, a psicanálise se torna uma ferramenta de combate. Para que a disputa de hegemonia ocorra, é preciso que o sujeito saia do estado de "ideologia cínica" ... aquele em que você sabe que é uma farsa, mas age como se não soubesse. A consciência política real exige um "atravessamento da fantasia": reconhecer que o algoritmo sequestra seu desejo de transformação e o devolve em forma de narcisismo. Sem essa percepção, qualquer disputa vira performance ... como o ativista que coleta likes enquanto ignora a exploração material que sustenta sua própria conexão.

Como alerta Mascaro, a verdadeira política exige o abandono das "redomas morais". A hegemonia da massas exige a coragem de ocupar as trincheiras ideológicas digitais sem sucumbir à sua higiene estética. A política real exige o corpo, o conflito e a disposição para abraçar o povo em suas contradições.

A dialética se fecha assim: usamos o aparelho para despertar a consciência de classe, sabendo que o "like" é uma armadilha. O objetivo não é alimentar o Narciso, mas sabotar o espelho para que as massas enxerguem a realidade material que o filtro insiste em esconder.

Mascaro nos convida para um despertar além das telas

E se, em vez de mais um like, experimentássemos o desconforto da práxis real? Só assim, fora da vitrine, construiremos uma consciência que não se dissolve em algoritmos.

O que você fará hoje para sabotar o espelho?


Isabel Perides 

(São Paulo, 04 de jan. de 2026) 

sábado, 3 de janeiro de 2026

A dialética do like: narcisismo e falsa consciência


A dialética do like: narcisismo e falsa consciência

Por Isabel Perides 

O paradoxo é a marca da nossa era: a frase revolucionária, postada com filtro, serve menos à transformação social e mais à colheita de curtidas de quem mal se detém na leitura. A psicanálise tem um nome para isso: é o narciso se fantasiando de crítico. O sujeito acredita (sinceramente) estar em posição de ruptura, mas está integrado na mesma lógica de validação que diz não gostar. Essa patologia não é apenas individual ... ela é o resultado de uma erosão histórica do fazer político.

Do Espaço Público à Fabricação de Imagens

Para compreender esse fenômeno, precisamos retornar à história do pensamento político. Na tradição clássica, Aristóteles definia a política como práxis, uma ação coletiva realizada na ágora, que tem seu fim em si mesma. A política era o exercício do corpo e da voz no mundo comum.

A modernidade, de Hobbes a Rousseau, deslocou o foco para o contrato social e a legitimidade das instituições, mas ainda preservava a ideia de um cidadão atuante. O que vemos hoje é o colapso dessa trajetória: a política foi reduzida à poiesis. O crítico  não atua politicamente, ele fabrica uma identidade política para consumo alheio. Disse Debord, vivemos na Sociedade do Espetáculo, onde o capital atingiu tal grau de acumulação que se tornou imagem. A crítica ao capitalismo, sob um algoritmo de engajamento, nada mais é do que a própria mercadoria. 

A Indústria Cultural e a Falsa Consciência

Essa dinâmica a "falsa consciência": uma percepção da realidade que, embora se pretenda crítica, serve apenas para rearrumar a superfície sem alterar a essência (Lukács). A crítica foi absorvida pela Indústria Cultural. (Adorno e Horkheimer ... Escola de Frankfurt)

A contestação tornou-se um item de prateleira, um ornamento que valida a sensibilidade do usuário sem ameaçar o poder real. É a crítica como mercadoria: você consome, você compartilha, você se sente parte de uma vanguarda. Pasolini, crítico feroz da homologação cultural, veria nessa "rebeldia de story" a forma mais insidiosa de conformismo burguês.

 A Ideologia Cínica e o Aparelho Interno

O ato de postar é a materialização do que Althusser chamaria de Aparelho Ideológico de Estado internalizado. O Estado não precisa nos vigiar quando nós mesmos nos submetemos à disciplina da vitrine digital. Caímos na ideologia cínica: sabemos que é uma farsa, sabemos que o engajamento é vazio, mas continuamos agindo como se fosse real. É o conhecimento crítico a serviço da prática alienada (Žižek). 

Da Performance à Práxis Material

Como sair disso? Gramsci apontava o caminho através da hegemonia "de baixo": a política se faz na construção orgânica, na mesa do bar, no abraço coletivo e no olho no olho, e não na vitrine algorítmica. Mas essa ida à realidade material saindo do gabinete catedrático exige um preço que a estética do feed se recusa a pagar.

Como bem sinaliza a crítica contemporânea de Mascaro, a verdadeira política exige o abandono das "redomas morais" e do policiamento estéril das bolhas digitais. Se a revolução é transformação real, ela é ontologicamente incompatível com a higiene do algoritmo. Ela exige o que o filtro esconde: a crueza do corpo no espaço público, o risco do conflito real e a coragem de abraçar o povo em suas contradições, ainda que isso signifique o "cancelamento" pelas mãos do capital e de seus tribunais de conveniência.

Pasolini via na realidade a única resistência contra o consumismo, o caminho para uma política madura exige o abandono da performance. A transformação real é antiestética. 

Rompendo com o purismo performático, a autêntica práxis não teme o erro ou o julgamento da moralidade liberal ... ela teme a irrelevância da imagem sem substância. A verdadeira ruptura não é para ser vista ou aplaudida ... é para ser vivida! Fora do story performático e dentro da história material ... onde o corpo se suja, a alma se fortalece, os inimigos se revelam, os camaradas se amparam e a política ...  acontece! 

Isabel Perides 

(03 de jan. de 2026) 

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Cartografias do Self

Cartografias do Self 

Organizando as gavetas para a entrada de um novo ano! 

Por Isabel Perides

Esta reflexão nasceu de um momento de síntese em uma análise de grupo. Ao ser questionada sobre qual havia sido o meu percurso, minha psicanalista ouviu atentamente e resumiu a minha trajetória e concluiu: "Interessante... o Direito como o pai castrador; a Geografia como o mundo e suas cartografias, onde você saiu em busca de si; e, finalmente, a psicanálise como o retorno para si". A partir dela, comecei a organizar as gavetas da alma para o início de uma nova jornada que se aproxima.

O meu caminho intelectual tem sido, portanto, um percurso multifacetado, onde disciplinas aparentemente díspares se entrelaçam como camadas de um mapa. O Direito, minha formação inicial, materializou exatamente esse universo da lei como uma estrutura paterna e impositiva. Ali, encontrei o Estado com suas normas rígidas ... um aparato de controle social que, sob a lente marxista, ecoa as relações de poder e alienação descritas por Marcuse e Althusser. Naquele cenário, a repressão não era mera abstração, mas uma força que moldava meu olhar, suprimindo desejos em nome da ordem produtiva.

A Geografia chegou em meu caminho como um convite ao oposto: a saída para o mundo. Foi uma exploração dos mapas, da terra como mãe afetuosa e acolhedora, repleta de horizontes infinitos. Foi uma viagem real, cruzando fronteiras físicas que, confesso, me assustavam. Traçar rotas por continentes e culturas propiciou, no cerne, essa odisseia interna em busca de mim mesma, onde o espaço geográfico se torna espelho (e não palco) da experiência humana. Milton Santos e David Harvey me ajudaram a compreender que essa exploração não era apenas física, mas uma resistência frente à totalização do capital que tenta alienar o indivíduo de sua raiz territorial.

Agora, como o "retorno para si" profetizado na análise, a psicanálise chega e me convida a um mergulho profundo no território invisível do interior. As estruturas freudianas ... o Id, o Ego e o Superego ... revelam os conflitos psíquicos como verdadeiros mapas do eu, povoados por abismos e pontes. Essa cartografia interna não é estática; é dinâmica e marcada por tensões que, como Wilhelm Reich bem pontuou, integram o marxismo para mostrar como as estruturas de poder externas se infiltram em nosso íntimo.

A lei externa do Direito confronta-se com o Id; a busca por mapas na Geografia desdobra-se na navegação do Ego. A psicanálise, por fim, oferece as ferramentas para reconciliar esses elementos. Com Fromm e Žižek, compreendi que a autorrealização surge da dialética entre desejo e estrutura. Assim, minha jornada não é linear, mas um palimpsesto de camadas que se sobrepõem em uma busca eterna pelo eu integral.

Isabel Perides (25 de dezembro de 2025)

sábado, 20 de dezembro de 2025

O amor entre a falta e a ideologia

 

 O amor entre a falta e a ideologia 

Isabel Perides

 

O amor contemporâneo é um território de disputa entre o desejo subjetivo e a imposição ideológica. Frequentemente, o que chamamos de "amor" é uma sintetize de fantasias infantis e construções sociais que servem para maquiar uma verdade fundamental da condição humana: a incompletude. Este texto busca refletir como a ideologia molda nossas expectativas românticas e como a psicanálise e o pensamento crítico  oferecem caminhos para uma vivência amorosa mais autêntica e menos performática.

Para Jacques Lacan, o amor é estruturado sobre a "falta". O sujeito, ao amar, não oferece ao outro uma completude, mas sim a sua própria carência. A frase "amar é dar o que não se tem a alguém que não o quer" resume o desencontro inerente ao laço amoroso. O amor que oferecemos nunca é exatamente o que o outro espera receber, pois ambos os sujeitos estão presos em suas próprias fantasias inconscientes. A fantasia não é uma mentira, a fantasia é a maneira pela qual enxergamos o outro. Ela é perigosa quando se torna uma uma lente fixa e que limita a alteridade do parceiro às nossas necessidades de validação.

Na filosofia, Marx e Engels e pensadores da Escola de Frankfurt, entendem que o sentimento  é moldado pela base econômica da sociedade. Friedrich Engels aponta que o modelo de amor romântico burguês nasceu para garantir a transmissão de herança e o controle dos corpos. O amor, sob o capital, tende materializar a posse. Na lógica capitalista, transformamos o parceiro em um objeto de consumo. Esperamos um retorno sobre o investimento afetivo, e a frustração surge quando o outro não cumpre sua a tarefa de nos completar ou nos validar socialmente. A ideologia do romantismo funciona como o fetiche da mercadoria: ela oculta as relações reais de poder e fantasia o cotidiano com um misto de destino e magia. O ponto alto da reflexão é o desafio de desvincular o amor da aprovação social: o relacionamento precisa ser performado para ser considerado real?

Muitas vezes, deixamos de vivenciar a plenitude de uma relação em sua beleza crua e cotidiana porque ela não se encaixa nos padrões estéticos ou ideológicos da conhecida e vendida pela cultura. O desejo de validação externa é, no fundo, um desejo de que o Grande Outro, nas figuras representadas pela sociedade,  nos diga que somos "normais" e "bem-sucedidos" em todos os campos da nossa existência. 

Não é raro observar indivíduos de alta capacidade intelectual que, embora compreendam as complexidades das estruturas sociais, permanecem analfabetos emocionais em suas vidas privadas. Isso ocorre porque a intelectualização pode servir como uma defesa contra a vulnerabilidade da "falta". Filosofar sobre sobre a própria relação é um exercício de entrega e reconhecimento da própria impotência.

A libertação não reside na destruição da fantasia, o ser humano necessita de simbolismo para desejar. Em minha experiência pessoal pude confirmar que atravessar a fantasia significa: Aceitar que o outro não veio para nos completar, e sim para caminhar ao lado de nossa solidão. Desconstruir a necessidade de validação e reconhecimento externo e vivenciar a alegria e a felicidade  do encontro. Reconhecer que o amor é um exercício diário de descolonização, retirando-o da esfera da posse e devolvendo-o à esfera da liberdade. 

Ao abrirmos mão das caixinhas ideológicas, permitimos que o amor se materialize em formas mais amplas, generosas e, finalmente, reais.


Isabel Perides 

(20 de dezembro de 2025)