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sábado, 21 de fevereiro de 2026

Paris, Porta Entreaberta

 Paris, Porta Entreaberta

Por Isabel Perides 

Depois de Havana, Paris parecia inevitável.

Se em Havana falávamos alto, com rum e fumaça atravessando as ideias, agora o ar é outro. É inverno. A cidade está cinza. A conversa é sussurrada.

Estamos na Rue de Lille.

O consultório é discreto. A porta  permanece entreaberta ...
Não o suficiente para ouvir tudo.
Mas o suficiente para nunca esquecer que algo está sendo dito.

Na sala de espera, eles estão ali.

Marx, Lenin, Rosa, Gramsci, Lukács, Althusser, Marcuse, Fanon.

E hoje, no divã, não está nenhum deles.

Está Mascaro.

Ele acaba de atravessar uma ruptura.
Cancelamento. Exposição pública. Julgamento moral acelerado.
O tipo de tribunal que não admite defesa ... apenas performance.

A porta permanece aberta.

E, da sala de espera, todos escutam fragmentos.


Lenin é o primeiro a reagir.

Cancelamento…  diz, com desdém. No meu tempo, chamava-se repressão.

Rosa ergue os olhos:

Não é tão simples. A violência pode ser difusa. Não precisa de fuzil.

Fanon fala baixo:

O linchamento simbólico também deixa marcas no corpo.

Marx cruza as mãos.

A superestrutura está em crise quando a moral se transforma em espetáculo. O capital adora essas distrações.

Gramsci observa:

O cancelamento é disputa de hegemonia. Quem define o aceitável controla o senso comum.

Althusser inclina-se:

Mas o sujeito acredita estar falando livremente. Não percebe que já está interpelado.

Marcuse suspira:

A sociedade administrada encontrou um novo método. Integra até a indignação.

Lukács murmura:

A reificação agora é moral. Pessoas transformadas em casos. Em rótulos.

Silêncio.

Da sala, ouve-se a voz de Mascaro ... não inteira, mas suficiente:

“…o cancelamento não é apenas moralismo, é forma política…”

Os olhos na sala de espera se cruzam.


Sobre uma pequena mesa repousa o livro de Mascaro sobre o cancelamento.
Eles o folheiam.

Marx comenta:

Ele tenta mostrar que o cancelamento não é acidente. É expressão da forma social.

Gramsci concorda:

É pedagogia às avessas. Ensina pelo medo.

Lenin franze o rosto:

Mas há erro tático em expor-se ao inimigo sem preparo.

Rosa intervém:

Ou talvez o erro seja supor que o pensamento deva pedir permissão.

Fanon olha fixamente para a porta aberta:

O cancelamento marca o sujeito como excesso. Como algo que deve ser expulso para que a ordem continue limpa.

Althusser sorri discretamente:

Todo aparelho ideológico precisa de exemplos.

Marcuse fecha o livro:

 É a sociedade que precisa cancelar para funcionar.


A conversa muda de tom.

Lenin recorda o irmão executado.
Rosa lembra as prisões.
Gramsci toca o próprio corpo frágil.
Fanon pensa nas cicatrizes invisíveis.
Althusser evita o espelho da sala.

Marx fala quase para si:

Todos fomos, em algum momento, interditados.

Lukács completa:

A diferença é que nosso tempo não tinha redes. Tinha fuzis.

Rosa corrige:

Mas a exclusão dói em qualquer século.

Da sala, um silêncio mais longo.

A porta continua aberta.

E talvez essa abertura seja a verdadeira cena.

Porque o cancelamento não é apenas julgamento externo.
É também fissura interna.

É quando o sujeito descobre que o Outro não o garante.


Mascaro sai.

Não abatido.
Mas confrontado. 

... o debate público não é arena neutra ... é campo estruturado.

Ninguém pergunta o que Lacan disse.

Porque talvez não tenha dito quase nada.

Talvez apenas tenha deixado o silêncio operar.

Na sala de espera, todos entendem algo desconfortável:

O cancelamento não é apenas punição.
É sintoma.

Sintoma de uma sociedade ...
Que precisa rapidamente classificar, expulsar, purificar.

Marx ajusta o casaco.
Rosa encara a rua.
Lenin permanece rígido.
Fanon respira fundo.

E Paris segue.

Fria.
Elegante.
Implacável.

Se em Havana discutíamos revolução,
em Paris aprendemos outra lição:

Antes de derrubar estruturas,
é preciso entender como elas atravessam o sujeito.

E como cada época inventa seu próprio tribunal.

Nenhum deles escreveu antes do corte; foi o atravessamento que os fez teoria. Se o real os rasgou, também os fundou. Grandes ideias não nascem intactas: nascem do corte. E quem atravessa o corte, se não se dobra, escreve.


São Paulo, 21 de fevereiro de 2026. 

Isabel Perides 

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Fumaça, Rum e Teoria: Um Encontro Inesperado em Havana

Fumaça, Rum e Teoria: Um Encontro Inesperado em Havana

Por Isabel Perides 

O ar é denso, carregado com o aroma de tabaco envelhecido e o dulçor do melaço. As paredes, descascadas pelo tempo e pela maresia, parecem guardar não apenas ecos de revoluções passadas, mas respirações suspensas.

Ao fundo, o dedilhado de um violão sustenta uma cadência que balança entre a melancolia e a celebração:

“De Alto Cedro voy para Marcané…”

À mesa de madeira pesada, entre garrafas de rum e cinzeiros cheios, dois homens discutem com intensidade suficiente para ignorar o calor tropical.

Slavoj Žižek ajeita a gola da camiseta com seu tique nervoso.
Jacques Lacan, impecável em linho claro, sustenta o charuto como quem sustenta uma tese.

Žižek inclina o tablet na direção de Lacan.

“Ela escreve que a ideologia não é apenas ilusão, mas prática. Está correta. Mas quando fala em ‘conscientização pura’ como saída… não. A ideologia não é uma máscara que se retira. É a própria lente. Sabemos que a democracia falha ...  e ainda assim agimos como se acreditássemos. O cinismo é a forma suprema da crença.”

Lacan solta uma nuvem azulada que parece demorar mais que o necessário para se dissipar.

“O que me intriga é a confiança na identidade política. ‘Refúgio’, diz. Mas o sujeito não encontra refúgio. Ele encontra sua divisão. O desejo é sempre o desejo do Outro. O sonho não pertence ao sonhador ... ele é sonhado pela estrutura.”

O violão vacila por um instante.

A porta de madeira range.

Isabel entra sem hesitação. Puxa a cadeira. O som ecoa no ladrilho.

“Vocês tratam a estrutura como destino,” diz, apoiando os cotovelos na mesa. “Eu não escrevi um tratado sobre o sujeito. Escrevi um chamado. O algoritmo organiza o olhar, administra o desejo, distribui indignações sob medida. A praça não dissolve a estrutura ... ela a expõe ao ruído.”

Žižek ergue as sobrancelhas.

“Você quer a passagem ao ato.”

“Quero o encontro,” ela responde. “O corpo diante do outro. A política acontece quando o script falha. Quando não há mediação suficiente para amortecer o conflito.”

Lacan a observa, agora atento.

“E se a praça for apenas mais um espelho imaginário?”

Isabel sorri, mas há gravidade no gesto.

“Então que quebre.”

O som de botas no piso interrompe o momento.

Žižek abre um sorriso largo.

“Ora, vejam só! Alysson Mascaro e o velho Sócrates caminhando juntos por Havana! Isso sim é um cruzamento improvável!”

Mascaro cumprimenta com firmeza. Sócrates observa tudo como quem já desconfia do desfecho.

Lacan sintetiza:

“Discutimos se o convite à praça é fuga da estrutura ou confronto com ela.”

Sócrates volta-se para Isabel.

“Diga-me: deve-se ir à praça com certezas ou apenas com perguntas? Se ninguém sabe o que é justiça, como evitar que a multidão apenas substitua um algoritmo digital por um algoritmo de paixões?”

Isabel sustenta o olhar.

“Talvez a justiça não seja um conceito a carregar, mas algo que só aparece quando o corpo coletivo se move.”

Mascaro, até então em silêncio, ergue o rosto lentamente.

“Estamos falando da praça como hipótese. Mas há alguém aqui que sempre tratou a praça como força histórica concreta.”

Ele aponta discretamente para o fundo do bar.

Entre fumaça espessa e um copo intocado, Rosa Luxemburgo observa. Não como espectadora ... como quem mede o pulso de um tempo.

“Sem a espontaneidade das massas,” murmura Mascaro, “a praça vira apenas metáfora.”

A música no bar muda, como se pressentisse outra presença. O ritmo ganha malícia. Alguém, ao fundo, começa:

“Se quemó Tula, se quemó
Se quemó Tula, se quemó
Ay, mamá, ¿qué pasó?
Se quemó el cuarto de Tula…”

A porta se abre novamente.

Um homem de boné entra cantarolando junto, com um meio sorriso que não se sabe se é charme ou cálculo. A melodia sai baixa, quase íntima ... mas há algo de provocação nela, como se cada verso fosse também um teste de disposição.

Ele não olha imediatamente para a mesa. Primeiro observa o salão. Mede o espaço. Avalia as forças invisíveis.

É Lenin.

Aproxima-se devagar, ainda murmurando o refrão, como se a revolução pudesse começar com um bolero malicioso.

Quando chega à mesa, a música cessa por um segundo ... não por respeito, mas por tensão.

O bar parece pequeno demais para tanta história acumulada.

O rum ainda não acabou.

E lá fora, a praça não espera ... ela pulsa.

Isabel Perides 

São Paulo, 19 de fevereiro de 2026 (madrugada) 

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Entre o Coração e os Algoritmos: Gramsci e a Disputa pela Consciência

 Entre o Coração e os Algoritmos: Gramsci e a Disputa pela Consciência

Por Isabel Perides 

Tenho passado os últimos dias mergulhada nas Lettere dal Carcere de Antonio Gramsci. Há algo profundamente humano ali (...) frágil e ao mesmo tempo imenso.

No meio das análises políticas e das reflexões estratégicas, o que mais me atravessou foi a presença constante de Tatiana Schucht. Tatiana não foi apenas interlocutora; foi sustentação. Enquanto Gramsci estava preso pelo fascismo, doente e isolado, ela foi o fio que o ligava ao mundo. Cuidava, organizava, insistia. Lia e relia. Enviava livros. Protegia.

Existe uma melancolia nesse vínculo que me desarma. Ela o amava com uma dedicação quase absoluta. Ele respondia com ternura, gratidão e uma forma de amor possível dentro daquilo que lhe restava. As cartas revelam algo que me parece essencial: o pensamento não se sustenta sozinho. O intelecto precisa de cuidado. A crítica precisa de afeto para não se tornar apenas dureza.

Ao fechar as cartas, fiquei me perguntando: quem sustenta hoje o pensamento crítico? O que mantém viva a capacidade de questionar em um mundo tão saturado de estímulos?

Gramsci nos ensinou que o poder não se mantém apenas pela força. Ele se mantém quando se torna senso comum. Seu conceito de hegemonia mostra que uma classe domina de forma estável quando sua visão de mundo passa a parecer natural, neutra, inevitável. A dominação mais eficaz é aquela que não parece dominação.

Décadas depois, Louis Althusser aprofundaria essa percepção ao falar dos aparelhos ideológicos de Estado: escola, igreja, mídia, família. Não se trata apenas de repressão, mas de formação. Somos educados a ver o mundo de determinado modo, a reconhecer certas estruturas como legítimas, a desejar dentro de limites que nem sempre percebemos.

E no presente?

Penso nas redes sociais, nos algoritmos que organizam aquilo que vemos, nos mecanismos invisíveis que modulam nossa atenção. Penso em como a indignação é amplificada, como o desejo é direcionado, como o debate é frequentemente reduzido à reação instantânea.

Se Gramsci disputava consciências nas praças, nos jornais, nos sindicatos, hoje a arena é outra. A disputa passa pelo feed. O consenso é produzido por curadorias automatizadas. A lógica da visibilidade muitas vezes substitui a lógica do argumento.

Pensadores contemporâneos como Alysson Mascaro ajudam a perceber como o capitalismo atual reorganiza essas formas de poder. Estado, mercado e tecnologia se entrelaçam na produção de subjetividades ajustadas à dinâmica da mercadoria. Não somos apenas consumidores de produtos; somos produtores de dados, de atenção, de engajamento. Nossa própria presença vira matéria-prima.

E aqui me vem uma inquietação que divido (...)

Se a praça era o espaço do encontro imprevisível, do debate corpo a corpo, do olhar que confronta e reconhece, o que acontece quando a política se desloca quase inteiramente para ambientes mediados por plataformas privadas?

Ainda há espaço para a humanidade do encontro?

Não idealizo o passado. As praças também eram atravessadas por conflitos e exclusões. Mas havia algo ali que me parece difícil de reproduzir na lógica algorítmica: a experiência da presença. O tempo da escuta. O risco real do dissenso. O corpo diante do outro.

Talvez o desafio contemporâneo não seja abandonar as redes ... seria ingênuo pensar assim ... tenho consciência ... mas não permitir que elas se tornem o único espaço da política. Recuperar o encontro físico pode ser um gesto radical. Reconstruir espaços públicos onde a palavra não seja medida por curtidas, mas por sua potência transformadora.

Gramsci acreditava que todo ser humano é um intelectual em potência. Essa ideia me comove porque supõe diálogo, formação, troca. Supõe que ninguém está condenado à passividade.

Entre o coração de Tatiana e a estratégia de Gramsci, entre o cárcere do século XX e os algoritmos do século XXI, continuo me perguntando como preservar a capacidade de pensar junto. Como resistir à naturalização do que nos é apresentado como inevitável.

 
Talvez a praça ainda exista. Talvez ela só precise ser ocupada... Talvez ...Mas talvez, e isso me parece urgente, ela precise ser novamente ocupada por corpos reais, por vozes que não cabem em caracteres limitados, por encontros que escapem ao cálculo da visibilidade.

E há ainda outra camada que me inquieta: se a ideologia hoje opera de maneira tão íntima, atravessando desejo, identificação e gozo, talvez seja preciso ir além da crítica econômica e institucional. Talvez seja necessário compreender como o sujeito contemporâneo é produzido ... e por que ele se apega às próprias formas de dominação.

Mas isso já nos levaria a outra conversa. E eu nem sei se dou conta ... mas prometo que vou tentar ... 

Quem sabe em nossa próxima conversa possamos sentar em uma praça e chamar para o debate Slavoj Zizek e Jacques Lacan. 

Porque, se a hegemonia organiza o mundo, é o desejo que organiza o sujeito.

E talvez seja justamente aí que a disputa mais profunda esteja acontecendo.

Isabel Perides 

São Paulo, 15 de fevereiro de 2026 (madrugada de carnaval) 

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Quando o Sintoma Mancha a Lombada

 

Quando o Sintoma Mancha a Lombada

Por Isabel Perides 

Um café, Lacan e o acaso que não é acaso

Por vezes, a vida nos interrompe com um “acidente” que, de acaso, não tem nada.

Eu estava imersa na escrita de (...)  um trabalho que pede precisão, recolhimento e silêncio ... quando por um gesto ... A xícara de café escorregou, e o líquido escuro se espalhou pela estante. Entre tantos livros, escolheu um só: O Seminário, Livro 23, de Lacan — O Sinthoma.

O café não arruinou o volume. Ao contrário. Marcou a lombada e algumas páginas com um tom envelhecido, quase artístico, como se aquele livro tivesse atravessado mais tempo do que os outros.

Para quem habita a psicanálise e o universo acadêmico, um café derramado sobre um livro dedicado ao sintoma não é apenas um descuido. É um convite.

O sintoma como aquilo que sustenta

Em Lacan, o sinthoma, grafado assim, à moda antiga, não designa algo a ser corrigido ou eliminado. Trata-se antes de um modo singular de amarração. É aquilo que permite a cada sujeito sustentar, à sua maneira, o real, o simbólico e o imaginário sem que tudo se desfaça.

O sintoma não se resolve. Ele se atravessa.

Diante da mancha no livro, fui levada a olhar para a minha própria trajetória. Um percurso que atravessa diferentes áreas do saber, marcado por deslocamentos, insistências e por algo que sempre esteve ali ... uma dificuldade que nunca se deixou apagar por completo e difícil de esconder ... 

Durante muito tempo, essa presença foi vivida como entrave. Algo que parecia destoar, atrasar, exigir contornos. Com o tempo, tornou-se possível reconhecê-la como motor: foi ela que orientou escolhas e empurrou para a pesquisa, para o aprofundamento teórico e, mais tarde, para a própria psicanálise.

Talvez não se trate de superar certas falhas, mas de escutar o que elas fazem ...

Quando o acaso ganha sentido

Jung nos lembra que nem todo encontro se organiza pela lógica da causa. Há momentos em que o mundo responde por símbolos. Algo se move internamente, e o exterior se rearranja em torno disso.

O café cair exatamente sobre aquele livro, naquele momento de recolhimento intelectual, pareceu menos um acidente e mais um sinal discreto. Um lembrete silencioso de que o sintoma não é obstáculo à criação ... muitas vezes, é sua condição.

A mancha na lombada passou a representar isso: não o erro, mas a marca. Aquilo que não se apaga e, justamente por isso, singulariza.

As marcas que nos fazem inteiros

Hoje, aquela dificuldade já não ocupa o mesmo lugar. Sua marca permanece, transformada em reflexão. Assim como o café permanece no livro de Lacan: não como dano, mas como vestígio.

Talvez a vida não nos peça coerência absoluta nem trajetórias limpas. Talvez ela apenas derrame um pouco de café sobre nossos planos para nos lembrar de que é na forma como lidamos com as manchas que algo verdadeiramente nosso se sustenta.

Cada um carrega sua própria lombada marcada. E, muitas vezes, é justamente ali que o nó se mantém.

Isabel Perides 

São Paulo, 08 de fevereiro de 2026.