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domingo, 4 de janeiro de 2026

Sabotando o Espelho: A Dialética do Like e a Ruptura Fantasmática

Sabotando o Espelho: 

A Dialética do Like e a Ruptura Fantasmática 

Por Isabel Perides 


No texto anterior, diagnostiquei a política reduzida à poiésis: o "crítico" que fabrica uma identidade para consumo alheio. Mas a madrugada tem seus próprios métodos de cobrança. Em conversa com meu amor, no silêncio que sucede o barulho das notificações, ele me ensinou o que estava faltando: o enigma do vazio que eu sentia era apenas o eco de um desejo meu que eu ainda não tinha nomeado. Percebi que minha crítica ao narcisismo ainda era, em parte, um refúgio. Se o "narciso" é o sintoma, qual é a estrutura? Se a rede é um tribunal de conveniência, podemos simplesmente nos retirar dela?

A resposta passa por compreender, com Althusser, que as redes não são apenas palcos de vaidade, mas o Aparelho Ideológico de Estado central da nossa era. O ato de postar é a materialização de uma disciplina internalizada: o Estado não precisa nos vigiar quando nós mesmos nos submetemos à "disciplina da vitrine". Ignorar esse aparelho sob o pretexto de um purismo ético seria entregar o monopólio da consciência das massas ao capital.

Aqui, a psicanálise se torna uma ferramenta de combate. Para que a disputa de hegemonia ocorra, é preciso que o sujeito saia do estado de "ideologia cínica" ... aquele em que você sabe que é uma farsa, mas age como se não soubesse. A consciência política real exige um "atravessamento da fantasia": reconhecer que o algoritmo sequestra seu desejo de transformação e o devolve em forma de narcisismo. Sem essa percepção, qualquer disputa vira performance ... como o ativista que coleta likes enquanto ignora a exploração material que sustenta sua própria conexão.

Como alerta Mascaro, a verdadeira política exige o abandono das "redomas morais". A hegemonia da massas exige a coragem de ocupar as trincheiras ideológicas digitais sem sucumbir à sua higiene estética. A política real exige o corpo, o conflito e a disposição para abraçar o povo em suas contradições.

A dialética se fecha assim: usamos o aparelho para despertar a consciência de classe, sabendo que o "like" é uma armadilha. O objetivo não é alimentar o Narciso, mas sabotar o espelho para que as massas enxerguem a realidade material que o filtro insiste em esconder.

Mascaro nos convida para um despertar além das telas

E se, em vez de mais um like, experimentássemos o desconforto da práxis real? Só assim, fora da vitrine, construiremos uma consciência que não se dissolve em algoritmos.

O que você fará hoje para sabotar o espelho?


Isabel Perides 

(São Paulo, 04 de jan. de 2026) 

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