Como Vítimas Viram Agressores no Cancelamento Online
Por Isabel Perides
Recentemente, mergulhei na leitura de um livro que analisa a relação entre agressor e vítima através das lentes do conto do Barba Azul. Essa leitura me fez pensar o quanto essas posições, que julgamos ser estáticas e opostas, são, na verdade, fluidas e profundamente conectadas. Quero compartilhar com vocês algumas dessas inquietações, tentando pensar em um assunto (que sei) que é, por natureza, espinhoso.
O Par Dialético: Onde um não existe sem o outro
A primeira coisa que precisamos entender é que agressor e vítima muitas vezes operam como um par dialético (deixando bem claro que a agressão que estou falando aqui é aquela da dinâmica entre vítima e agressor que se repete dia a dia). Na psicanálise, vemos isso claramente na relação entre o exibicionista e o voyeur: um precisa do olhar do outro para validar sua existência. No caso do Barba Azul, a curiosidade da esposa e o segredo do marido se alimentam mutuamente.
Freud, em "Além do Princípio do Prazer", nos ajuda a entender a compulsão à repetição. Muitas vezes, alguém que carrega um registro inconsciente de passividade pode acabar "buscando" ou se mantendo em situações de submissão porque aquele é o único roteiro que seu psiquismo conhece. É uma dinâmica invisível, onde o agressor se torna o palco para que a vítima atue seus traumas antigos.
A Vingança Fantasiada de Justiça
No desfecho do conto, a esposa mata Barba Azul e fica com seu patrimônio. Aqui nasce o ponto crucial: ao eliminar o agressor e se apossar de seus bens, ela transita de vítima a uma nova forma de agressora. Ela poderia ter denunciado? Fugido? Sim. Mas a escolha pelo extermínio e pelo ganho material revela que, muitas vezes, a "vontade de justiça" é uma máscara para a vingança (até mesmo contra uma situação do passado).
Lacan falaria aqui sobre o desejo do Outro. A vítima, ao se vingar, muitas vezes não está se libertando, mas sim assumindo o lugar, repetindo a violência que acredita que sofreu para tentar, inutilmente, estancar uma ferida narcísica. Já Winnicott nos traria a ideia do ambiente: se o indivíduo não teve um "ambiente suficientemente bom" para processar a agressão, ele pode usar a retaliação como uma forma distorcida de sentir que finalmente tem controle sobre a realidade.
Do Tribunal do Cancelamento
Se levarmos essa dinâmica para o mundo digital, o cenário fica ainda mais complexo. Mascaro discute como a nossa sociedade é moldada pela "forma jurídica": nós enxergamos o mundo através de contratos, de quem está "certo" e quem está "errado", de quem deve ser punido.
Na internet, o cancelamento (...) Alguém comete um suposto erro (o agressor) e, imediatamente, uma massa de pessoas (que se sentem vítimas de seus valores ou falas) se volta contra ele com uma violência desmedida.
O cancelamento replica a lógica da forma jurídica do Estado punitivista. Em vez de buscarmos a transformação da estrutura que gera a agressão, focamos no extermínio subjetivo do indivíduo.
A "vítima" que cancela sente um prazer quase pulsional (o que Bion chamaria de elementos de um grupo em "ataque e fuga") ao destruir o outro. Nesse momento, ela deixa de buscar reparação e passa a exercer uma agressão soberana, escondida atrás de uma suposta superioridade moral.
O perigo de não reconhecermos nossa própria capacidade de agredir é que acabamos repetindo o ciclo que juramos combater. Se a esposa de Barba Azul apenas troca o sangue das esposas mortas pelo ouro do marido assassinado, a estrutura de poder não mudou (...)
Precisamos olhar para nossas relações ... e para nossa postura e perguntar: estamos buscando justiça ou apenas o prazer pulsional (velado) de sermos o agressor (...)
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