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terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Ideal do Eu e a Forma-Sujeito

 

Ideal do Eu e a Forma-Sujeito

Por Isabel Perides 

Ao reler meus apontamentos sobre a obra de Alysson Mascaro e as bases do marxismo, uma peça do quebra-cabeça da "dialética do like" finalmente se encaixou. No meu último texto, falei sobre o vazio que meu amor me ajudou a nomear. Hoje, entendo que esse vazio é o sintoma de um conflito profundo entre quem tentamos parecer nas redes e a estrutura que nos sustenta.

Para Freud, o Mal-estar na Civilização surge da renúncia pulsional: trocamos parte da nossa liberdade e satisfação por segurança e convivência. No entanto, na era digital, essa troca foi pervertida pela "indústria da felicidade". O Ideal do Eu ... aquela instância do Superego que representa o que deveríamos ser para sermos amados ... não é mais moldado pela ética ou pela comunidade, mas pelo algoritmo.

Aqui, a psicanálise encontra o marxismo de Mascaro. Como discuti em meu trabalho anterior, a Forma de Subjetividade Jurídica no capitalismo nos constitui como sujeitos para que possamos trocar mercadorias. Nas redes, nós nos tornamos a própria mercadoria. O Ideal do Eu digital exige que sejamos produtivos, felizes e militantes esteticamente perfeitos. Quando não alcançamos essa imagem idealizada (o Eu Ideal), o resultado não é apenas frustração, mas o afundamento depressivo que mencionei anteriormente.

O mal-estar contemporâneo nasce dessa "higiene do algoritmo". Se a infraestrutura do capital (a base do prédio que muitas vezes não vemos) exige a nossa exploração, a superestrutura (as redes sociais como Aparelho Ideológico) exige o sorriso enquanto somos explorados. O "like" é o anestésico desse mal-estar; é a tentativa de suturar a ferida da nossa própria castração.

Mas, como nos ensina a teoria das Formas Sociais, não basta mudar a consciência individual se a forma política estatal e a forma mercadoria permanecem intactas. A verdadeira "hegemonia de baixo" de Gramsci exige que ocupemos esses espaços não para alimentar nosso Ideal do Eu narcisista, mas para expor as contradições da base.

A tarefa política e analítica é a mesma: atravessar a fantasia. Admitir que o mal-estar é inerente à nossa condição e que a felicidade de vitrine é uma ferramenta de controle. Precisamos resgatar o direito ao conflito, à imperfeição e ao coletivo real. Só assim deixaremos de ser "sujeitos do like" para nos tornarmos sujeitos da história.


Isabel Perides 

(São Paulo, 06 de janeiro de 2026) 

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