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quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Cartografias do Self

Cartografias do Self 

Organizando as gavetas para a entrada de um novo ano! 

Por Isabel Perides

Esta reflexão nasceu de um momento de síntese em uma análise de grupo. Ao ser questionada sobre qual havia sido o meu percurso, minha psicanalista ouviu atentamente e resumiu a minha trajetória e concluiu: "Interessante... o Direito como o pai castrador; a Geografia como o mundo e suas cartografias, onde você saiu em busca de si; e, finalmente, a psicanálise como o retorno para si". A partir dela, comecei a organizar as gavetas da alma para o início de uma nova jornada que se aproxima.

O meu caminho intelectual tem sido, portanto, um percurso multifacetado, onde disciplinas aparentemente díspares se entrelaçam como camadas de um mapa. O Direito, minha formação inicial, materializou exatamente esse universo da lei como uma estrutura paterna e impositiva. Ali, encontrei o Estado com suas normas rígidas ... um aparato de controle social que, sob a lente marxista, ecoa as relações de poder e alienação descritas por Marcuse e Althusser. Naquele cenário, a repressão não era mera abstração, mas uma força que moldava meu olhar, suprimindo desejos em nome da ordem produtiva.

A Geografia chegou em meu caminho como um convite ao oposto: a saída para o mundo. Foi uma exploração dos mapas, da terra como mãe afetuosa e acolhedora, repleta de horizontes infinitos. Foi uma viagem real, cruzando fronteiras físicas que, confesso, me assustavam. Traçar rotas por continentes e culturas propiciou, no cerne, essa odisseia interna em busca de mim mesma, onde o espaço geográfico se torna espelho (e não palco) da experiência humana. Milton Santos e David Harvey me ajudaram a compreender que essa exploração não era apenas física, mas uma resistência frente à totalização do capital que tenta alienar o indivíduo de sua raiz territorial.

Agora, como o "retorno para si" profetizado na análise, a psicanálise chega e me convida a um mergulho profundo no território invisível do interior. As estruturas freudianas ... o Id, o Ego e o Superego ... revelam os conflitos psíquicos como verdadeiros mapas do eu, povoados por abismos e pontes. Essa cartografia interna não é estática; é dinâmica e marcada por tensões que, como Wilhelm Reich bem pontuou, integram o marxismo para mostrar como as estruturas de poder externas se infiltram em nosso íntimo.

A lei externa do Direito confronta-se com o Id; a busca por mapas na Geografia desdobra-se na navegação do Ego. A psicanálise, por fim, oferece as ferramentas para reconciliar esses elementos. Com Fromm e Žižek, compreendi que a autorrealização surge da dialética entre desejo e estrutura. Assim, minha jornada não é linear, mas um palimpsesto de camadas que se sobrepõem em uma busca eterna pelo eu integral.

Isabel Perides (25 de dezembro de 2025)

sábado, 20 de dezembro de 2025

O amor entre a falta e a ideologia

 

 O amor entre a falta e a ideologia 

Isabel Perides

 

O amor contemporâneo é um território de disputa entre o desejo subjetivo e a imposição ideológica. Frequentemente, o que chamamos de "amor" é uma sintetize de fantasias infantis e construções sociais que servem para maquiar uma verdade fundamental da condição humana: a incompletude. Este texto busca refletir como a ideologia molda nossas expectativas românticas e como a psicanálise e o pensamento crítico  oferecem caminhos para uma vivência amorosa mais autêntica e menos performática.

Para Jacques Lacan, o amor é estruturado sobre a "falta". O sujeito, ao amar, não oferece ao outro uma completude, mas sim a sua própria carência. A frase "amar é dar o que não se tem a alguém que não o quer" resume o desencontro inerente ao laço amoroso. O amor que oferecemos nunca é exatamente o que o outro espera receber, pois ambos os sujeitos estão presos em suas próprias fantasias inconscientes. A fantasia não é uma mentira, a fantasia é a maneira pela qual enxergamos o outro. Ela é perigosa quando se torna uma uma lente fixa e que limita a alteridade do parceiro às nossas necessidades de validação.

Na filosofia, Marx e Engels e pensadores da Escola de Frankfurt, entendem que o sentimento  é moldado pela base econômica da sociedade. Friedrich Engels aponta que o modelo de amor romântico burguês nasceu para garantir a transmissão de herança e o controle dos corpos. O amor, sob o capital, tende materializar a posse. Na lógica capitalista, transformamos o parceiro em um objeto de consumo. Esperamos um retorno sobre o investimento afetivo, e a frustração surge quando o outro não cumpre sua a tarefa de nos completar ou nos validar socialmente. A ideologia do romantismo funciona como o fetiche da mercadoria: ela oculta as relações reais de poder e fantasia o cotidiano com um misto de destino e magia. O ponto alto da reflexão é o desafio de desvincular o amor da aprovação social: o relacionamento precisa ser performado para ser considerado real?

Muitas vezes, deixamos de vivenciar a plenitude de uma relação em sua beleza crua e cotidiana porque ela não se encaixa nos padrões estéticos ou ideológicos da conhecida e vendida pela cultura. O desejo de validação externa é, no fundo, um desejo de que o Grande Outro, nas figuras representadas pela sociedade,  nos diga que somos "normais" e "bem-sucedidos" em todos os campos da nossa existência. 

Não é raro observar indivíduos de alta capacidade intelectual que, embora compreendam as complexidades das estruturas sociais, permanecem analfabetos emocionais em suas vidas privadas. Isso ocorre porque a intelectualização pode servir como uma defesa contra a vulnerabilidade da "falta". Filosofar sobre sobre a própria relação é um exercício de entrega e reconhecimento da própria impotência.

A libertação não reside na destruição da fantasia, o ser humano necessita de simbolismo para desejar. Em minha experiência pessoal pude confirmar que atravessar a fantasia significa: Aceitar que o outro não veio para nos completar, e sim para caminhar ao lado de nossa solidão. Desconstruir a necessidade de validação e reconhecimento externo e vivenciar a alegria e a felicidade  do encontro. Reconhecer que o amor é um exercício diário de descolonização, retirando-o da esfera da posse e devolvendo-o à esfera da liberdade. 

Ao abrirmos mão das caixinhas ideológicas, permitimos que o amor se materialize em formas mais amplas, generosas e, finalmente, reais.


Isabel Perides 

(20 de dezembro de 2025) 

domingo, 7 de dezembro de 2025

A ESSÊNCIA CÍCLICA DO SER

 Luz, 

A percepção de que o universo e a própria existência são tecidos por um princípio de ciclicidade é uma das chaves profundas para decifrar o mistério da vida. Esta ideia transcende a noção linear de tempo e revela uma estrutura onde o fim é sempre um novo começo.

A ampulheta, não apenas um medidor, mas  um elemento místico. O ato de virá-la é um rito de passagem: a areia que desce e simboliza o tempo que se esgota é, magicamente, a mesma areia que, ao ser invertida, inaugura um novo ciclo. Representando o eterno retorno, a constante renovação onde a morte é apenas o anúncio de uma nova forma de vida.

Essa visão de que tudo é renovado ,a infância que se torna juventude, os processos de formação que se concluem e se iniciam em patamares mais altos, ressoa com o conceito do Eterno Retorno. Para o filósofo, a aceitação de viver cada instante como se fôssemos obrigados a revivê-lo infinitamente não é um fardo, mas a maior afirmação da beleza da vida.

O universo, visto como uma entidade em constante transformação e repetição de padrões, encontra eco nos estudos sobre o Tempo Mítico. Que como as culturas antigas buscavam constantemente reentrar no tempo sagrado e primordial, por meio de rituais que repetiam a criação uma busca pela anulação do tempo profano e a reinserção na perenidade do ciclo cósmico.

A ciclicidade não implica uma repetição idêntica, mas sim uma evolução. E, muitas vezes, para que a espiral ascendente avance, é necessária uma ruptura. Essa quebra de ciclo, por mais dolorosa que seja, não é um colapso, mas uma oportunidade de salto. É o momento em que se condensam múltiplas experiências em uma única travessia, levando o indivíduo a um novo e mais alto patamar de consciência.

Essa coragem de romper e se auto aceitar em um novo caminho foi vivenciada por Carl Gustav Jung. Próximo dos 50 anos, ele enfrentou uma profunda crise e precisou concretizar a ruptura com Sigmund Freud. Esse movimento, que lhe custou a solidariedade de muitos, foi essencial para que ele se libertasse do papel de "discípulo herdeiro" e construísse sua própria identidade e sistema de pensamento. Foi um ato de profunda transformação interna que, apesar da dificuldade, permitiu que sua contribuição singular florescesse para o mundo.

A espiral de desenvolvimento, que conecta o terreno ao universal, o finito ao infinito, dialoga com o Princípio Esperança de Ernst Bloch. O ciclo cósmico, permeado por uma força que impulsiona o ser em direção a um futuro não realizado, mas sempre prometido, transforma a mera repetição em um processo contínuo de evolução e transcendência. 

Isabel (07 de dez. de 2025) 


quarta-feira, 24 de setembro de 2025

ANÁLISE PSICANALÍTICA DA SUBJETIVIDADE CONTEMPORÂNEA: UMA LEITURA A PARTIR DE LACAN, SEXUALIDADE, NOVOS SINTOMAS E PSICOPATOLOGIA

 

ANÁLISE PSICANALÍTICA DA SUBJETIVIDADE CONTEMPORÂNEA: UMA LEITURA A PARTIR DE LACAN, SEXUALIDADE, NOVOS SINTOMAS E PSICOPATOLOGIA

                                                                                                                   Isabel Perides

A psicanálise, a partir de Jacques Lacan, oferece um arcabouço teórico para compreender a subjetividade contemporânea. Esta análise busca articular a sexualidade, os novos sintomas e a psicopatologia com o ensino lacaniano, atendendo ao convite de Lacan para que os psicanalistas localizem a subjetividade no tempo atual.

 

1. Sexualidade e Sexuação na Clínica Contemporânea

Lacan reformulou o conceito de sexualidade ao introduzir a sexuação, que transcende a biologia. Ele propôs que a subjetividade se estrutura a partir de posições distintas em relação ao falo e ao gozo. O lado masculino se submete à castração e ao significante fálico, enquanto o lado feminino se abre a um gozo do Outro que não é totalmente capturado pela linguagem.

A psicanálise lacaniana distingue a sexualidade, que é pulsional, da sexuação, que se refere à posição do sujeito em relação à diferença e sua inscrição no simbólico. Na contemporaneidade, a fluidez das identidades de gênero e a multiplicidade das expressões sexuais desafiam as categorias binárias. Essa desconstrução dos ideais de gênero rigidamente impostos leva a uma diversificação das formas de gozo e a uma complexidade na maneira como os indivíduos se posicionam frente ao Outro e ao desejo. A ênfase lacaniana de que "não há uma completude ou harmonia natural entre os sexos" ajuda a entender como a subjetividade lida com a falta estrutural. A multiplicidade de identificações de gênero reflete tentativas de nomear o impossível da relação sexual, o que Lacan chama de sinthoma, uma solução singular para o sujeito lidar com a falta.

Lacan mostra que a não complementaridade entre os sexos significa que não há uma forma simbólica que uma homem e mulher. Ele propõe duas fórmulas de gozo, masculina e feminina, que não são simétricas, e cada sujeito se inscreve em uma delas a partir de uma posição subjetiva, não biológica. A sexualidade contemporânea nos convida a pensar a subjetividade como menos amarrada a normas universais e mais atravessada por escolhas singulares de gozo e identificação.

A psicanalista Myrna Agra Maracajá (2025) explora essa lógica lacaniana, vinculando-a à fluidez das identidades contemporâneas. Ela enfatiza que essas posições sexuais não são biológicas, mas uma "posição subjetiva diante do gozo". Maracajá (2025) discute como as mudanças sociais e culturais afetam a inscrição dos sujeitos nas posições sexuadas e como isso se reflete nas formas de gozo e nas relações contemporâneas.

2. A Problemática dos Novos Sintomas

O termo “novos sintomas”, já popularizado, reflete as manifestações de sofrimento psíquico da sociedade contemporânea. Questões como transtornos alimentares, automutilação, burnout e depressões atípicas são exemplos de novos arranjos sintomáticos. Esses sintomas revelam a relação do sujeito com o excesso de gozo em uma sociedade marcada pelo imperativo capitalista de "gozar mais", uma ideia de que Lacan relaciona no Seminário 17, O avesso da psicanálise.

Na clínica atual, o declínio da função paterna resulta em sujeitos que buscam no real (corpo, substância, tecnologia) uma forma de lidar com a angústia. Isso revela uma subjetividade fragmentada, que responde à precariedade dos laços sociais e ao individualismo. A psicanálise, na atualidade, oferece um espaço para o sujeito articular sua singularidade, transformando o sintoma em sinthoma.

Os sintomas contemporâneos apontam para uma fragilidade dos laços sociais e um esvaziamento do sentido. O sujeito busca preencher um vazio existencial através de objetos e práticas que oferecem um gozo imediato e efêmero. A psicanálise, ao invés de simplesmente classificar esses sintomas, busca entender a lógica subjacente a eles. Esses “novos sintomas” apontam para uma subjetivação desamparada, em que o sintoma não está mais articulado a um saber inconsciente, mas é vivido como um sofrimento bruto, real, sem sentido simbólico. Isso exige novas formas de escuta e intervenção clínica, voltadas para a estabilização do gozo do sujeito.

Maracajá (2025) trata desses sintomas como respostas aos impasses do discurso capitalista e à fragilização dos laços simbólicos. Sua abordagem compreende que esses "novos sintomas" são respostas do sujeito ao real da época, que inclui a exigência de performance, a cultura do consumo e a precarização dos laços sociais.

A clínica exemplifica essa manifestação. Uma analisanda, por exemplo, manifesta ansiedade e angústia no corpo, com um choro que a paciente não compreende e tenta controlar, onde o corpo expressa o que a palavra não consegue alcançar. A dor na cervical de uma outra analisanda, associada ao estresse do trabalho, é outro exemplo de como o sintoma se manifesta no corpo, em um tempo em que o estresse e a performance (sujeito performático) são demandas constantes.

3. Psicopatologia e Subjetividade

A psicopatologia, sob a perspectiva lacaniana, não se limita a diagnosticar transtornos. Ela investiga como o sujeito se posiciona frente ao Outro, explorando o campo da linguagem e do desejo. Lacan propõe que a subjetividade emerge na tensão entre o simbólico, o imaginário e o real. As mudanças sociais, como a globalização e a digitalização, enfraquecem as referências simbólicas, e a psicopatologia reflete esse impacto.

Fenômenos como ansiedade generalizada ou a dificuldade em sustentar laços amorosos apontam para um sujeito que enfrenta a ausência de garantias absolutas do Outro. Lacan convida os psicanalistas a escutar o sujeito além dos rótulos diagnósticos, reconhecendo que a psicopatologia contemporânea expressa tentativas de lidar com o real traumático. A psicopatologia se torna, nesse contexto, uma ferramenta para compreender a estrutura do sofrimento psíquico.

Ao analisar os novos sintomas, a psicanálise vai além da superfície para investigar operações psíquicas subjacentes, como a falta na castração simbólica e a dificuldade de construir um sentido para a existência. A psicopatologia contemporânea deve considerar as particularidades da época, como o discurso capitalista e a cultura do excesso. É crucial que o psicanalista compreenda a estrutura que sustenta o sintoma e a função que ele desempenha na economia psíquica do sujeito.

Na contemporaneidade, em que os discursos médicos e psiquiátricos tendem a classificar o sujeito com rótulos como TDAH ou borderline, a psicanálise propõe um retorno à escuta da singularidade. A psicopatologia, para a psicanálise, é um instrumento para localizar a posição do sujeito em relação ao seu gozo, à sua fala e à sua história, e não um manual de etiquetas diagnósticas.

Na clínica, a psicopatologia se manifesta como uma forma de compreender a estrutura subjetiva do sofrimento. Uma analisanda, por exemplo, demonstra a dificuldade em nomear seus sentimentos, o que pode ser entendido como uma defesa contra a dor emocional. A paciente parece ter desenvolvido um “falso self” para se adaptar a um ambiente familiar disfuncional, o que pode ter contribuído para sua ansiedade. Outra analisanda enfrenta a crise da meia-idade, com a busca por validação externa e a percepção de um conflito entre um “eu antigo” e um “eu novo”. Ambas as pacientes, cada uma a seu modo, demonstram uma desconexão entre o que sentem e o que conseguem expressar verbalmente.

4. A Subjetividade Contemporânea e o Convite de Lacan

Lacan convida os psicanalistas a se manterem atentos à singularidade do sujeito. A subjetividade contemporânea, marcada pela fragmentação, pluralidade de gozos e dificuldade de inscrição no simbólico, exige uma psicanálise que acolha o que é novo e singular. A sexualidade e a sexuação mostram como o sujeito se posiciona frente à falta; os novos sintomas revelam as estratégias para lidar com o excesso de gozo; e a psicopatologia aponta para a necessidade de reinventar os laços com o Outro.

A psicanálise lacaniana nos ajuda a localizar a subjetividade ao oferecer um método para escutar o sujeito em sua relação com o real, o simbólico e o imaginário. Isso permite que o sujeito construa, na análise, um saber sobre seu gozo e sua existência, especialmente em uma era de incertezas. O sujeito busca, por meio do sinthoma, uma maneira de fazer laços com o mundo.

Ao integrar as perspectivas da sexualidade e sexuação, a problemática dos novos sintomas e a psicopatologia, podemos compreender as forças que moldam a subjetividade contemporânea e as novas formas de sofrimento que emergem. O psicanalista, ao se manter atento a essas transformações, pode oferecer um espaço de escuta que possibilite ao sujeito reelaborar seu gozo e encontrar novas balizas para sua subjetividade.

Lacan convida os psicanalistas a lerem os sintomas do seu tempo, escutando a singularidade de cada sujeito em relação com os discursos contemporâneos. A subjetividade de hoje está marcada por:

·                     A crise das referências simbólicas tradicionais (pai, família, autoridade).

·                     O excesso de imagens e informações (o gozo do olhar e da exposição).

·                     A exigência de gozo imediato e desempenho constante (discurso capitalista).

·                     A busca por identidade e pertencimento em um mundo fluido e fragmentado.

A clínica psicanalítica contemporânea, ao se guiar por esses conceitos, oferece uma escuta atenta à singularidade do sujeito. O sofrimento, manifestado como angústia, choro, estresse ou inquietação, está intrinsecamente ligado a uma subjetividade fragmentada, que lida com a falta de referências simbólicas e a pressão por performance. O psicanalista, portanto, não busca um diagnóstico classificatório, mas um caminho para que o sujeito reelabore seu gozo e construa um novo sentido para sua existência. 

Ao nos debruçarmos sobre a sexualidade, os novos sintomas e a psicopatologia sob a lente lacaniana, percebemos que o sofrimento contemporâneo não e apenas uma manifestação individual, mas um reflexo da nossa época. A psicanálise, portanto, não busca rótulos diagnósticos, mas sim um caminho para que cada um possa reelaborar seu gozo e encontrar um novo sentido para a sua existência. Em um mundo que exige performance e gozo imediato, a clínica psicanalítica deve oferecer um espaço acolhedor para que o sujeito possa se reconectar com a sua singularidade, construir laços significativos e encontrar balizas para a sua subjetividade.

REFERÊNCIAS

LACAN, Jacques. O seminário, livro 20: mais, ainda. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller; versão brasileira de M. D. Magno. 1. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.

______, J. O seminário, livro 17: O avesso da psicanálise (1969-1970). Texto estabelecido por J.-A. Miller. Tradução de A. Roitman. Rio de Janeiro: Zahar, 1992.

MARACAJÁ, M. A. Pulsão e sexualidade: cartografias Sexualidade e clínica psicanalítica. Disciplina (online, 2025) ministrada no Curso de Pós-graduação: Clínica Psicanalítica Lacaniana, ESPE.

______, M. A. Os gozos e a sexuação na clínica lacaniana. Disciplina (online, 2025) ministrada no Curso de Pós-graduação: Clínica Psicanalítica Lacaniana, ESPE.

______, M. A. Sexualidade e clínica psicanalítica. Disciplina (online, 2025) ministrada no Curso de Pós-graduação: Clínica Psicanalítica Lacaniana, ESPE.

______, M. A. Gênero e sua atualidade: convergências e divergências com a Psicanálise. Disciplina (online, 2025) ministrada no Curso de Pós-graduação: Clínica Psicanalítica Lacaniana, ESPE.

 

Reflexões sobre Corpo e Subjetividade na Clínica Psicanalítica Contemporânea sob a Perspectiva Lacaniana

 

Reflexões sobre Corpo e Subjetividade na Clínica Psicanalítica Contemporânea sob a Perspectiva Lacaniana 

Isabel Perides

[...] qualquer que seja sua causa, inclusive a imaginação, as dores em si nem por isso são menos reais ou menos violentas. (Freud, 1905)

 

Para Lacan (1999, Seminário 5: As formações do inconsciente), o corpo pode ser entendido como um lugar onde o sujeito se inscreve no simbólico. Na posição do analista, isso implica escutar o que o corpo “fala” antes das palavras do paciente. Um sintoma corporal pode ser “uma mensagem” do inconsciente que o analista deve ajudar a decifrar, contudo, deve ter o cuidado de não reduzi-lo ao simbólico, ignorando possíveis causas orgânicas[1].

No Seminário 20 (Mais, ainda, 1985), Lacan aborda o conceito de gozo. O gozo escapa à simbolização, um excesso que se aloja no corpo e que não se submete completamente à linguagem. Na clínica atual, diante de fenômenos como a psicossomática, as automutilações e as intervenções corporais (tais como cirurgias e tatuagens), o analista deve estar atento a como o sujeito lida com esse gozo, que pode ser uma forma de sofrimento ou sustentação subjetiva. A função do analista é facilitar o diálogo para que o sujeito possa articular algo sobre esse excesso, sem tentar eliminá-lo.

Lacan trabalha com o conceito de sinthoma no Seminário 23 (O Sinthoma, 2007). Para Lacan, o sinthoma pode se manifestar no corpo como uma forma de o sujeito se constituir frente ao vazio ou à desordem psíquica. Para o analista, o desafio é não tratar o sinthoma como algo a ser eliminado, mas como algo a ser transformado ou ressignificado. Na atualidade, isso pode ressoar em transtornos alimentares e práticas de modificação corporal extrema.

No livro Psicanálise e Psicossomática: Casos clínicos, construções (Soares et al., 2015), a psicossomática e a clínica do corpo, ao conectar a teoria lacaniana à prática clínica, ajudam a compreender que os fenômenos psicossomáticos são tentativas do sujeito de lidar com algo que não pode ser simbolizado. Na clínica contemporânea, o analista se depara com o estresse, as pressões sociais e as demandas de perfeição corporal (superego) que impactam o corpo do sujeito. O analista deve auxiliar a construção de uma narrativa que dê sentido ao sofrimento corporal, permitindo que o sujeito encontre outras vias de expressão.

Gonçalves (2022, Corpo e Clínica Psicanalítica) destaca o aumento de demandas clínicas em que o corpo se torna um meio de expressão do sofrimento psíquico. Propõe um mapeamento conceitual que articula o sinthoma em duas dimensões: a simbólica (como mensagem inconsciente, ecoando Freud e Lacan) e a pulsional (como modo de gozo ligado ao real).

Gonçalves (2022) enfatiza a necessidade de o analista reconhecer essas manifestações como paradigmáticas para reequacionar a clínica. Para ela, há a ideia de que o sofrimento corporal contemporâneo exige do analista uma escuta que vá para além do tradicional, considerando os impactos de contextos sociais traumáticos.

Entre a fina simbiose do psíquico e das manifestações somáticas esclarece Gonçalves:

É sabido que implicações psíquicas podem acarretar o surgimento e a permanência de manifestações somáticas, porém Freud (1905b) ao indicar a mútua relação entre o psíquico e o somático salienta que o somático também é capaz de afetar o psíquico. Assim, sendo, uma doença orgânica, por exemplo, pode acarretar reações psicopatológicas significativas. Não é diferente com as repercussões da dor física sobre o psíquico, tal como ele demonstrou no texto sobre o narcisismo que nos leva a crer que a dor é um dos destinos da pulsão. (Gonçalves, 2022, p.113)

 

Em contextos contemporâneos marcados por novas formas de sofrimento corporal (transtornos psicossomáticos, modificações corporais, questões de gênero), o analista deve olhar para o corpo como um lugar onde o inconsciente se inscreve (escuta do corpo). A função do analista caminha no sentido de trabalhar para que o sujeito possa se relacionar de forma menos dolorida com o gozo e transformar o sinthoma em algo que o sustente (sustentar o gozo e o sinthoma). As redes sociais, padrões de beleza e medicalização colocam o corpo sob intensa pressão social, e o analista deve considerar como essas demandas afetam a subjetividade e se manifestam no corpo, ajudando o sujeito a se posicionar frente a elas.

O analista não impõe soluções, mas opera como um suporte para que o sujeito descubra seu próprio caminho em relação ao corpo e à subjetividade, respeitando a singularidade de cada um.

No contexto do ensino de Lacan, os já mencionados Seminários 5, 20 e 23 indicam que o corpo é um campo de inscrição do inconsciente, atravessado pelo gozo e pelo sinthoma. Gonçalves (2022) complementa ao apontar o sinthoma enquanto acontecimento do corpo e uma resposta singular a desamparos ou traumas, muitas vezes agravados pela contemporaneidade (pressões sociais, pandemia etc.). Gonçalves destaca a influência de ambientes da cultura digital não empáticos e que exige do analista considerar como essas dinâmicas afetam a subjetividade corporal.

Entre os casos clássicos de Freud, o caso Dora (Ida Bauer) é particularmente relevante para as reflexões sobre o corpo e a subjetividade na clínica lacaniana contemporânea. Dora apresenta sintomas corporais que expressam conflitos inconscientes, e sua análise por Freud ilustra a relação entre o corpo, a subjetividade e o papel do analista, ecoando os conceitos lacanianos discutidos até aqui.

Dora apresenta sintomas corporais (tosse nervosa, afonia) que Freud interpreta como expressões de conflitos inconscientes. Na atualidade, sintomas corporais como os de Dora podem ser comparados a fenômenos psicossomáticos ou transtornos que o analista deve decifrar, depois de excluída a possibilidade de causas orgânicas. A tosse de Dora pode ser lida como uma manifestação de gozo, um excesso que se aloja no corpo e que Dora não consegue simbolizar plenamente. Embora Freud não use o termo “sinthoma” (Lacan, 2007), a tosse de Dora funciona como um mecanismo que a sustenta frente a seus conflitos, como a relação com o pai e os desejos reprimidos.

O caso Dora em Fragmento da Análise de um Caso de Histeria”, publicado por Freud em 1905. Nas palavras de Freud:

Sem dúvida este caso clínico, tal como esbocei até agora, não perece em seu conjunto digno de ser comunicado. Trata-se de uma “petite hystérie” com os mais comuns de todos os sintomas somáticos e psíquicos: dispneia, tussis nervosa, afonia e possivelmente enxaquecas, junto com depressão, insociabilidade histérica e um taedium vitae que provavelmente não era muito levado a sério. (Freud, 1996 [1905], p. 33)

 

Dora vive em um contexto repressivo, a Viena do início do século XX, onde seu corpo expressa o que ela não pode dizer, muito semelhante aos fenômenos psicossomáticos discutidos na atualidade. Na atualidade, as pressões sociais, ideias de beleza e cultura digital também geram sintomas corporais, como aponta Gonçalves (2022).

Freud, ao analisar Dora, tenta interpretar os sintomas corporais, mas sua abordagem esbarra em uma transferência mal manejada. Lacan enfatiza a importância de o analista sustentar a escuta e trabalhar com a transferência sem impor interpretações. O próprio Freud, em seu Posfácio do caso Dora avalia uma transferência mal manejada:

Fui obrigado a falar de transferência porque somente através desse fator pude esclarecer as particularidades da análise de Dora. O que constitui seu grande mérito e que a fez parecer adequada para uma primeira publicação introdutória, a saber, sua transferência incomum, está intimamente ligado a seu grande defeito, que levou a sua interrupção prematura. Não consegui dominar a tempo a transferência; graças à solicitude com que Dora punha à minha disposição no tratamento uma parte do material patogênico, esqueci a precaução de estar atento aos primeiros sinais de transferência que se preservava com outra parte do mesmo material, ainda ignorada por mim. (Freud, 1996 [1905], p. 112- 113; grifo nosso)

 

Georges Bataille (1897-1962) foi um pensador que dialogou profundamente com a psicanálise. Suas ideias sobre o excesso, o erotismo e a transgressão ressoam com os conceitos lacanianos discutidos nos seminários mencionados, e sua vida e obra podem ser analisadas sob a perspectiva da clínica contemporânea.

Bataille (2023) explorou intensamente a relação entre o corpo e o excesso em suas obras, como em O Erotismo (1957), onde discute o corpo como um campo de experiência do limite. Para Bataille, o corpo é o lugar onde se experimenta o que está para além da utilidade ou da razão. Ele, com sua obsessão pelo excesso, exemplifica um sujeito que viveu intensamente essa relação. O analista contemporâneo deve ajudar o sujeito a articular esse gozo, sem eliminá-lo, permitindo que o sujeito encontre formas menos destrutivas de expressão.

Bataille entende o corpo como o lugar de ruptura que escapa à linguagem, o que dialoga com a ideia de Lacan (1999, Seminário 5) de que o inconsciente se manifesta no corpo por meio de formações como o sintoma. Na clínica contemporânea, o analista deve escutar essas manifestações corporais (psicossomática, transtornos corporais etc.) como mensagens do inconsciente, algo que Bataille exemplifica com sua própria vida, marcada por sintomas físicos (angústia, insônia etc.) que refletiam conflitos internos.

O “excesso” que Bataille descreve pode ser lido como um sinthoma, uma forma de lidar com o que é “insuportável” em sua subjetividade. No Seminário 23 (2007), Lacan propõe que o sinthoma é uma intervenção singular que sustenta o sujeito, e Bataille encontrou na escrita e na transgressão uma forma de se sustentar. Na clínica contemporânea, o analista trabalha para que o sujeito transforme seu sinthoma em algo que o sustente de maneira menos sofrida.

Bataille conecta o corpo ao “íntimo e insuportável”, o que ressoa com os fenômenos psicossomáticos discutidos em Psicanálise e Psicossomática (Soares et al., 2015) – o corpo como resposta a algo que não pode ser simbolizado. Na atualidade, como Gonçalves (2022) aponta em Corpo e Clínica Psicanalítica, o corpo reflete desamparos e traumas sociais (pressões da cultura digital), e Bataille, vivendo em um “contexto de pós-guerra”, também teve seu corpo marcado pelas tensões de seu tempo.

Com Bataille (2023) podemos refletir que o erotismo é uma atividade que rompe os limites da subjetividade, levando o corpo a uma experiência de dissolução que pode se transforme em sofrimento. Essa tensão, se não for acolhida, pode se converter em uma doença ou em mal-estar físico que o sujeito não explica.

 

Considerações finais

A clínica psicanalítica contemporânea, sob a perspectiva de Lacan e com base nos livros analisados, revela o corpo como um campo onde se inscreve o inconsciente, o gozo e o sinthoma, refletindo a complexa relação com a subjetividade. É possível pensar que fenômenos como a psicossomática, automutilações e práticas corporais extremas são expressões do sujeito frente a desamparos modernos como pressões sociais e traumas. O analista, nesse contexto, deve “escutar o corpo” decifrando suas mensagens e ajudando o sujeito a ressignificar seu sofrimento.

 

REFERÊNCIAS

BATAILLE, Georges. O erotismo. 2. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2023.

FREUD, Sigmund. Um caso de histeria, três ensaios sobre a sexualidade e outros trabalhos (1901-1905). In: FREUD, Sigmund. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: traduzido do alemão e do inglês sob a direção geral de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. VII.

GONÇALVES, Gesianni Amaral. Corpo e clínica psicanalítica: teoria e prática. Curitiba: Juruá, 2022.

GONÇALVES, Gesianni Amaral. Da linguagem ao corpo: litorais. 2024. Disciplina (online) ministrada no Curso de Pós-graduação: Clínica Psicanalítica Lacaniana, ESPE.

LACAN, Jacques. O seminário, livro 5: as formações do inconsciente. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller; tradução de Vera Ribeiro; revisão de Marcus André Vieira. 1. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1999.

LACAN, Jacques. O seminário, livro 20: mais, ainda. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller; versão brasileira de M. D. Magno. 1. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.

LACAN, Jacques. O seminário, livro 23: o sinthoma. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller; tradução de Sergio Laia; revisão de André Telles. Rio de Janeiro: Zahar, 2007.

SOARES, Ana Maria [et al.] (Org.). Psicanálise e psicossomática: casos clínicos, construções. São Paulo: Escuta, 2015.

 



[1] “Vários autores apontam para a importância da função mediadora da psicossomática psicanalítica na promoção do diálogo entre a clínica médica e a psicanalítica, potencializando o espaço da interdisciplinariedade. Convidando o médico a sintonizar com o valor da rede simbólica e representativa do paciente e suas implicações na organização e desorganizações do psicossoma, psicossomática psicanalítica amplia sua capacidade de escuta, de compreensão etiológica dos sintomas e as possibilidades de intervenção na prática médica. (Soares, et.al., 2015, p.18)

O RETORNO A FREUD E AS DEMARCAÇÕES CONCEITUAIS DA CLÍNICA LACANIANA: COMO ESTAS BALIZAS INFLUENCIAM A PSICANÁLISE NO BRASIL DEPOIS DE LACAN

O RETORNO A FREUD E AS DEMARCAÇÕES CONCEITUAIS DA CLÍNICA LACANIANA: COMO ESTAS BALIZAS INFLUENCIAM A PSICANÁLISE NO BRASIL DEPOIS DE LACAN

 Isabel Perides

RESUMO

O artigo examina a contribuição de Jacques Lacan para a psicanálise, enfatizando seu apelo por um “retorno a Freud.” Lacan argumentava que a psicanálise pós-freudiana se desviou dos princípios fundamentais de Freud, adotando uma visão reducionista e adaptativa que negligenciava a importância da linguagem e do inconsciente. As principais críticas de Lacan à psicanálise pós-freudiana incluem: enrijecimento da técnica, negligência da linguagem, hipertrofia da função do imaginário, ênfase excessiva na contratransferência, modelo adaptativo e fortalecimento egóico. Lacan defende uma psicanálise que promova a transformação subjetiva e a liberdade, em vez de apenas adaptá-la às normas sociais. O artigo também discute a influência da psicanálise lacaniana no Brasil após 1970.

 

PALAVRAS-CHAVE: retorno a Freud, linguagem, técnica psicanalítica e psicanálise no Brasil.

 

O RETORNO A FREUD E AS DEMARCAÇÕES CONCEITUAIS DA CLÍNICA LACANIANA

Jacques Lacan emerge no cenário psicanalítico em um momento de transição, marcado pela crescente influência da Escola Kleiniana. Contemporâneo de Freud, Lacan, apesar da proximidade temporal, não integrou o círculo íntimo de Freud durante os últimos anos de vida do fundador da psicanálise. Lacan propõe um retorno ao Complexo de Édipo, porém com uma releitura que enfatiza a importância da função fraterna, argumentando que a formulação clássica edipiana não aborda a dimensão do fraterno na constituição psíquica do sujeito. Posteriormente, Lacan formula o Estádio do Espelho como elemento crucial na construção do EU, inaugurando uma nova perspectiva sobre a formulação da identidade e da subjetividade. Essa ênfase na função fraterna e a posterior elaboração do Estádio do Espelho marcam o início da trajetória de Lacan no campo psicanalítico, no qual retorna as bases freudianas, mas reinterpreta e a complexifica a partir de um diálogo com outras áreas do conhecimento, como a linguística e a filosofia.

Jacques Lacan direciona críticas à psicanálise pós-freudiana, as quais justificam a necessidade de um retorno a Freud. As principais problemáticas identificadas por Lacan são: enrijecimento da técnica, perda da crítica de conceitos e procedimentos, aversão pelo campo da linguagem, hipertrofia da função do imaginário e o papel da contratransferência.

Essas críticas de Lacan à psicanálise pós-freudiana evidenciam seu esforço em reorientar a psicanálise em direção aos seus fundamentos, revitalizando o legado freudiano e promovendo um retorno teórico e clínico.

A década de 1930 presencia a ascensão da influência kleiniana na Associação Psicanalítica Internacional (IPA). Em contraponto, a partir da década de 1950, Jacques Lacan inicia um período de intensa crítica à instituição, culminando em profundo desacordo. É nesse contexto que, em 1953, publica “Função e Campo da Fala e da Linguagem em Psicanálise”, texto no qual questiona o enrijecimento da técnica psicanalítica. Para Lacan, essa padronização esvazia a função do analista, substituindo-a por uma série de procedimentos protocolares que limitam a singularidade do tratamento e a escuta do sujeito.

No Seminário 3, "As Psicoses", Lacan postula que a compreensão precipitada do analisando constitui uma forma de violência, pois a elaboração de estratégias terapêuticas eficazes requer tempo e uma análise cuidadosa dos elementos e táticas disponíveis. O retorno a Freud proposto por Lacan se justifica pelo enrijecimento teórico da psicanálise pós-freudiana, a qual, em contraste com a postura aberta e autocrítica de Freud, demonstrou resistência à revisão e atualização de seus preceitos. As inúmeras notas de rodapé presentes nos textos freudianos evidenciam sua constante busca por aprimoramento e reformulação de suas ideias. Nesse sentido, Lacan se mantém fiel ao espírito de Freud ao defender a revisão crítica e contínua dos conceitos psicanalíticos, o que implica, paradoxalmente, em uma possível "infidelidade" ao texto freudiano, na medida em que a fidelidade ao movimento do pensamento exige questionamento e até mesmo oposição às formulações originais, quando necessário.

A psicanálise pós-freudiana desviou-se do cerne da descoberta freudiana, ignorando o papel fundamental da palavra e privilegiando abordagens como o reducionismo biológico e o modelo biopsicossocial. No Seminário 1, Lacan destaca a importância do "efeito" da palavra sobre a história e o corpo, retomando a ênfase freudiana na linguagem como elemento central na constituição do sujeito e na dinâmica do inconsciente. Para Lacan, o psicanalista deve aprofundar seus conhecimentos sobre as funções da linguagem, buscando o domínio da fala e aprimorando suas habilidades de escuta. Nesse sentido, Lacan revisita obras essenciais de Freud, como "A Interpretação dos Sonhos", "O Inconsciente" e "Psicopatologia da Vida Cotidiana", a fim de fundamentar a importância da linguagem na teoria e na prática psicanalíticas.

Lacan critica a psicanálise de sua época por sua tendência à rigidez e dogmatismo, evidenciada na cristalização de textos e conceitos tidos como inquestionáveis. Para ele, essa postura transformava a psicanálise em um instrumento de dominação, distanciando-a de sua função original de promover a liberdade do sujeito. Nesse contexto, o retorno a Freud proposto por Lacan representa um esforço para recuperar a essência crítica e subversiva da psicanálise. Ao analisar a Psicologia do Ego e o uso da contratransferência, Lacan adverte sobre o risco de o ego do analista interferir no processo analítico, obstaculizando o desenvolvimento do analisando. Quando o "eu" do analista se manifesta na análise, o "eu" do analisando pode ser ofuscado, impedindo a emergência do sujeito e a elaboração de seus sintomas.

 

MOTIVOS DO SENTIDO DO RETORNO A FREUD POR LACAN:

1) Desbiologização e desnaturalização da psicanálise:

Um dos motivos que impulsionaram o retorno a Freud por Lacan reside na necessidade de uma desbiologização e desnaturalização da psicanálise. Lacan se opõe à tendência, presente na psicanálise pós-freudiana, de reduzir a experiência humana a seus aspectos biológicos e instintivos, negligenciando a dimensão simbólica e linguística que a constitui. Para realizar essa desbiologização, Lacan resgata a noção de falta na obra de Freud, conferindo-lhe um papel central em sua releitura da psicanálise. Embora Freud tenha explorado a falta em diversos momentos de sua obra, Lacan a sistematiza e a torna um conceito fundamental para a compreensão da subjetividade.

2) Oposição a um modelo adaptativo da psicanálise:

Em contraposição a uma visão da psicanálise como um método adaptativo, que visa integrar o indivíduo às normas e expectativas sociais, Lacan recupera a concepção freudiana de uma psicanálise subversiva, que questiona os modos de vida estabelecidos e promove a transformação subjetiva. Freud, desde seus primeiros escritos, concebia a psicanálise como um instrumento de ruptura com as convenções e moral vigentes, propondo uma análise crítica dos mecanismos de repressão e alienação que impedem o sujeito de realizar seus desejos e potencialidades. A psicanálise, portanto, não se limita a adaptar o indivíduo à realidade social, mas busca transformar essa realidade através da liberação do sujeito das amarras do inconsciente e das normas sociais restritivas.

3) Uma psicanálise para além do modelo do fortalecimento egóico:

Superando a perspectiva de uma psicanálise voltada ao fortalecimento do ego, Lacan retoma a concepção freudiana de um ego em constante embate com as forças do id, reconhecendo o caráter perturbador e "nocivo" do inconsciente. Para Freud, não se trata de ignorar ou reprimir as manifestações do inconsciente, mas de enfrentá-las e elaborá-las, como expressa na frase "não há fuga para o que ataca de dentro". Lacan, por sua vez, radicaliza essa perspectiva, argumentando que o inconsciente, apesar de seu caráter desconcertante, contém uma verdade singular do sujeito, que precisa ser escutada e integrada à sua experiência. O objetivo da análise, portanto, não se reduz ao fortalecimento do ego, mas à construção de um estilo próprio, que incorpore a "estranheza" do sujeito, mesmo que ela seja disruptiva e conteste as normas estabelecidas.

4) O reposicionamento da técnica da interpretação (da complementação de lacunas e da ressignificação para um questionamento épico sobre o desejo)

Em contraste com a ideia de "ressignificar a própria história", frequentemente associada a abordagens terapêuticas que buscam reinterpretar o passado, a orientação lacaniana propõe uma análise que se concentra na verdade do sujeito, tal como ela se apresenta no presente. A ênfase recai sobre a escuta do discurso do paciente e a compreensão da estrutura que sustenta seus sintomas, sem recorrer a reinterpretações ou reconstruções históricas. Essa postura se diferencia da busca por ressignificação, na medida em que prioriza a análise do presente e a compreensão da dinâmica inconsciente que se manifesta no discurso e nas ações do sujeito. O objetivo não é reescrever o passado, mas desvelar a lógica que o estrutura e seus efeitos no presente.

5) Introdução de uma concepção refinada do sujeito 

Lacan concebe o inconsciente como pertencente à ordem do não realizado, ou seja, como um conjunto de significantes que não se integram plenamente à consciência e se manifestam de forma distorcida nos sonhos, atos falhos e sintomas. Nessa perspectiva, a clínica psicanalítica não visa a uma rememoração completa do passado, como se a simples recordação de um evento traumático fosse suficiente para eliminar o sintoma. Tal concepção, frequentemente associada à psicanálise, constitui um equívoco, pois ignora a complexidade da dinâmica inconsciente.

Na clínica lacaniana, a mudança não ocorre por meio de um "ato heroico" de rememoração, mas sim de forma gradual e contínua, à medida que o sujeito se depara com as manifestações do seu inconsciente no discurso. A análise não se resume à busca por uma "verdade escondida", mas à construção de um novo modo de relação com a própria história e com o desejo.

COMO ESTAS BALIZAS INFLUENCIAM A PSICANÁLISE NO BRASIL DEPOIS DE LACAN

A psicanálise no Brasil após 1970: Depois de Lacan

Desde Freud, os laços começaram a se estabelecer com os jovens médicos interessados em psicanálise. E no Brasil não foi diferente. O pensamento psicanalítico começa a tomar vulto no Brasil não só pela inserção do pensamento lacaniano, mas, também pela chegada dos psicanalistas argentinos exilados pela ditadura militar: “[...] contrários ao regime, diferentemente dos psicanalistas brasileiros que, em grande maioria, mostravam-se neutros, apolíticos ou, pior ainda, em alguns casos a serviço da ditadura militar que por aqui imperava.” (Santos, 2019, p. 79-81)

Segundo Marco Antônio Coutinho Jorge (apud Santos, 2019, p.81) quando a psicanálise lacaniana chega ao Brasil o cenário é bem parecido com aquele encontrado na França por Lacan na década de 1950, quando então propõe um retorno a Freud e a desbiologização da psicanálise promovida pela IPA. Havendo, previsivelmente, reações contrárias a renovação da psicanálise, os mais antigos e de outras orientações teóricas, consideravam a psicanálise lacaniana “[...] esses jovens lacanianos que surgiam como irresponsáveis, além de perigosamente desrespeitosos com a tradição vigente e, em última instância, destruidores da psicanálise”. Outro elemento importante da renovação foi a presença desses jovens lacanianos em programas de rádio, televisão e participação em atividades acadêmicas e congressos. (Santos, 2019, p. 81-82)

No Brasil, a psicanálise lacaniana, propõe uma renovação e uma visível abertura para o acesso a um maior número de pessoas à psicanálise, quer seja como analisando, quer seja como analista.

Santos (2019, p. 90) conclui que a década de 1970 a psicanálise no Brasil depois de Lacan marca uma década que coloca fim à hegemonia de uma Psicanálise única, ditada pela IPA e sua representante oficial no Brasil, a Sociedade Brasileira de Psicanálise, como seu modo quase que inflexível de concepção de formação, acesso e, em especial, o reconhecimento daqueles que poderiam ser chamados de psicanalistas. Para Santos (2019, p. 125), a proposta lacaniana, em 1970, chega ao Brasil como forma de tornar a psicanálise um pouco mais acessível.

CONCLUSÃO

Jacques Lacan em seu retorno a Freud revitalizou a psicanálise ao enfatizar a importância da linguagem e do simbólico na constituição do sujeito. Lacan criticou a psicanálise pós-freudiana por sua tendência à biologização, ao reducionismo adaptativo e à hipertrofia do imaginário, desviando-se do foco original na linguagem e no inconsciente. Ele resgatou a dimensão ética e subversiva da psicanálise, promovendo a liberdade do sujeito em detrimento da mera adaptação social. No Brasil, a influência de Lacan democratizou o acesso à psicanálise, desafiando a hegemonia da IPA e promovendo uma maior abertura teórica e clínica. O "retorno a Freud" proposto por Lacan continua a inspirar e desafiar psicanalistas em todo o mundo, garantindo a vitalidade e a relevância da psicanálise no século XXI

REFERÊNCIAS

 

FREUD, S. Obras Completas, v.4. A interpretação dos sonhos. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

______, S. Obras Completas, v.5. Psicopatologia da vida cotidiana. São Paulo: Companhia das Letras, 2021. 

______, S. Freud e o inconsciente. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 1985.

JORGE, M. A. C. Jacques Lacan e a renovação da clínica psicanalítica. Sobre o impacto de seu ensino no Brasil. In: JORGE, M.A.C. (org.) Lacan e a formação do psicanalista. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2006, p.195-204. 

LACAN, J. O Seminário, livro 1: Os escritos técnicos de Freud. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1979.

LACAN, J. O Seminário, livro 3: As psicoses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985.

MILLAN, B. Difusão da psicanálise lacaniana no Brasil. Disponível em:<http://www2.uol.com.br/bettymilan/entrevistas/28-difusao.htm>. Acesso em 23 de fev. 2014.

RAVANELLO, T. Módulo I – Disciplina: Freud com Lacan, Lacan com Freud. Aulas: 16 e 17 de agosto de 2014 e 27 e 28 de setembro de 2024. Clínica Psicanalítica Lacaniana (Turma online 1). Londrina: Instituto Espe, 2024.

SANTOS, L. dos. A psicanálise no Brasil: antes e depois de Lacan. Posições do Psicanalista nessa história. São Paulo: Editora Zagodoni, 2019.